Caso da GNR de Odemira: inalação forçada de gás pimenta "é uma agressão direta ao aparelho respiratório"

16 dez 2021, 20:07
Militares da GNR torturam migrantes de Odemira
Militares da GNR torturam migrantes de Odemira

Irritação cutânea, lacrimejo e dificuldade respiratória são consequências diretas do contacto com gás pimenta, usado, por exemplo, para dispersar multidões. Se em causa está a inalação forçada, como aconteceu em Odemira, os danos podem ser mais gravosos e levar ao internamento, como explicam os especialistas à CNN Portugal

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Colocado em alta pressão dentro de um recipiente, por norma, uma lata, o gás pimenta é, em Portugal, classificado como “arma de classe C em Portugal  aerossolizada” e é usado por parte das forças de segurança para dispersar multidões, começa por explicar à CNN Portugal Carla Pereira Pinto, médica interna. 

Esta substância é “usada com alguma distância de segurança, com dispersão em nuvem para que os efeitos sejam visíveis e sentidos, mas também para que não haja um grande risco de toxicidade”, explica a médica. Também o gás lacrimogéneo (ou gás CS) é usado com alguma distância de segurança para, por exemplo, dispersar multidões. Ambos são “gases de hiperreatividade”, esclarece Carla Pereira Pinto.

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No entanto, se estiver em causa um contacto mais direto e em maior quantidade com este gás, como pode ocorrer na inalação forçada do mesmo, tal como a CNN Portugal denuncia, as consequências são mais nocivas e podem levar ao internamento e a lesões nas mucosas e nos pulmões. Os casos de morte são raros, mas possíveis.

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A CNN Portugal conversou com especialistas para perceber quais as consequências do contacto com gás pimenta, sobretudo se em causa estiver a inalação forçada desta substância

O que é o gás pimenta?

O gás pimenta é um produto 100% natural extraído da planta capsicum, que está na origem de alimentos como o pimento e a malagueta. Este gás é denominado por OC, devido ao seu componente ativo, o óleo de resina de Capsicum.

O que acontece ao corpo depois de inalar estas substâncias?

Entre os efeitos mais diretos do gás pimenta, que tende a provocar uma reação fisiológica quase imediata, mas passageira, estão a irritação nos olhos (com possibilidade de causar perturbação de visão durante alguns minutos), a garganta seca, a tosse, as dificuldades respiratórias e a sensação de queimadura na zona da face, nariz e mucosas (que, por norma, são as zonas mais expostas e também mais sensíveis a este tipo de substância, ficando vermelhas e quentes depois do contacto). De salientar que estas são as consequências quando em causa está o recurso a esta substância para dispersar multidões, em que o seu uso é feito com alguma distância face às pessoas e cujos efeitos podem desaparecer rapidamente.

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“Se a pessoa suspender a respiração durante a exposição ao gás pimenta, os efeitos são reversíveis em alguns minutos ou horas”, diz a médica Carla Pereira Pinto.

Por ser um “irritante brônquico”, o gás pimenta “irrita as vias respiratórias” e as pessoas que o inalam “ficam com dificuldade em respirar”, diz o pneumologista António Carvalheira Santos, que aponta esta como a consequência mais comum do uso deste tipo de substância.

“Quando a exposição é mais aproximada ou ocorre em espaços confinados há mais riscos, nomeadamente respiratórios”, alerta a médica, enumerando os dois mais comuns: “aumento de broncoespasmo agudo e aumento de dificuldade respiratória”.

No que diz respeito ao impacto ocular, Eugénio Leite, oftalmologista doutorado nesta especialidade, diz que “quanto mais esfregar” os olhos e o rosto após o contacto com as partículas do gás, maior é a irritação. A situação torna-se mais complexa se em causa estiver uma pessoa que use lentes de contacto ou que tenha “alterações ao nível da córnea”, uma vez que, nestes casos, “podem aparecer úlceras ou erosões, dá dor, perturbação da visão e lacrimejo intenso”, explica.

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“Este tipo de produtos produz a rutura de células e das barreiras, mas só em circunstâncias muito específicas é que pode levar a lesão, a cegueira, mas é raro”, atira o médico oftalmologista.

Consequências pioram quando a ingestão é forçada?

Sim, pois o contacto é mais direto e as quantidades inaladas nem sempre fáceis de quantificar.

“Quando a exposição é ocorrida com um grau grande de proximidade ou num espaço confinado, os efeitos inflamatórios são mais evidentes, a nível do lacrimejo, da lesão da córnea, de alterações da pele, nomeadamente inflamatórias ao nível de queimadura química”, exemplifica a médica.

Se em causa estiver a inalação forçada, tal “pode trazer efeitos mais complexos, com necessidade de assistência médica”, continua a médica Carla Pereira Pinto. Nestes casos, a “reação inflamatória é muito maior e mais rápida e, no caso de aerossolização próxima, pode causar queimadura das vias aéreas, desde a aspiração pelo nariz e pela boca”. 

“Se houver uma exposição prolongada e intensa [ao gás pimenta], os efeitos na mucosa progridem, a inflamação pode levar a edema, a um inchaço. Mas isso tudo depende da intensidade”, esclarece José Silva, pneumologista. 

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Os pulmões podem ficar igualmente lesionados neste tipo de situações em que a inalação é próxima e forçada. “Snifar é muito mais grave, vai diretamente para os brônquios do que haver partículas dissolvidas para o ar. Isto é uma agressão direta ao aparelho respiratório”, considera o pneumologista António Carvalheira Santos.

Os efeitos pulmonares deste tipo de substância, quando inalada, dependem de dois fatores: da pessoa e da quantidade de produto. No que diz respeito ao tipo de pessoa, o pneumologista divide em dois grupos: as saudáveis e as que têm algum tipo de patologia respiratória. As primeiras “conseguem limpar rapidamente o produto inalado”, já as segundas “têm mais dificuldade na limpeza brônquica” e, por isso, o efeito do gás dura mais tempo.

Para o pneumologista José Silva, se em causa está um contacto direto e próximo com o produto, em que “há uma maior quantidade” de gás face àquela que fica suspensa no ar, tal “pode levar ao internamento, segundo o que vi na literatura”.

Pode ser fatal?

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“Por norma, o gás pimenta não tem uma relação direta com a morte, por isso é usado como arma de dispersão”, destaca a médica. No entanto, se em causa estiver uma inalação forçada, cujo contacto com a substância é mais direto - e em quantidades nem sempre fáceis de medir - as consequências podem ser maiores, estando o risco de morte dependendo da situação em si e da condição de saúde da pessoa, como explica o médico António Carvalheira Santos.

“Se é fatal, depende. Quando em causa está o aparelho respiratório, depende da quantidade [de substância inalada] e capacidade que a pessoa tem de limpeza”, diz, explicando que “se a quantidade inalada entope os brônquios e faz com que a quantidade de oxigênio respirado não seja capaz para o organismo ter o oxigénio suficiente, isso pode ser extremamente gravoso”.

Para a médica da Carla Pereira Pinto, se em causa estiver “uma pessoa com patologias respiratórias, como a asma, ou cardíacas, em casos muito extremos [a inalação de gás pimenta] pode culminar em morte”, refere a médica, salientando que, porém, estes casos são “raros”.

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