Morreu a "voz do milénio": Elza Soares 1930-2022

CNN Portugal , Com Lusa
20 jan, 20:20

Era uma das mais importantes artistas brasileiras vivas. Tinha 91 anos

A cantora Elza Soares morreu esta quinta-feira no Rio de Janeiro. Tinha 91 anos e era considerada um dos ícones da música brasileira.

O anúncio da morte foi feito através de um comunicado de imprensa, que adiantou que Elza faleceu de causas naturais. "É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais", diz o comunicado, citado pelo O Globo.

Na nota enviada às redações brasileiras, a assessoria da artista descreve-a como “ícone da música brasileira, considerada uma das maiores artistas do mundo, a cantora eleita como a Voz do Milénio”, eleição feita pela rádio britânica BBC. 

“Teve uma vida apoteótica, intensa, que emocionou o mundo com sua voz, sua força e sua determinação. A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”, continua o comunicado.

Considerada uma das maiores cantoras da música brasileira, Elza Soares começou a sua carreira no samba no final da década de 1950, lançou 34 discos, em que além do género mais popular da cultura brasileira, também cantou outros ritmos como jazz, hip hop, e até mesmo música eletrónica.

O último disco de Elza Soares chamado "Planeta Fome", foi lançado em 2019, e o título refere-se à sua primeira apresentação pública.

A morte da cantora que encantou gerações de fãs ao redor do mundo aconteceu quase 40 anos depois da morte daquele que ela disse ter sido seu grande amor, o jogador de futebol brasileiro Mané Garrincha, com quem manteve um casamento por 17 anos. Garrincha morreu também do dia 20 de janeiro, mas no ano de 1983.

Nascida em 1937 na favela Maria Bonita, no Rio de Janeiro, Elza Soares era filha de um operário e de uma lavadeira. Aos 13 anos foi obrigada pelo pai a casar, teve seu primeiro filho e, aos 15 anos, viu o segundo falecer. Ao longo da vida teve nove filhos, mas cinco morreram.

Sobre sua primeira apresentação pública, a cantora contou que aos 13 anos resolveu ir a um programa de calouros [descoberta de talentos] na antiga Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, para ganhar um dinheiro e ao subir no palco ouviu risos da plateia em razão de sua roupa e de sua extrema magreza.

Elza Soares contou que o apresentador do programa, o apresentador e compositor brasileiro Ary Barroso, lhe perguntou: “De que planeta você veio, minha filha?”. E ela respondeu: “Do mesmo planeta que você, seu Ary. Do planeta Fome”.

Quando começou a cantar Ary Barros terá dito que naquele momento "nascia" uma estrela no Brasil.

Com uma discografia ampla e diversificada, Elza Soares foi eleita a voz do século pela BBC britânica em 1999.

Em 2015, a cantora experimentou um grande sucesso com o álbum "A mulher do fim do mundo" que foi aclamado pela crítica e recebeu vários prémios, entre eles o Grammy Latino e o Prémio da Música Brasileira.

Também em 2016 o jornal norte-americano The New York Times elegeu "A mulher do fim do mundo” como um dos dez melhores do ano, numa lista que inclui nomes como Beyoncé e David Bowie.

Em 2019 Elza Soares esteve em Portugal onde lançou uma biografia e apresentou o disco “Deus é Mulher” (2018).

Entrevistada pela Lusa na Livraria da Travessa, em Lisboa, em julho de 2019, onde apresentou a sua biografia, escrita pelo jornalista Zeca Camargo, Elza Soares assumiu-se “totalmente” feminista, o que, para ela, significa “ter coragem de gritar que se é mulher”.

Sobre a biografia de “sacrifício e coragem” que Zeca Camargo escreveu –- “Elza” --, a cantora afirmou que o livro “conta a história de uma vida que não era para dar certo” – mulher, negra, pobre -, mas que deu. “A vida depende de como ela é vivida”, resume, como se fosse simples.

Sobre "Deus é Mulher", no qual volta a rodear-se de músicos da nova música brasileira, Elza Soares mostrou de novo uma voz ativa e ativista sobre direitos humanos, minorias, liberdade sexual, vítimas de violência.

“Deus é mulher pela paz, deus é mulher pela paciência, deus é mãe. Já viu coisa mais sensível do que a mulher ser mãe?”, pergunta, justificando a escolha do título do disco.

Elza Soares à Lusa ver “o Brasil de sempre”, quando se lhe pedem comparações que a sua idade permite fazer. “Não falo nele”, recusa. Ele é Jair Bolsonaro, o atual presidente do Brasil. “Não falo de política. Falo em nós, o povo. O povo, querendo, modifica. A voz do povo é a voz de deus. Basta o povo dizer ‘sim’ e tudo será sim”, frisa. À pergunta se o povo brasileiro está desperto, responde: “Está ficando esperto.”

Antes da pandemia de covid-19 a cantora também participou do Carnaval no Sambódromo do Rio de Janeiro, quando sua vida foi tema do enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel chamado "Elza Deusa Mulher".

Na rede social Twitter, a Mocidade prestou-lhe homenagem nesta quinta-feira frisando que ela era “a estrela! Seu povo esperou tanto pra revê-la! E reviu! Reviu o seu amor Independente passar na Avenida da forma mais linda possível! Só podemos agradecer por tudo. Consternados! Essa é a nossa despedida! Obrigado, Deusa. Nós não vamos sucumbir nunca!”

Nos últimos anos de carreira, Elza Soares também se apresentou em Portugal no Primavera Sound, no Porto, em junho de 2017, onde apresentou músicas do álbum “A Mulher do Fim do Mundo”.

A cantora brasileira esteve também no Mexefest (reabertura do Capitólio, em Lisboa), Festival Sons em Trânsito, em Aveiro, e na Casa da Música, em novembro de 2016.

Esteve no Primavera Sound, no Porto, em junho de 2017 – com o álbum “A Mulher do Fim do Mundo.”

Atuou no Coliseu de Lisboa em fevereiro de 2017, no Mexefest, Festival Sons em Trânsito, em Aveiro, e na Casa da Música, em novembro de 2016.

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