O mercado automóvel está em plena transformação, mas a pergunta continua no ar: os carros elétricos vão mesmo tomar conta das estradas ou a combustão ainda tem muito para dar? Foi esse o tema da mais recente CNN Talk Standvirtual, moderada por Sara Sousa Pinto com a presença habitual de Nuno Castel-Branco diretor-geral do Standvirtual, que contou com os convidados Paulo Ribeiro, Sales Manager da Mazda Portugal, e Hugo Sequeira, Marketing Manager da Citroën Portugal. A eletrificação avança, mas o setor ainda enfrenta desafios. A Mazda mantém motores a combustão e aposta nos combustíveis sintéticos como alternativa. A Citroën investe numa oferta diversificada, com foco na democratização do elétrico.O mercado continua a evoluir, e as próximas decisões regulatórias e económicas irão influenciar o ritmo da transição energética.
Evolução do Mercado e a Importância dos Elétricos
Os dados apresentados mostram um ligeiro crescimento no mercado de novos veículos em 5,1% em fevereiro e 6,3% no acumulado do ano. A venda de carros elétricos e eletrificados continua elevada, com os 100% elétricos a representar 20% do mercado e os híbridos cerca de 57%.
No setor dos usados, a importação cresceu quase 13%, impulsionada pela procura por veículos elétricos mais acessíveis. “A importação tem sido uma oportunidade para adquirir carros semi-novos a preços mais competitivos”, destacou o diretor-geral do Standvirtual. A transferência de propriedade de veículos usados também registou um aumento de 4%, demonstrando um equilíbrio entre os mercados de novos e usados.
Uma novidade importante para a indústria nacional foi o anúncio do Volkswagen ID. Everyone, um dos elétricos mais baratos da marca, será produzido em Portugal. “Sabendo o peso da Autoeuropa no PIB e nas exportações, esta é uma notícia extremamente relevante”, salientou Nuno Castel-Branco.
A Estratégia da Mazda: Combustão e Eletrificação em Duas Velocidades
Apesar do crescimento dos elétricos na Europa, as marcas japonesas têm mantido uma abordagem mais cautelosa. Segundo Paulo Ribeiro, a Mazda adota uma estratégia global, ajustando-se aos diferentes ritmos da eletrificação no mundo: “Enquanto as marcas europeias focam-se no mercado europeu, a Mazda tem uma visão mundial. Nos EUA, Austrália, China e Japão, a eletrificação não está a avançar ao mesmo ritmo da Europa.”
Por isso, a marca opera em “duas velocidades”: mantém motores de combustão para mercados menos eletrificados, enquanto na Europa aposta em híbridos e elétricos.
A marca equilibra motores de combustão e eletrificação para responder às exigências europeias sem comprometer mercados estratégicos como os EUA, Austrália, China e Japão. O novo Mazda 6e surge neste contexto, posicionando-se como concorrente direto da Tesla e da BYD, com preços e autonomias equivalentes.
Mas há um detalhe curioso, a Mazda está a desenvolver um novo motor a combustão para 2027. Parece uma decisão ousada, mas tem um motivo forte: “Estes novos motores terão emissões muito baixas e já estarão preparados para combustíveis sintéticos, que podem ser uma alternativa viável aos elétricos”, afirmou Paulo Ribeiro.
Sobre o hidrogénio, o representante da Mazda admitiu que esta tecnologia tem sido mais explorada pela Toyota, enquanto a Mazda se foca noutras soluções.
A Estratégia Multicombustível da Citroën
A Citroën segue uma abordagem mais diversificada, apostando em soluções para diferentes perfis de clientes, oferecendo motores a combustão, híbridos e elétricos. Hugo Sequeira explicou: “A eletrificação é um caminho, mas não acontece de um dia para o outro. Ainda há clientes cujo perfil não se adapta ao uso diário de um elétrico.”
Modelos como o C4 e o C3 refletem esta estratégia, oferecendo versões a combustão, híbridas e elétricas. O novo Citroën ë-C3, disponível a partir de 23.300 euros, pretende democratizar o acesso aos elétricos. “Se não tornarmos os elétricos acessíveis, continuarão a ser uma opção para poucos.”
A Citroën também está atenta às mudanças nas regras ambientais. “A eletrificação é um caminho inevitável, mas a transição será gradual. Ainda há muitas incertezas regulatórias e de mercado.” A União Europeia planeava ser radical nas metas de CO₂ para 2025, mas acabou por alargar o prazo em três anos. Para Hugo Sequeira, esta mudança mostra que o mercado precisa de mais tempo para se adaptar. “Se tivéssemos tido esta conversa há três meses, parecia certo que as regras de CO₂ seriam um dogma absoluto para 2025. Mas houve uma flexibilização”, afirmou.
O Papel dos Usados na Transição Energética
O mercado de elétricos usados está a crescer, oferecendo opções certificadas pelas marcas. Com a entrada de novos modelos elétricos e a evolução tecnológica, os veículos em segunda mão tornam-se uma alternativa viável para quem procura reduzir custos na transição energética.
“Finalmente vemos elétricos usados certificados pelas marcas, o que pode ser uma opção interessante para quem quer entrar nesta transição sem um investimento tão alto”, referiu Nuno Castel-Branco diretor-geral do Standvirtual.