O líder parlamentar social-democrata defendeu que este Governo "não teme" o apuramento de responsabilidades no combate aos incêndios, mas que essa tarefa deve caber exclusivamente a técnicos e especialistas, e não ao Parlamento nem aos políticos. Em entrevista à CNN na véspera do debate na Assembleia da República, Hugo Soares criticou André Ventura por fazer uma “exploração política” dos incêndios: “Foi assim que fez quando fingiu apagar um fogo que já estava extinto”. E sublinhou Hugo Soares que Luís Montenegro “esteve sempre ao comando das operações, na coordenação política”, mesmo durante as férias na praia
A Comissão Permanente da Assembleia da República debate, nesta quarta-feira, a situação dos incêndios em Portugal, depois de críticas unânimes da oposição, à esquerda e à direita, e da disponibilidade do primeiro-ministro, Luís Montenegro, para prestar esclarecimentos. O debate, requerido pelo Chega e pelo Partido Comunista, e aprovado por todos os partidos, terá cerca de uma hora. Começa com seis minutos do Governo, seguem-se intervenções de todos os partidos e termina com mais dez minutos do Executivo.
Chega, Bloco de Esquerda e JPP querem uma Comissão de Inquérito Parlamentar. Já o PS pede uma Comissão Técnica Independente para avaliar o que considera uma “falta de condução política” no verão e no combate aos fogos.
O deputado Hugo Soares, secretário-geral do PSD e líder parlamentar social-democrata, esteve na CNN na véspera do debate e afirmou que o Governo não quer fugir ao apuramento de responsabilidades. “O Governo e o PSD não têm receio nenhum do apuramento da responsabilidade política.” Contudo, sublinha que tal não deve caber ao Parlamento. “Vamos ver se deixamos esta questão, de uma vez por todas, muito clara: apurar aquilo que correu menos bem, ou pior, ou até bem, no combate aos fogos deve ser uma tarefa dedicada aos técnicos, aos especialistas, e não deixada aos ‘tudólogos’, que não sabem do que falam, nem deve ser atribuída aos políticos — porque a visão partidária é enviesada.”
Hugo Soares lamenta que, há um ano, o primeiro-ministro tenha querido apurar as causas dos fogos, “se há ou não mão criminosa”, e tenha acabado “fustigado pelas críticas” de André Ventura e do Partido Socialista. “Luís Montenegro disse que era preciso ir ao fundo das questões que estão por trás das origens dos fogos que todos os verões fustigam Portugal. Isso cabe à PSP, à GNR, à Polícia Judiciária, ao Ministério Público. Não cabe aos deputados. Cabe aos órgãos de investigação criminal.”
Ainda segundo o líder parlamentar, um deputado em concreto, André Ventura, pretende neste momento, e no debate de amanhã, “uma exploração política da dor, do sentimento, daqueles que estiveram à porta de casa o fogo”. “Foi assim que fez quando fingiu apagar um fogo que já estava extinto”, denuncia.
Sobre o debate de amanhã e a eventual Comissão de Inquérito Parlamentar, Soares garante que nenhum dos deputados presentes “sabe da poda”, nem tem, como os especialistas de uma Comissão Técnica Independente, “capacidade para apurar o que aconteceu agora” ou “para determinar causas e conclusões”. Para Soares, será necessário retirar os políticos deste debate sobre as causas, deixando-lhes apenas “interpretar as conclusões dos técnicos-especialistas”.
À pergunta sobre o que correu mal no combate aos incêndios do verão até agora, Hugo Soares começa por salientar que é “motivo de regozijo para os portugueses que haja mais investimento na prevenção e mais investimento no combate”, destacando que, em 2025, houve o “maior dispositivo de combate a incêndios na época de verão que alguma vez aconteceu”. Mesmo com meios aéreos em falha, avariados. “É perfeitamente normal que um meio [aéreo], num dispositivo de 76, possa avariar. Aconteceu, infelizmente, mas os outros estavam a operar”, defende.
Reafirma ainda algo que tem sido repetido pelo Governo: “Cada perda de vida é do nosso profundo pesar e lamento. Mas sejamos francos com os portugueses, não tem comparação com 2017".
Ainda assim, Soares admite que não se pode dizer que “tudo correu bem” no combate aos incêndios em 2025. “Sou incapaz de afirmar que não houve falhas de coordenação. O que eu digo é que a estratégia que a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil seguiu garantiu a segurança do património, das primeiras habitações, da vida das pessoas. Apesar de tudo, e das calamidades e da devastação da nossa floresta, a estratégia resultou”, assegura.
Se a estratégia correu bem, talvez a comunicação do Governo não tenha acompanhado, sendo criticada fortemente pela oposição, em particular devido às férias do primeiro-ministro, à presença do partido na Festa do Pontal e às conferências de imprensa da ministra da Administração Interna.
Hugo Soares não admite diretamente que tenha havido "má comunicação". Antes, afirma: “Se me perguntarem se eu preferiria que o Governo tivesse melhor percepção sobre a comunicação no último mês, eu não tenho dúvidas. Prefiro perder na comunicação e ganhar na eficácia. Perder no campeonato dos afetos, mas ganhar na coordenação política? Eu prefiro ganhar na coordenação política, no combate e na eficácia".
Sobre as férias do primeiro-ministro e as fotografias de praia que circularam, o secretário-geral dos social-democratas é taxativo: Montenegro encontrava-se “a gozar férias a que tinha direito” e “interrompeu as férias logo no dia 9”. “A fotografia em que Luís Montenegro aparece sozinho na praia é do fim de semana. Têm direito a ir à praia. E as fotografias não foram tiradas por ele”, defende Hugo Soares.
E para defender o seu chefe de Governo, ataca o líder do maior partido da oposição. “O primeiro-ministro foi criticado por André Ventura por não estar no terreno. O que seria deste país se o primeiro-ministro fizesse a figura do deputado André Ventura?!”
Segundo Hugo Soares, “quis-se criar ou vender uma ideia de ausência do Governo durante este mês”. Mas garante que Montenegro “esteve sempre ao comando das operações, na coordenação política — por isso é que há um Governo”. E se houve alguma ausência visível do Governo e do chefe deste, “ausentou-se bem”. “Não é uma estratégia; é a obrigação do Governo. A obrigação é governar, não é ganhar o campeonato dos afetos. Se isso vai afetar os resultados das autárquicas? Prefiro ter menos votos e salvar mais vidas do que ter mais votos porque andei a distribuir beijinhos e abraços”, concluiu.