Um mergulho adequado na história e literatura brasileiras mostra-nos a existência de dois países que Gilberto Freyre retratou, de forma romântica, em “Casa-Grande & Senzala” (1933), servindo o nacionalismo através de roupagem científica, cristalizando a memória da convivência racial, legitimando um dos mais importantes mitos da história do Brasil: o da democracia racial. Este mito ajudou a configurar o nacionalismo brasileiro, ao exotizar as referências indígenas e africanas sem a obrigação de uma verdadeira inclusão económica e social.
No seu livro “Nem para todos é a cidade”, Maria Nilza da Silva (2006) mostra os processos de segregação racial na cidade de São Paulo. Embora o estudo de caso seja São Paulo, a verdade é que onde a presença africana (a indígena foi resolvida através da infantilização legal dos índios e a sua manutenção em espaços de floresta amazónica) era evidente, a segregação fez-se acompanhar.
Não obstante a vasta literatura científica sobre o assunto, ninguém retratou melhor estes dois países dentro do Brasil do que Jorge Amado, cuja melhor imagem é a Salvador da Bahia, entre a cidade alta e a cidade baixa.
Portanto, o Brasil foi construído nesse paradoxo do país do Carnaval, cheio de vibrante cor, das “três raças”, enquanto mantinha, mais intactas possíveis, as divisões raciais e sociais herdadas da colónia, mas que foram preservadas para interesse das elites pós-coloniais.
E assim foi fazendo a sua história, na oposição entre a cidade e o morro, entre o Sul e o Nordeste.
É no coração dessa invenção de país que tem de ser lido o julgamento de Bolsonaro. Jair Bolsonaro não mimetizou apenas o trumpismo nem é apenas fruto da corrupção centrifugadora do Partido dos Trabalhadores (PT). O bolsonarismo é uma amálgama política que cavalgou um político que cresceu por acaso, depois de décadas em que viveu sonolento no Senado. O bolsonarismo é fruto da nostalgia da ditadura militar, da nostalgia da divisão racial da sociedade, das classes sociais bem demarcadas, dos interesses agrários e do avanço teocrático da frente evangélica.
Quem conhece e estuda o Brasil sabe que o bolsonarismo se tornou o momento divisor de águas político-sociais, ao trazer à arena política a guerra cultural definitiva pela alma do país.
Portanto, não é apenas Bolsonaro quem vai a julgamento por tentativa de golpe de Estado, é uma ideia de Brasil, encarnada numa população maioritariamente branca, que votou em Bolsonaro quando teve de partilhar o avião com a sua “diarista” (empregada doméstica) e quando o seu filho ficou de fora do acesso à universidade, atrás de uma jovem “descida” da favela. Uma população que inclui os evangélicos e o seu projeto teocrático, os interesses agrários e o desmatamento da Amazónia para criação de gado e manutenção das velhas castas da elite rural.
A eles junta-se, obviamente, franjas sociais que, tendo beneficiado dos projetos sociais idealizados por Fernando Henrique Cardoso e continuados pelo PT, rapidamente ganharam consciência das teias políticas do partido e da alta taxa de corrupção. É, por isso, obviamente, que uma possível recandidatura de Lula da Silva, em 2026, é uma tragédia para o Brasil, mantendo o país numa manhã infinitamente redundante de guerra entre lulismo e bolsonarismo.
A verdade é que nunca, como agora, estiveram em jogo duas grandes narrativas e as pós-verdades, de modo tão verdadeiramente decisivo, superando todas as clivagens que as eleições presidenciais brasileiras têm, sucessivamente, agravado. A maior prova é a forma como forças bolsonaristas acreditam e defendem não apenas que não houve tentativa de golpe de Estado, como que tudo foi uma encenação “petista” para encurralar e humilhar o seu messias.
Está montado o circo, num caso que, pelos trâmites judiciais brasileiros – em que o relator é também o julgador –, e com a urgência de uma decisão com trânsito em julgado ainda em 2025, tem tudo para ser visto como politização da justiça. Neste caso, como noutros que envolvem polarização política e social, as forças radicais sairão fortalecidas.
