"Nem sei quem está morto ou vivo". Diretor-geral da OMS não consegue enviar dinheiro para a família na Etiópia

26 ago, 13:09
Tedros Adhanom Ghebreyesus

Tedros Ghebreyesus, médico e diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, é natural da região do Tigray, na Etiópia, afetada por um conflito armado desde 2020

Tedros Ghebreyesus, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, disse esta sexta-feira numa conferência de imprensa que tem família a passar fome na Etiópia, lamentando não conseguir enviar dinheiro aos familiares da região do Tigray, de onde é natural, para os ajudar. 

"Tenho lá muitos familiares. Quero enviar-lhes dinheiro. Não consigo", frisou Ghebreyesus, citado pela BBC.

"Nem sequer sei quem está morto ou quem está vivo", lamentou. 

Esta não é a primeira vez que o diretor-geral da OMS, que é médico, fala em conferência de imprensa sobre a situação na sua região natal do Tigray, cujos responsáveis estão desde 2020 em conflito armado contra as forças governamentais.

Ainda no passado mês de abril, Tedros Ghebreyesus defendeu que o mundo “não presta o mesmo grau de atenção às vidas dos negros e às dos brancos”, comparando a atenção dada à Ucrânia e a conflitos noutros países.

“Toda a atenção prestada à Ucrânia é muito importante, é claro, porque [o que lá se passa] tem impacto em todo o mundo, mas não é dada sequer uma fração dessa atenção ao Tigray, ao Iémen, ao Afeganistão, à Síria e a todos os outros”, lamentou Ghebreyesus. “O que está a acontecer na Etiópia é trágico, as pessoas são queimadas vivas por causa da sua etnia, e por nada mais, e não tenho a certeza se isso foi levado a sério pela comunicação social”, acrescentou na altura. 

Logo em 2020, o diretor-geral da OMS negou a veracidade das declarações de um general etíope, que o acusou de ajudar a enviar armas aos rebeldes na região do Tigray.

"Há relatos de que estou a tomar partido nesta situação. Não é verdade", escreveu Ghebreyesus numa declaração divulgada no Twitter. "O meu coração parte-se pelo meu país, a Etiópia, e apelo a todas as partes para que trabalhem para a paz e para assegurar a segurança dos civis e o acesso à saúde e à ajuda humanitária".

 

Já em março de 2022, as forças do Tigray e o governo etíope chegaram a acordo para uma trégua humanitária, mas os combates retomaram esta semana após um período mais calmo. Um porta-voz da Frente de Libertação do Povo do Tigray disse à BBC que há combates a decorrer e que as pessoas da região estão a sofrer, acusando o governo de ter reiniciado o conflito; o executivo, por seu lado, garante que a responsabilidade da nova onda de violência é dos locais. 

"Temos pessoas a morrer de fome por causa do cerco que nos foi imposto pelas autoridades de Adis Abeba e dos seus parceiros no crime. Temos pessoas a precisar desesperadamente de ajuda humanitária", disse o porta-voz da Frente de Libertação do Povo do Tigray, Getachew Reda.

O conflito começou em novembro de 2020 na região etíope do Tigray, alastrando depois às regiões de Amhara e Afar. Milhares de pessoas morreream e, de acordo com números do governo norte-americano, citados pela BBC, mais de dois milhões de pessoas deixaram as suas casas e outras 700 mil ficaram sem alimentação.

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