Judit Polgár tornou-se grande mestre do xadrez aos 15 anos e venceu o melhor, tal como no “Gambito de Dama”

CNN , Mohammed Abdelbary
13 dez 2021, 20:00
Judit Polgár
Judit Polgár

Numa entrevista em 1989, Kasparov disse que "existia o xadrez a sério e o xadrez feminino". Ela derrotou-o

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László Polgár é um psicólogo educacional que acredita que uma criança se pode destacar em tudo, se for pressionada.

As suas três filhas fizeram a escolaridade em casa, ensinadas por ele, como uma experiência para provar isso, incentivando-as intensamente a jogar xadrez, desde tenra idade. Elas praticavam horas a fio umas com as outras, em busca da perfeição no tabuleiro.

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A experiência gerou resultados rapidamente. Judit era a mais nova das filhas e, aos cinco anos, venceu o pai, que também era professor de xadrez. Por alturas do seu décimo segundo aniversário, era a mulher mais bem classificada do mundo.

A estrela húngara do xadrez alcançou o título de Grande Mestre - o título mais alto que um jogador pode alcançar - aos 15 anos, tornando-se a pessoa mais jovem na época a fazê-lo.

Não admira que Judit seja considerada a Beth Harmon da vida real. A protagonista da série de sucesso da Netflix, “Gambito de Dama”,  também é um prodígio do xadrez feminino numa esfera dominada por homens, e os fãs foram rápidos em apontar as semelhanças.  

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"Eu até recebi alguns telefonemas a dar-me os parabéns pela série. Teve piada”, disse Polgár ao Connect the World, durante uma partida rápida com um produtor da CNN no Campeonato Mundial de Xadrez no Dubai.  

Ela fica maravilhada com a autenticidade de "Gambito de Dama", em especial com a forma como as partidas foram estruturadas. Essas cenas foram criadas por Garry Kasparov, o jogador de xadrez número 1 do ranking desde 1984 até se retirar, em 2005. 

"Foi um verdadeiro deleite para os jogadores de xadrez ver as partidas da série. E também a linguagem corporal, a maneira como ela jogava... estava tudo muito bem feito", diz Polgár, fazendo um xeque-mate ao produtor da CNN, na jogada seguinte, e oferecendo um largo sorriso.

Batalha dos sexos

Retirada das competições desde 2014, Polgár acredita que as suas batalhas contra o sexismo na modalidade foram ainda mais desafiantes do que as que Harmon enfrenta na ficção.

“Posso dizer que a minha vida foi muito mais interessante, muito mais desafiante enquanto rapariga numa modalidade dominada pelos homens”, reflete Polgár.

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Numa entrevista de novembro de 1989 para a revista “Playboy”, Kasparov disse que "existia o xadrez a sério e o xadrez feminino". Polgár viria a derrotar o russo em 2002, aos 24 anos. 

Ainda existe um desequilíbrio de géneros ao nível superior. Atualmente, não há mulheres classificadas entre os 100 melhores jogadores de xadrez do mundo, e Polgár continua a ser a única mulher a ter chegado ao top 10. Nigel Short, vice-presidente da FIDE, a federação mundial de xadrez, disse em 2015  que "os cérebros dos homens e os cérebros das mulheres são programados de maneira muito diferente". 

Polgár e Kasparov jogam em Espanha, em 2001.

O pai de Judit assumiu uma atitude muito diferente. A sua mensagem para as filhas foi que o xadrez era uma competição meramente mental e que o desempenho no tabuleiro não dependia do género.

“O meu pai sempre acreditou que todas as crianças saudáveis são potenciais génios. Ele queria provar isso, queria criar um ambiente como se fôssemos rapazes e depois acreditou que podíamos alcançar o topo, pelo menos, da mesma forma como se fôssemos rapazes", diz Polgár.

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E a abordagem de László encontrou bastante oposição.

"Claro, eu e minha família fomos atacados e criticados muitas vezes porque os meus pais estavam a escolher por mim… que eu me tornasse jogadora de xadrez, uma profissional do xadrez."

Apesar disso, László seguiu em frente com resultados espetaculares. Susan também é Grande Mestre e Sofia é uma Mestre Internacional.

A mudar o jogo hoje

Polgár acha que não teria chegado onde chegou se não fosse pelo ambiente que os pais criaram em casa.

“O que pode ser feito no futuro é simplesmente que a mentalidade dos pais possa mudar, que tenham as mesmas metas e objetivos para as meninas como têm para os rapazes”, diz Polgár.

“Penso que a mentalidade tem de mudar, a sociedade tem de ver as raparigas de maneira completamente diferente. E é um longo caminho até que as coisas comecem a melhorar e a ficar mais equilibradas.”

Magnus Carlsen da Noruega e Judit Polgár da Hungria, jogam em 2012.

O melhor jogador do mundo, Magnus Carlsen, concorda.

Antes de defender o seu título no Dubai, Carlsen disse à CNN que é um erro dizer às raparigas que não se podem destacar no xadrez, e que os rapazes estão simplesmente a ser mais incentivados a jogar do que as raparigas.

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Mesmo já estando retirada, a presença de Polgár no jogo continua forte.

Ela fundou a Judit Polgár Chess Foundation e tornou-se campeã feminina 50-50 da ONU. Ao publicar vários livros sobre xadrez, ela espera encorajar as raparigas a entrar no jogo e a seguir os passos dela.

Polgár fala inglês, húngaro, russo e espanhol, mas diz que "o xadrez é a minha língua nativa".

E se ela não tivesse sido incentivada pelo pai a jogar xadrez, o que teria feito?

"Imagino-me a fazer algo criativo, seja na área da informática, na fotografia ou algo assim. Mas sem dúvida que ser criativa e inovar faz parte da minha personalidade."

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