O que revelam 3 milhões de novos documentos sobre as ligações de Trump a Epstein

CNN , Jeremy Herb e Marshall Cohen
2 fev, 13:32
Jeffrey Epstein e Donald Trump fotografados juntos na propriedade do agora presidente dos Estados Unidos em Mar-a-Lago, Palm Beach, Florida, a 22 de fevereiro de 1997. Davidoff Studios/Getty Images

 

 

Milhões de ficheiros e mil referências a Trump voltam a expor a relação entre o agora presidente dos Estados Unidos e o predador sexual

O presidente dos Estados Unidos é mencionado mais de mil vezes nos três milhões de documentos relacionados com Jeffrey Epstein divulgados na sexta-feira, depois de o próprio Donald Trump ter inicialmente resistido à sua publicação. Embora algumas das referências sejam benignas, outras incluem novas alegações contra Trump de agressão sexual, bem como novos detalhes sobre a forma como algumas vítimas de Epstein descreveram os seus contactos com o então futuro presidente.

De forma particularmente significativa, os documentos agora tornados públicos incluem uma lista de alegações de agressão sexual contra Trump, não verificadas, compilada por responsáveis do FBI no ano passado. Existem também anotações do FBI relativas a uma mulher que acusou Trump, num processo judicial, de a ter violado quando tinha 13 anos, bem como o registo de uma entrevista do FBI a uma das vítimas de Epstein, que afirmou que a cúmplice do financeiro, Ghislaine Maxwell, a terá “apresentado” a Trump numa festa.

Não existe qualquer prova pública de que alguma das alegações contra Trump constantes nos documentos tenha sido considerada credível pelo FBI, e o Departamento de Justiça (DOJ) afirmou na sexta-feira que as acusações contra Trump incluídas nos ficheiros são falsas. Trump tem, ao longo dos anos, negado qualquer irregularidade relacionada com Epstein ou qualquer alegação de má conduta sexual.

Comentando a divulgação dos documentos no sábado, Trump afirmou: “Não vi pessoalmente, mas disseram-me pessoas muito importantes que isto não só me iliba, como é exatamente o oposto daquilo que algumas pessoas esperavam.”

As novas revelações recordam também a resistência inicial de Trump à divulgação dos ficheiros, apesar de se ter comprometido a fazê-lo quando assumiu funções.

O Congresso acabou por contrariar Trump e aprovou uma lei que obrigava o Departamento de Justiça a divulgar todos os documentos relacionados com Epstein até meados de dezembro. O vice-procurador-geral, Todd Blanche, afirmou que o Departamento de Justiça concluiu finalmente essa obrigação na sexta-feira, com a publicação de 3,5 milhões de documentos, embora alguns tenham sido retidos ao abrigo de exceções previstas na lei.

Os novos detalhes recordam ainda a amizade de décadas entre Trump, Epstein — um criminoso sexual condenado que se suicidou na prisão em 2019 — e Ghislaine Maxwell, a sua colaboradora de longa data, atualmente a cumprir pena de prisão por tráfico sexual.

É difícil, nesta fase, compreender plenamente o alcance do conteúdo incluído nos milhões de documentos disponibilizados online, dada a dimensão sem precedentes da divulgação.

Uma pesquisa no site do Departamento de Justiça dedicada ao caso Epstein pela expressão “Donald Trump” devolveu mais de 1.800 resultados, número que aumentou ao longo de sexta-feira à medida que o site ia indexando novos ficheiros. Muitas das referências correspondem a artigos noticiosos sobre Trump durante a sua presidência, partilhados por Epstein, bem como comentários do próprio Epstein sobre Trump feitos a jornalistas e a outros, como Steve Bannon.

Blanche afirmou que a Casa Branca não teve qualquer intervenção na revisão dos documentos.

“Quero ser absolutamente claro — não tiveram nada a ver com esta revisão”, afirmou. “Não supervisionaram o processo, não disseram ao departamento como rever os documentos, o que procurar, o que ocultar ou não.”

Todd Blanche durante uma conferência de imprensa no Departamento de Justiça, a 30 de janeiro de 2026, em Washington, DC.
Alex Wroblewski/AFP/Getty Images

O Departamento de Justiça afirmou na sua nota oficial que “alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump, submetidas ao FBI pouco antes das eleições de 2020”. “Para que fique claro, essas alegações são infundadas e falsas, e se tivessem qualquer credibilidade, já teriam sido usadas como arma contra o presidente Trump.”

