Os vídeos da Casa Branca sobre a guerra com o Irão entram em choque com o que acontece no terreno
O governo dos Estados Unidos não quer apenas que os norte-americanos apoiem a guerra lançada com Israel contra o Irão; quer também entusiasmar a população.
A distorção da realidade através de vídeos de propaganda para defender as decisões mais controversas da administração Donald Trump já se tornou familiar.
Ecoando a lógica com que o Departamento de Segurança Interna transformou a deportação em massa em pequenos vídeos de ação ao estilo de Hollywood, o Pentágono, a Casa Branca e o Comando Central dos EUA (CENTCOM) estão agora a transformar a guerra em memes.
Mas a forma como estes vídeos entram em choque com relatos no terreno também é familiar. Nos Estados Unidos, as deportações em massa separaram famílias e acabaram por atingir, por exemplo, jovens talentosos que tocavam mariachi, além de outros imigrantes não violentos — para além dos criminosos que a administração prometera atingir.
Também houve casos em que pessoas mortas por agentes federais não estavam envolvidas em terrorismo interno, como o governo inicialmente alegou.
Na guerra, torna-se cada vez mais difícil para a administração negar que um míssil Tomahawk norte-americano atingiu uma escola feminina, como sugere uma análise da CNN. Os militares dos EUA dizem que a investigação ao ataque continua. No entanto, a CNN noticiou na quarta-feira que o bombardeamento pode ter sido ordenado com base em informações desatualizadas sobre uma base naval próxima.
Confirmar quais vídeos são verdadeiros tornou-se cada vez mais difícil numa altura em que as redes sociais estão também inundadas de conteúdos falsos gerados por inteligência artificial. Na verdade, o Irão tem divulgado alguns vídeos claramente falsos que alegam mostrar soldados norte-americanos capturados e bombas a atingir Telavive — situações que não são verdadeiras.
O que a administração Trump quer que os americanos vejam
Na versão da Casa Branca sobre a guerra com o Irão, os sistemas de armas — bombardeiros B-2, HIMARS, caças F-18 e todo o tipo de equipamento explosivo — assumem o papel principal, ao lado de membros da administração Trump.
Um vídeo que inclui áudio de Trump, do secretário da Defesa Pete Hegseth e do secretário de Estado Marco Rubio tem o estilo de um trailer de cinema e usa uma versão atualizada da música “Boom Boom”, de John Lee Hooker.
Nestes vídeos, todos os mísseis atingem os seus alvos e não há imagens de vítimas, sejam norte-americanas ou iranianas. Trump sugere no vídeo que dissidentes iranianos devem aproveitar a oportunidade para iniciar uma nova revolução. Em público, afirmou que não lhe importa se o país se torna ou não uma democracia.
A guerra terminará, repete Hegseth, quando os Estados Unidos decidirem que terminou. Essa ideia entra em choque com o facto de o Irão ter escolhido Mojtaba Khamenei, filho do aiatola assassinado Ali Khamenei, como sucessor do líder supremo. Trump disse que a ascensão do mais jovem Khamenei é “inaceitável”, mas recusou dizer se o novo líder iraniano se tornou agora um alvo.
Militares divertem-se
Num discurso perante republicanos da Câmara dos Representantes em Miami, na segunda-feira, Trump pareceu brincar ao dizer que os militares se divertem mais a afundar navios iranianos do que a capturá-los. “Eles preferem afundá-los. Dizem que é mais seguro afundá-los. Imagino que provavelmente seja verdade”, afirmou. Este conflito já registou o primeiro afundamento de um navio por torpedo da Marinha dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. Os militares divulgaram um vídeo da operação.
Uma guerra com logótipo e sem misericórdia
Noutro vídeo publicado pelo Comando Central dos EUA, as explosões aparecem em câmara lenta num estilo visual elaborado e a publicação termina com o logótipo “Operation Epic Fury”. Sim, esta guerra parece ter um logótipo.
Esse vídeo junta-se a uma longa lista de conteúdos já criticados por glorificarem o conflito, ao intercalar imagens de ataques com mísseis com cenas de videojogos como Call of Duty ou Grand Theft Auto, onde — ao contrário da vida real — as vidas são ilimitadas.
"Códigos de batota"
Depois de a CNN transmitir um segmento apresentado por Jake Tapper sobre o vídeo inspirado em Grand Theft Auto, o diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, agradeceu à cadeia televisiva “por divulgar todos os nossos vídeos explosivos”.
