"Não somos perfeitos, mas estamos a tentar, caramba": Gabriela Hearst da Chloé sobre tornar a moda sustentável

CNN , Fiona Sinclair Scott
21 nov, 22:05
Gabriela Hearst
Gabriela Hearst

Um poncho de caxemira feito à mão da Gabriela Hearst custa mais de 3 mil dólares e uma saia de pele (já esgotada no website da Chloé) custa 5.895 dólares

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Quando a estilista uruguaia Gabriela Hearst foi anunciada como diretora criativa da marca de luxo Chloé, em dezembro de 2020, os conhecedores do seu trabalho sabiam que iria significar mudança para a marca francesa, com mais de 70 anos. Sobretudo após o CEO da Casa, Riccardo Bellini, ter sugerido que procurava levar a marca numa nova direção específica.

Há muito que Hearst vinha ganhando nome como uma estilista sensata, preocupada em fazer belas roupas, mas não à custa do nosso planeta. O lançamento da sua marca homónima, em 2015, chegou uns anos depois de Hearst ter herdado o rancho da família, através do pai. Foi uma experiência que definiu o seu compromisso com a sustentabilidade.

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Assumir o controlo da quinta onde cresceu e as recordações da infância num local remoto influenciaram a sua abordagem ao design de moda: lento, pequeno e com ênfase na criação de artigos feitos à mão. Por exemplo, muitas das malas de pele de Hearst são feitas por encomenda ou produzidas em pequenos lotes.

Sediada em Nova Iorque há muitos anos, Hearst divide agora o tempo entre França e os Estados Unidos, desenhando coleções para a Chloé e para a marca com o seu nome. E apesar de haver diferenças óbvias entre as duas marcas, o espírito das suas criações permanece consistente.

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Durante uma entrevista no showroom da Chloé, em Paris, uns dias apenas antes de participar num painel da COP26, juntamente com o artista Dustin Yellin e o chef do restaurante Eleven Madison Park, Daniel Humm, a estilista falou abertamente – e com sentido de urgência – sobre o papel da moda em transformar a crise climática no que ela chama "sucesso climático".

"Cresci numa quinta," disse. "Tudo é aproveitado numa quinta, foi onde aprendi técnicas utilitárias para a sustentabilidade."

"Vivemos num mundo que produz em excesso de coisas de que não precisamos," disse, explicando que a sua abordagem de três tópicos ao design tem em conta os combustíveis fósseis, o excesso de consumo e a necessidade de reabilitar o ambiente. "O que faz este produto a esses três tópicos?" é uma das perguntas que coloca quando está a criar uma nova roupa ou acessório, afirma. "Está a poupar água? Utiliza menos combustíveis fósseis? Pode ser transportado por barco (em vez de avião)?"

Este espírito é, em parte, a razão por que as suas roupas são tão dispendiosas. Um poncho de caxemira feito à mão da Gabriela Hearst custa mais de 3 mil dólares e uma saia de pele (já esgotada no website da Chloé) custa 5.895 dólares. As etiquetas com o preço podem parecer excessivas, até para uma marca de luxo, mas Hearst diz que quer que os clientes pensem antes de comprarem. Quer que os clientes vejam as suas criações como relíquias de família ou, pelo menos, investimentos para a vida. Se forem encaradas dessas forma, um par de botas que custa mais de 1500 dólares, por exemplo, pode ser visto como uns apetecíveis 60 dólares por ano, se forem usadas durante 25 anos.

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Na Met Gala de setembro de 2021, Hearst vestiu a atriz Gillian Anderson, de Chloé.
Arturo Holmes/MG21/Getty Images

"Digo sempre aos meus clientes: não comprem muito, comprem o que precisam, o que querem e o que querem deixar a alguém." É uma mentalidade que herdou da mãe, cujas roupas feitas pelo alfaiate da família eram concebidas para durar uma vida inteira.

Hearst foi atraída para a Chloé porque era uma estética que ela compreendia. "Era natural no meu vocabulário," afirmou em jeito de brincadeira que o cargo tinha de ir para ela porque partilha o nome com a fundadora da marca, Gaby Aghion.

Num tom mais sério, a estilista disse que foi motivada pela oportunidade de implementar a pesquisa e desenvolvimento que ela e a sua equipa na Gabriela Hearst tinham aplicado ao longo dos anos. Interrogou-se se seria capaz de aumentar o conceito numa casa mais estável. A resposta parece ser positiva.

