A outra porta dos fundos

11 mai, 15:30

Não sei se o leitor tem por hábito ver os vídeos dos humoristas brasileiros “Porta dos Fundos”. Se não tem, faz mal, porque são magníficos. Num deles, “Terapia de casal”, marido e mulher estão perante o psicoterapeuta e vão falando, para descobrirem a razão para o “estranhamento” que os separa cada vez mais.

E, assim, vai a mulher e diz “acho que tudo começou quando Rafa pediu o divórcio”. E responde o homem, sim, mas antes “ela me deu um soco na cara”; e logo a seguir a mulher, sim, mas antes “ele falou que eu estava acima do peso”; e, logo ele, mas antes… Bom, a coisa é de tal ordem que vai até ao início da Criação. E antes da Criação, eles tinham sido muito felizes.

São mais ou menos deste calibre e descaramento as explicações apresentadas por aqueles que, no fim, mesmo no fim, imputam sempre à Ucrânia responsabilidades pela invasão da Rússia. A Rússia invadiu, é verdade. Mas foi a Ucrânia que anunciou, dias antes da invasão, que queria voltar a ter armas nucleares no seu território. Sim, mas antes as ameaças da Rússia até já se tinham concretizado, quando anexou a Crimeia e ocupou parte do Donbass, não? Sim, mas antes, tinham sido massacradas dezenas de pessoas na Casa dos Sindicatos, em Odessa. Sim, mas antes tinha havido violência na Praça Maidán, não? Sim, mas antes, Yanukovich tinha sido derrubado e a Ucrânia tinha estabelecido um poder autoritário.

Mas, afinal, a invasão russa é lícita? Não, isso não. Mas, antes…e vamos por ali adiante, até ao início dos tempos.

Ninguém reivindicará, sem o devido currículo, a qualidade de psicoterapeuta (até porque deve ser bem difícil). Mas que há aqui um pequeno problema, há.

Normalmente, aliás, o “sim, mas” nunca conta a história exatamente como foi, corta aqui, corta acolá. Por exemplo, na questão das armas nucleares na Ucrânia, a história (documentada) não pode contar-se assim. Vamos lá, então.

Como é sabido, a Ucrânia não é uma potência nuclear. Mas, na altura da independência, no início dos anos noventa do século passado, estava estacionado no seu território um arsenal que faria daquele (então) novo País a terceira potência nuclear. Tratava-se, então, de se evitar a disseminação de armamento nuclear. E a Ucrânia aceitou, sob determinadas condições, renunciar a todo aquele armamento. Para o efeito, numa reunião da CSCE (antecessora da OSCE) no final de 1994, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Rússia e a Ucrânia assinaram um documento, o Memorando de Budapeste. Neste acordo internacional, três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, todos potências nucleares, comprometiam-se perante a Ucrânia a duas coisas fundamentais: a) proteger a soberania da Ucrânia, aqui se incluindo, explicitamente, a sua integridade territorial; b) nunca ameaçarem usar a força, ou usarem a força, contra o Estado ucraniano.

Adivinhem quem é que, pelo menos desde 2014, tem violado grosseiramente a soberania ucraniana e a sua integridade territorial (Crimeia, parte do Donbass)? Eu não fui, não foi nenhum dos leitores, de certeza. Pois não, foi a Rússia. O mesmo Estado que, no Memorando acima referido, assumia o compromisso solene de nunca fazer o que não tem deixado de fazer, à vista de todos, desde há quase oito anos… Só isto seria suficiente para arredar de uma penada qualquer argumento sobre uma alegada “nuclearização” da Ucrânia. É verdade, o Presidente ucraniano, Zelensky, discursou já a 19 de fevereiro deste ano na bem conhecida Conferência de Munique. Cinco dias antes, 120 horas antes, mais coisa menos coisa, de a Rússia iniciar a invasão da Ucrânia. Ah, já esquecia: entretanto, a Rússia tinha “reconhecido” a independência das duas Repúblicas secessionistas de Lugansk e Donetsk. Coisa pouca, um comportamento francamente amigável. E o que disse Zelensky que pudesse ser considerado como ameaça iminente contra a Federação Russa? Disse isto:

“A Ucrânia recebeu garantias de segurança por ter renunciado à terceira capacidade nuclear do Mundo. Não temos essa arma. Também não temos segurança. Também não temos parte do território do nosso Estado que é maior em área do que a Suíça, os Países Baixos ou a Bélgica. E, ainda mais importante – não temos milhões dos nossos cidadãos. Não temos nada disso.

Por isso, temos algo. O direito de exigir uma mudança na política de apaziguamento para alcançar segurança e garantias de paz.

Desde 2014, a Ucrânia tentou, por três vezes, realizar consultas com os Estados-garante do Memorando de Budapeste. Três vezes, de forma infrutífera. Hoje, a Ucrânia vai fazê-lo pela quarta vez. (…) Se estas conversações mais uma vez não acontecerem, ou se os seus resultados não garantirem segurança para o nosso País, a Ucrânia terá o direito pleno de acreditar que o Memorando de Budapeste é ineficaz e que o conjunto de decisões de 1994 está em risco.”

A transcrição é longa, mas necessária, para que quem leia estas declarações possa fazer um juízo e avaliação serenos. E agora, as perguntas. Alguém descobre, nestas linhas, uma ameaça vital para a segurança da Federação Russa? Alguém ajuda a encontrar, por favor, a “ameaça iminente” que a Rússia descobriu para justificar a invasão do território ucraniano? Alguém descobriu uma decisão ucraniana de se “nuclearizar”? Eu também não.

Por isso, é sempre importante que, perante uma tese inventada, e disfarçada com nomes impressionantes, se vá até ao fundo, se desmonte a falácia, se dê a conhecer a pouca lisura argumentativa.

Convém não esquecer: quando Zelensky fez este discurso (que é ridículo qualificar, direta ou indiretamente, como ameaça iminente contra a Rússia), já as forças russas estavam concentradas junto às fronteiras com a Ucrânia, já a decisão de agredir estava a ser executada. Fosse a partir da Bielorrússia, fosse a partir da fronteira leste, a guerra estava decidida. Só faltava mesmo começá-la formalmente, ainda que até ao último instante tivesse sido desmentida, mesmo que se tivesse falado em “operação militar especial”. Confirma-se: a mentira tem perna curta.

Para quem quiser ver o “Terapia de casal”, dos “A porta dos fundos”, aqui vai:

 

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