O caso dos generais russos mortos que não se sabe exatamente se estão mesmo mortos: o que isto nos diz e não diz sobre a guerra

3 abr, 10:00
Tropas russas

A alegada morte de tantos generais russos - em paralelo com as de outras patentes intermédias - em pouco mais de um mês de guerra acontece a um ritmo que não era visto desde a II Guerra Mundial. Mas qual é o impacto concreto disso? "O que falta à Rússia não são generais. Se morrer um general, avança outro"

  A extensão de baixas nas forças russas em território ucraniano pode estar a atingir proporções consideráveis, com um pormenor que se tem observado praticamente desde o início do conflito: a alegada morte de vários oficiais russos. Se o conselheiro do presidente Zelensky, Mykhailo Podoliak, assegura que pelo menos seis generais e dúzias de oficiais de nível intermédio (como tenentes ou capitães) foram mortos, por outro lado Moscovo confirma apenas a morte de um general. 

O Governo ucraniano considera que a neutralização "extraordinária" de oficiais russos é um sinal de "total falta de preparação" da Rússia, enquanto um alto oficial militar francês, citado pela AFP, aponta que "os líderes militares russos estão a ser forçados a avançarem muito nas linhas de contacto". De acordo com esta fonte militar francesa, ou as ordens "são mal compreendidas ou mal recebidas ou as unidades não obedecem ou há um grande problema de moral que obriga os generais a irem à frente". Esta é uma informação corroborada também pelos serviços de informação britânicos, que garantem que algumas unidades russas estão a recusar cumprir ordens.

O major-general Agostinho Costa, em declarações à CNN Portugal, explica que estes oficiais russos dados como mortos lideravam forças no terreno e que, por essa razão, estão mais expostos a ataques de fogo: "Morrerem generais não é nada de impossível, tendo em conta que esta é uma operação feita em profundidade. Mas é importante compreender que a morte de um general a nível tático não substancia uma mudança na estratégia", diz, acrescentando que em termos estratégicos um general que faça efetivamente diferença é alguém como Valeri Gerasimov, o atual Comandante das Forças Armadas da Rússia. "O que falta à Rússia não são generais. Se morrer um general, avança outro", afirma Agostinho Costa.

De destacar também que a Rússia não tem um general supremo em território ucraniano. Segundo o major-general Agostinho Costa, na doutrina russa a estrutura dos generais é piramidal e o controlo estará a ser feito a partir de Rostov, cidade russa perto da fronteira com a Ucrânia. E mais do que a morte de vários generais, a ausência de um comandante geral de operações no terreno pode justificar dificuldades operacionais. "Isso é imprudente. A unidade de comando é um princípio de guerra testado pelo tempo e requer um único comandante com autoridade para liderar todas as forças em busca de uma estratégia unificada", afirma Mark Hertling, tenente-general aposentado do exército norte-americano, citado pela Forbes.

Então porque é que a Ucrânia conseguiu supostamente a eliminar tantos generais russos? Acautelando que existe ainda muito pouca informação sobre as mortes destes oficiais, o major-general Agostinho Costa destaca a importância de enquadrar a questão numa guerra de informação. "Faz parte da estratégia da Ucrânia atacar postos de comando para dar uma indicação de eficácia - é expectável e normal. Faz todo o sentido. A morte dos generais faz parte de uma imagem de eficácia da campanha mediática e comunicacional da Ucrânia", aponta - mas faz uma ressalva: "Não dou muita credibilidade aos dados. Tal como não dou de parte a parte. Como é que os russos sabem quantos ucranianos morreram?", questiona, respondendo de seguida que estas são estimativas decorrentes de operações.  

O major-general Carlos Branco faz a mesma leitura: "Não sabemos se é verdade, nem as circunstâncias. Isto é tipicamente contrainformação". O general Leonel de Carvalho questiona também a veracidade das informações no que diz respeito a mortes de generais, mas frisa que esta é uma guerra que se faz também a nível comunicacional e que o moral pode influenciar decisões a nível político.

Além disso, outro factor pode estar numa tentativa de atrasar o ritmo da invasão russa. Segundo Oleksiy Arestovych, conselheiro do gabinete de Volodymyr  Zelensky, em declarações ao The Washington Post, matar altas patentes no terreno pode atrasar os avanços da Rússia "três, quatro ou cinco dias", o tempo que o Kremlin demorá a destacar novas estruturas de comando.

Quem são os generais russos dados como mortos 

A primeira baixa confirmada foi a de Andrei Sukhovetsky, um major-general russo que comandava a 7.ª Divisão Aérea. O oficial russo tinha 47 anos e morreu no dia 3 de março, alegadamente vítima de um sniper ucraniano.

Poucos dias depois, a 7 de março, foi anunciada a morte de outro general. Desta vez tratava-se de Vitaly Gerasimov, major-general e primeiro vice-comandante do 41.º exército do Distrito Militar Central da Rússia, eliminado pelas tropas ucranianas nos arredores da cidade de Kharkiv, um dos principais alvos russos no início da ofensiva.

O major-general Andrei Kolesnikov, comandante do 29º Exército Combinado de Armas, foi dado como morto a 11 de março. Em menos de dez dias o exército russo tinha perdido três dos seus principais líderes.

Na cidade cercada de Mariupol, o combate faz-se rua a rua, prédio a prédio. E foi lá que o major-general Oleg Mityaev, comandante da 150.ª divisão de fuzileiros motorizados russa, foi morto por combatentes do Batalhão Azov. Também o coronel Sergei Sukharev, comandante do 331.º regimento de paraquedistas russo, foi morto juntamente com várias outras chefias russas, de acordo com a televisão estatal russa. As forças ucranianas falam numa emboscada ao seu posto de comando.

Há ainda a registar a morte do vice-comandante da frota russa do Mar Negro, capitão Andrey Paly, que perdeu a vida durante o cerco à cidade portuária de Mariupol.

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