opinião
Presidente da JB TOMORROW GROUP SGPS || Autor do livro MEDO – Como transformar as ameaças em forças

A Europa é a betinha do recreio...

6 abr, 11:24

E já ninguém a leva a sério. Enquanto os Estados Unidos mandam no jogo e a China ganha na execução, a Europa limita-se a dizer como devia ser… depois de já ter perdido

Há uma imagem que não me sai da cabeça quando olho para o mundo atual: o mundo parece um recreio. Não o recreio inocente das memórias felizes, mas aquele recreio real, onde há tensão, onde há hierarquias invisíveis, onde os papéis se definem rapidamente. Há sempre os que provocam, os que reagem… e os que fingem que não se metem, mas estão atentos a tudo.

Durante anos, a Europa acreditou que podia ser o adulto nesse recreio. O que organiza, o que define regras, o que garante que ninguém passa dos limites. E, durante algum tempo, isso pareceu suficiente. Mas talvez tenhamos confundido uma coisa essencial: organizar o jogo… não é o mesmo que ganhá-lo.

Durante décadas, repetiu-se quase como um mantra silencioso uma frase confortável: os Estados Unidos criam, a China copia, e a Europa regula. Era elegante. Dava-nos um papel nobre. Quase moral.

Mas hoje… já não chega. Porque no recreio global, os papéis evoluíram e nós continuamos a agir como se não.

Os Estados Unidos são aqueles miúdos que inventam o jogo. Chegam primeiro, ocupam o campo, definem as regras iniciais e começam a jogar antes de todos os outros perceberem o que está a acontecer. Foi assim com a internet. Com a tecnologia. Com a inteligência artificial.

Empresas como Apple, Google, Amazon ou Microsoft não são apenas empresas, são o próprio campo de jogo. Controlam plataformas, dados, infraestruturas. E quando o resto do mundo entra… o jogo já está em andamento. Mas mais importante do que isso: criaram uma cultura onde arriscar é permitido e onde falhar não é o fim, é parte do processo.

Não criam apenas inovação. Criam um sistema onde a inovação é inevitável.

A China é o miúdo que observa. No início, copia. Aprende os movimentos. Repete.

Mas há um momento em que deixa de imitar e começa a dominar. Hoje, a China já não joga o jogo dos outros. Está a construir o seu próprio recreio. Empresas como Alibaba, JD.com ou Huawei mostram isso claramente. Plataformas como o WeChat integram comunicação, pagamentos e serviços numa escala que o Ocidente ainda tenta acompanhar.

Enquanto uns discutem o que fazer… a China já fez. Não copia. Aprende, adapta… e escala.

E depois há a União Europeia. A Europa é a betinha do recreio. Bem-comportados. Educados. Preocupados com as regras. Os que dizem: “isso não vale”, “temos de jogar todos de forma justa”.

E atenção, isto não é um insulto. Durante muito tempo, foi uma vantagem. Os betinhos são os que tentam evitar o caos. Os que querem criar equilíbrio. Os que querem garantir que o jogo não descamba.

A Europa fez isso melhor do que ninguém: criou o GDPR, lidera a ética na inteligência artificial, protege consumidores, define padrões globais. Mas há uma verdade desconfortável: no recreio… os betinhos raramente ganham o jogo.

Porque enquanto a Europa discute se a bola está dentro ou fora, outros já marcaram dois golos.

Enquanto regula plataformas digitais, os dados já estão nas mãos de empresas americanas.

Enquanto define limites para a inteligência artificial, os modelos já estão a ser treinados e monetizados fora. Enquanto tenta liderar a transição energética, depende de cadeias externas para matérias críticas. Enquanto ajusta o setor automóvel, empresas como Tesla ou gigantes chineses aceleram.

O problema não é a regulação. O problema é acreditar que regulação é estratégia suficiente. Porque não é.

A Europa tornou-se especialista em algo estranho: regular jogos que não criou, condicionar jogadores que não são seus, arbitrar partidas onde já entrou a perder. É o árbitro perfeito… num jogo onde deixou de ser jogador.

O mundo mudou. Hoje, não ganha quem tem mais razão. Ganha quem cria. Ganha quem escala. Ganha quem executa. E aqui está a grande fratura: os Estados Unidos criam o jogo; a China ganha escala e eficiência; a Europa chega depois… para explicar como deveria ter sido jogado.

E isso tem um custo. Um custo silencioso, mas profundo: as startups europeias nascem… mas saem para crescer; o capital segue a velocidade, não a burocracia; a tecnologia é importada, não liderada e a ambição começa a ser travada antes de nascer.

A Europa foi desenhada para o consenso. Mas o mundo atual recompensa a decisão.

Foi desenhada para proteger. Mas o mundo atual recompensa quem arrisca.

Foi desenhada para equilibrar. Mas o mundo atual recompensa quem acelera.

No recreio, há sempre um momento em que tudo se torna claro. Os que correm mais depressa dominam o jogo. Os que aprendem rápido começam a ganhar. E os betinhos… ficam a tentar organizar o caos. Com razão. Com boas intenções. Mas fora do jogo.

E talvez esta seja a pergunta que define o futuro da Europa: queremos continuar a ser os betinhos do recreio, os que garantem que tudo é justo? Ou queremos voltar a sujar os joelhos, entrar no jogo… e correr o risco de ganhar?

Porque no final, no recreio como no mundo, não ganha quem apita melhor. Ganha quem joga.