“L1, R1, SQUARE, R1, LEFT, R2, R1, LEFT, SQUARE, DOWN, L1, L1”, escreveu Cheung noutra publicação.
(Para quem não joga videojogos, trata-se de uma sequência de comandos num comando de consola para obter munição ilimitada — algo que, como qualquer pessoa que acompanhe a guerra sabe, não existe para o exército norte-americano.)
Uma luta que não pretende ser equilibrada
“Estamos a atacá-los quando estão em baixo”, diz Hegseth num vídeo que mostra uma explosão num hangar. “É exatamente assim que deve ser.”
“Isto NÃO é uma luta justa”, lê-se na legenda de outra publicação na conta de Instagram “deptofwar”. “As nossas capacidades são esmagadoras — e não vamos parar até o Irão se render incondicionalmente.”
Apesar disso, os EUA parecem também querer retratar a guerra como um jogo com regras. Há um vídeo que mistura ataques militares — alguns dos quais provavelmente provocaram mortes — com imagens de placagens violentas em jogos de futebol americano.
Noutro momento, o som de tacos de basebol da Major League Baseball a bater na bola é sincronizado com explosões.
Momentos de tristeza
Entre vídeos concebidos para acelerar o pulso surgem também outros destinados a tocar as emoções. Trump não se limitou a assistir à cerimónia solene de transferência dos restos mortais de seis militares norte-americanos mortos nos primeiros dias da guerra. Levou consigo uma equipa de filmagem. Imagens da cerimónia, acompanhadas por uma versão da música “Amazing Grace”, foram publicadas pela Casa Branca com o slogan: “Freedom is never free” (“A liberdade nunca é gratuita”).
Vídeo que não será exibido na transmissão da Casa Branca
Se a administração Trump quer mostrar o poder militar dos EUA, o presidente não quer reconhecer um possível papel norte-americano nas vítimas iranianas. Segundo os meios de comunicação estatais do Irão, 168 crianças e 14 professores morreram no bombardeamento da escola.
Uma análise da CNN e de outros órgãos de comunicação sugere que a escola — situada perto de uma base militar — foi atingida por um míssil Tomahawk. Embora outros países possuam esse tipo de míssil, nenhum deles está atualmente envolvido neste conflito.
Trump tentou afastar responsabilidades numa conferência de imprensa na segunda-feira, sugerindo que o míssil poderia ter sido lançado pelo próprio Irão.
“O facto de ser um Tomahawk — um Tomahawk é algo muito genérico. É vendido a outros países”, afirmou, recusando assumir culpas por agora. Disse que acabará por “aceitar” o resultado da investigação militar em curso. Antes disso, tinha sugerido que o ataque poderia ter sido “feito pelo Irão”.
A perspetiva do Irão
Para perceber como é a situação no terreno, a CNN é uma das raras organizações a reportar a partir do interior do Irão. O jornalista Fred Pleitgen está no país com a fotojornalista Claudia Otto. A CNN opera no Irão com autorização do governo, conforme exigido pelas leis locais, mas mantém controlo editorial total sobre o que publica. Na terça-feira, os dois testemunharam ondas de ataques aéreos intensos.
Americanos estão céticos em relação à guerra
A propaganda não é novidade em tempos de guerra — algo bem conhecido de quem se lembra de Rosie the Riveter ou dos filmes de Ronald Reagan durante a Segunda Guerra Mundial produzidos com apoio militar.
Mas, independentemente da estratégia da administração Trump para vender esta guerra, há sinais de que não está a resultar junto da opinião pública norte-americana. Sondagens indicam que a maioria dos americanos desaprova o conflito, embora exista apoio entre a maioria dos eleitores republicanos.
Há também indícios de que Trump nem sempre está a par de toda a propaganda feita em seu nome. A então secretária da Segurança Interna Kristi Noem declarou sob juramento no Capitólio que Trump tinha aprovado uma campanha publicitária controversa de 220 milhões de dólares (cerca de 202 milhões de euros) na qual ela aparecia em destaque. Segundo uma investigação da ProPublica, essa campanha resultou também num lucrativo subcontrato para o marido de uma ex-porta-voz do departamento.
Trump, porém, disse não se lembrar da campanha centrada em Noem.
“Nunca soube nada sobre isso”, afirmou à Reuters na quinta-feira, pouco antes de ser anunciada a saída de Noem do cargo.
Há também sinais de que Trump está preocupado com o impacto da guerra com o Irão nos preços da gasolina. O presidente tem dito que o conflito terminará em breve — antes de se contradizer ao afirmar que os Estados Unidos ainda têm mais por fazer.