Hearst criou três coleções para a Chloé desde que assumiu as rédeas do departamento criativo, em 2020. As suas primeiras criações foram produzidas em dois meses, um prazo extremamente apertado. A coleção Outono-Inverno 2021, que foi lançada em março deste ano, incluiu uma colaboração com a Sheltersuit Foundation, uma organização sem fins lucrativos que produz a roupa exterior para pessoas sem-abrigo. Um abrir e fechar o fecho e um saco de desporto transforma-se num blusão à prova de água e depois num saco-cama, os Sheltersuits são feitos de materiais reciclados e deadstock, tecidos que seriam desperdiçados. Hearst convidou o fundador, Bas Timmer para o atelier da Casa para fazer uma mochila com um conceito semelhante e alguns dos materiais não utilizados da Chloé. A marca anunciou então que por cada mochila vendida, iria produzir dois sheltersuits para os necessitados.

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Quanto ao resto da coleção, a Chloé emitiu uma declaração segundo a qual "pode considerar-se que a marca tem quatro vezes mais materiais de impacto reduzido, em comparação com o ano passado." O poliéster e a viscose foram eliminados, reciclados ou reutilizados, a ganga é orgânica e as carteiras vintage foram reaproveitadas. "O novo não é sempre melhor", segundo uma declaração de Hearst, a quem os materiais de imprensa se referem simplesmente como "Gabi".

Gabriela Hearst festeja após o seu último desfile para a Chloé durante a Semana de Moda de Paris, onde quase 60% dos materiais utilizados eram de impacto reduzido. Foto: Kristy Sparow/Getty Images

A sua terceira e mais recente coleção para a marca surgiu com o anúncio de que mais artigos do que nunca seriam produzidos à mão por artistas independentes, sob uma nova submarca, a Chloé Craft.

"Apesar de a Chloé Craft ser naturalmente de impacto reduzido, o desafio é encontrar formas de tornar os artigos produzidos em maiores quantidades mais 'eco-conscientes'," segundo uma declaração que também explicava detalhadamente como artigos emblemáticos como a Tote bag e Nama Sneakers (que se vendem comparativamente em maiores quantidades) foram melhorados para utilizarem materiais de impacto reduzido.

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O desfile ao ar livre foi junto ao rio Sena, em Paris, e as cadeiras dos convidados eram feitas de tijolos de uma organização francesa chamada Les Bâtisseuses (Os Construtores), que ensina construção ecológica a mulheres refugiadas.

Hearst sobressai numa indústria repleta de simbolismo e greenwashing. A motivação dela é profunda e pessoal. Independentemente da sua posição na indústria da moda, aborda a questão "enquanto ser humano e mãe preocupada com os filhos e com os filhos dos outros", afirmou.

Há vários anos, uma viagem com uma organização de beneficência britânica, Save the Children, ao nordeste do Quénia, deu a Hearst uma perspectiva em primeira mão do custo humano da crise climática. Uma grave seca em 2017 arrasou as pessoas. São experiências como estas, afirmou, que a motivam para utilizar a sua plataforma para agir. "Vejo demasiado bem o resultado, se não agirmos, e não posso fazer vista grossa.

Vestido branco de malha espessa da coleção Outono-Inverno 2021 da Chloé.

No mês passado, a Chloé anunciou que atingiu o estatuto de B Corporation, um processo rigoroso de certificação do impacto comercial e social de uma empresa. A primeira na indústria da moda de luxo (apesar de Hearst esperar que não seja a última).

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A estilista reconhece que, apesar dos seus esforços e da sua equipa, há muito mais para fazer. Mas, segundo Hearst, o tempo escasseia e não é altura para perfecionismos. "Acredito que todos estão nervosos por quererem fazer as coisas na perfeição, mas… temos de optar pelo que 'já serve'. Temos de poder dizer: "Não somos perfeitos, mas estamos a tentar, caramba!"

"Todos estamos a tentar arranjar um modo de fazer negócio numa nova economia, e se não estiverem a tentar fazer isso, vão ficar para trás."

Uns dias depois, em Glasgow, Hearst, sentada entre Daniel Humm e Dustin Yellin, disse a uma pequena multidão de delegados da COP26: "Serão os artistas e os cientistas a tirar-nos disto, não os políticos."

"Vai ser preciso engenho para acreditar que algo pode acontecer."

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