FBI compilou alegações contra Trump no ano passado

Um dos documentos mais intrigantes envolvendo Trump é uma lista compilada pelo FBI em agosto passado, contendo mais de uma dúzia de alegações relacionadas com o presidente, muitas das quais parecem ter origem em denúncias não verificadas recebidas através do Centro Nacional de Operações de Ameaças do FBI, que recolhe informações do público.

Os documentos surgem em mensagens de correio eletrónico enviadas por responsáveis do gabinete do FBI em Nova Iorque, integrados na Task Force de Exploração Infantil e Tráfico Humano. “O destaque a amarelo corresponde à parte mais sensacionalista”, escreveu um dos responsáveis para explicar a forma como as alegações estavam a ser organizadas.

Não é claro por que motivo estas alegações foram reunidas no verão passado. Em julho, o FBI e o Departamento de Justiça divulgaram um memorando afirmando não existir qualquer prova de que Epstein mantivesse uma lista de homens poderosos envolvidos numa rede de tráfico sexual e pedofilia.

Sede do FBI, em Washington, a 20 de julho de 2025. Eric Lee/Getty Images

As alegações parecem não verificadas, e os próprios documentos indicam que, em muitos casos, se tratava de informação em segunda mão. O relatório refere ainda que, frequentemente, não houve contacto com os autores das denúncias ou que não existia qualquer informação de contacto.

O mesmo documento inclui alegações não verificadas contra o antigo presidente Bill Clinton, que também negou qualquer irregularidade relacionada com Epstein.

Trump não queria que este dia chegasse

Entre os seus mandatos presidenciais, muitos aliados de Trump tornaram-se influenciadores e comentadores da direita. Vários deles — incluindo o atual diretor do FBI, Kash Patel — exploraram o caso Epstein para sugerir que o Departamento de Justiça estaria a proteger democratas e figuras liberais, ignorando simultaneamente as ligações bem documentadas entre Trump e Epstein.

Após essa mobilização da base republicana, aumentou a pressão sobre a administração Trump para usar os seus novos poderes sobre o DOJ e o FBI e divulgar os documentos guardados. Uma tentativa inicial da procuradora-geral Pam Bondi saiu pela culatra, quando os materiais anunciados se revelaram uma compilação de documentos já públicos.

Seguiu-se uma pressão crescente de congressistas republicanos, em articulação com democratas, que viam o tema como uma arma política contra Trump, após mais de uma dúzia de mulheres o terem acusado de agressão e assédio sexual e depois de um júri o ter considerado responsável, em 2023, por abuso sexual de E. Jean Carroll, num processo civil de difamação. Trump nega todas as acusações e nunca foi acusado criminalmente em ligação a Epstein.

Trump tentou impedir a aprovação da lei, chegando a pressionar pessoalmente deputados republicanos na Casa Branca. Acabou, contudo, ultrapassado por um amplo consenso bipartidário. A lei foi aprovada quase por unanimidade e Trump assinou-a em novembro.

Novas revelações das divulgações de dezembro

A primeira vaga de documentos foi divulgada a 19 de dezembro, que era o prazo final para o fazer. Apesar de ser um lançamento parcial, o nome de Trump surgiu repetidamente.

Esses documentos revelaram que procuradores federais reuniram provas em 2020 de que Trump viajou várias vezes no avião privado de Epstein durante os anos 1990, contrariando declarações anteriores do próprio Trump, incluindo uma afirmação de 2024 em que disse: “Nunca estive no avião de Epstein.”

Os documentos de dezembro mostraram ainda que o Departamento de Justiça emitiu uma intimação ao clube Mar-a-Lago, antes do julgamento criminal de Ghislaine Maxwell em 2021, pedindo informações sobre um antigo funcionário.

Tal como agora, responsáveis nomeados por Trump sublinharam que os ficheiros incluíam denúncias não verificadas, reiterando que continham “alegações falsas e sensacionalistas submetidas ao FBI antes das eleições de 2020”.

Os documentos aprofundaram também o conhecimento público sobre as ligações de Epstein a figuras democratas, celebridades e empresários, mostrando ainda que Epstein acompanhava de perto as notícias sobre Trump e mantinha contactos mais frequentes com Steve Bannon do que se sabia.

Notas do FBI sobre Trump

Entre os milhões de páginas divulgadas constam anotações de entrevistas do FBI a vítimas de Epstein. Embora não tenham surgido provas conclusivas, os documentos voltaram a chamar a atenção para as ligações duradouras entre Trump e um predador sexual condenado.

