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Coordenador de Grande Reportagem e editor de Religião e Cidadania TVI/CNN Portugal

Liberdade e Consciência

23 abr, 17:24

São dias de exaltação. Uma data para a qual converge o oxigénio da utopia. Volta a ser entoado um canto à liberdade, de gente com gente.
A liberdade de abril mexeu com todas as dinâmicas da vida portuguesa, incluindo a vida religiosa, traçou um quadro motivacional para a abertura inclusiva. Mas, quase 50 anos depois, há ainda uma revolução a fazer na forma de percecionar a religião em Portugal. Leituras minimalistas encostam ainda a vivência religiosa às amarras doutrinárias, aos meandros da privacidade, quando se sabe que esta vivência, sendo identitária, é transversalmente relacional e difusa.
Em contexto religioso, os desígnios da liberdade podem ser orientados pela exclusiva definição de preceitos morais ou doutrinários, com a normalização de comportamentos, regras e limites, apresentando até propostas tribais de uma “libertação” que pode não se não enquadrar nos padrões da liberdade enquanto inquestionável valor democrático.

No cristianismo, à semelhança de outras religiões, em especial as chamadas “religiões do Livro”, o exercício da liberdade é inseparável da construção de uma ética comunitária. Diríamos até… da cidadania.

Os textos cristãos orientadores desta ética para a liberdade têm o registo de Paulo, convertido tardio, apóstolo construtor de comunidades de seguidores em terrenos cultural e religiosamente adversos. “Pois é esta a vontade de Deus: que, praticando o bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos. Atuai como homens livres, não como aqueles que fazem da liberdade um pretexto para a maldade…” (1 Pedro 2,16).

Viver como “pessoa” livre, na perspetiva cristã, é uma corresponsabilidade. Ser livre não pode ser desculpa para legitimar tudo, dando espaço ao que, na prática, pode destruir a própria liberdade. Dos gostos gastronómicos às opções políticas, tudo entra num jogo de consequências e tem impacto no exercício da liberdade.

No capítulo 6 da denominada 1ª carta aos Coríntios, de problemática leitura nos dias de hoje – contém incisivas condenações morais, que têm de ser interpretadas com a devida exegese, acentuando a dimensão “carnal”, colocando na mesma medida a imoralidade sexual, a calúnia, a ganância, a idolatria e a extorsão como comportamentos que impedem o acesso ao “Reino de Deus” –, Paulo sintetiza o princípio da ética cristã: “«Tudo me é permitido», mas nem tudo é conveniente. «Tudo me é permitido», mas eu não me farei esravo de nada” (1 Cor 6, 12).

Está traçado um roteiro para o exercício de liberdade, que, no derradeiro capítulo da mesma carta, faz entoar um hino arrasador: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine…” (1 Cor 13).

A preocupação do apóstolo parece estar no critério a aplicar nas relações humanas para assegurar o corresponsável exercício da liberdade. O maior critério, acima da fé e da esperança, é o “amor”. Tudo se cumpre à medida de um “amor” que não falha nem cai. Simplesmente é ou não é. E quando não é, sobra apenas um ruído que para nada serve na comunidade. Pode ser atrativo, mas nada acrescenta. Na tradução de Frederico Lourenço, “o amor não inveja, não fanfarrona, não se incha de vaidade” (1 Cor 13).

Diz o ditado que “a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro”. O desafio pode ser diferente e mais ambicioso. O que se pretenderá, como repete frei Fernando Ventura, é que “a minha liberdade se prolongue na liberdade do outro”. Um percurso no qual se desenham imprescindíveis caminhadas fraternas, de construção de relações sintonizadas pelo respeito e pela compreensão, assimilando e atenuando as diferenças sem as desvalorizar.
Incompatível com seguidismos acríticos, o estímulo da consciência, individual e coletiva, abre os horizontes para ampliar a “terra da fraternidade”. É “o” exercício de liberdade.

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