Um memorando refere que uma vítima afirmou que Maxwell a terá “apresentado” a Trump numa festa em Nova Iorque e indicado que ela estaria “disponível”, dizendo-lhe: “Acho que ele gosta de ti. Não tens sorte? Isto é ótimo.” Segundo o documento, nada aconteceu entre a mulher e Trump.

Outro memorando refere uma entrevista de 2021 a Virginia Giuffre, uma das mais conhecidas sobreviventes de Epstein, que se suicidou em abril de 2025. As notas indicam que Giuffre falou do seu trabalho adolescente em Mar-a-Lago, de como foi recrutada a partir daí para trabalhar para Epstein e dos abusos sexuais que afirma ter sofrido posteriormente.

Os ficheiros incluem ainda um formulário do FBI sobre uma queixa apresentada por uma mulher que acusou Trump de a ter violado quando tinha 13 anos.

A mulher, identificada como Jane Doe, já havia movido processos contra Trump, dos quais desistiu, o último pouco antes da eleição de 2016.

O documento do FBI detalha vários episódios em que a mulher alegou ter sido abusada por Trump, incluindo violação. Refere também que Epstein estaria alegadamente “furioso por Trump ter sido o primeiro a tirar a virgindade a Doe” e que também violou Doe. Estas descrições coincidem com as acusações apresentadas por Jane Doe no processo judicial que intentou em 2016.

Trump já tinha anteriormente negado as acusações feitas pela mulher.

Quando o processo foi retirado em 2016, Epstein enviou por email notícias sobre esse desenvolvimento a vários colaboradores, mensagens que estão incluídas nos ficheiros divulgados na sexta-feira. Há ainda emails que Epstein reencaminhou para Tom Barrack, amigo de Trump, em abril de 2016, quando um jornalista da Reuters contactou Epstein para pedir comentários depois de o processo ter sido apresentado.

“É uma loucura, mas achei que vocês deviam saber”, escreveu Epstein.

A visão de Epstein sobre Trump

Para além das notas do FBI, os documentos de Epstein incluem vários emails que oferecem um vislumbre da visão do agressor sexual condenado sobre o seu antigo amigo, depois de este ter sido eleito presidente em 2016.

Epstein trocou emails com um vasto leque de pessoas, incluindo jornalistas, executivos e outras figuras, com numerosos comentários sobre Trump.

Jeffrey Epstein em Cambridge, Massachusetts, em 8 de setembro de 2004. Rick Friedman/Corbis News/Getty Images

Em dezembro de 2018, Epstein pediu ajuda ao jornalista e escritor Michael Wolff para contrariar uma notícia. A troca de mensagens aconteceu poucos dias depois de o Miami Herald ter publicado uma investigação aprofundada, baseada em entrevistas com dezenas de mulheres que afirmaram ter sido vítimas de abusos por parte de Epstein.

“Estou a pensar no que o Trump faria”, escreveu Epstein a Wolff, enquanto iam trocando ideias.

“Nunca tenta explicar. Nega, culpa os media, descredibiliza outra pessoa”, respondeu Wolff, que nesse ano tinha publicado um livro sensacionalista sobre a Casa Branca de Trump.

“Tudo sobre Donald Trump, o verdadeiro vilão”, acrescentou Wolff de seguida.

Questionado no sábado sobre a divulgação global dos ficheiros, Trump destacou especificamente as trocas de mensagens entre Epstein e Wolff.

“Este tipo, o Wolff, era um escritor, estava a conspirar com o Epstein para me prejudicar”, disse Trump aos jornalistas a bordo do Air Force One, acrescentando que iria “certamente processar” o autor.

Existem vários emails trocados entre Epstein e Larry Summers, antigo secretário do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente da Universidade de Harvard, nos quais discutem a campanha presidencial de Trump e o seu primeiro mandato. Summers disse anteriormente à CNN que se sente “profundamente envergonhado” pelas suas correspondências com Epstein e que pediu licença da docência em Harvard em novembro.

Em outubro de 2016, Summers perguntou a Epstein: “Até que ponto é plausível a ideia de que Trump seja realmente consumidor de cocaína?”

“Zero”, respondeu Epstein.

Ao discutirem a política externa de Trump, em julho de 2017, Summers escreveu a Epstein: “Acho que o teu amigo é mentalmente doente.”

“Não é meu amigo”, respondeu Epstein. “E já te disse isso antes.”

*MJ Lee, Hannah Rabinowitz e Sarah Owermohle contribuíram para este artigo

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