opinião
Docente da Católica Porto Business School

Mercados financeiros e o risco geopolítico

12 mar, 13:23

O conflito no médio oriente agudizou-se substantivamente na última semana. O risco geopolítico gera um profundo desconforto nos mercados financeiros. É um tipo de incerteza difícil de objetivar nos modelos tradicionais de gestão de risco. Em casos extremos, conduz a contextos dominados pela dimensão “unkown unkown” da incerteza (Knight, 1921)[1], a que oportunamente Olivier Blanchard se referiu no seu artigo “(Nearly) nothing to fear except fear itself” (The Economist, 29 Janeiro 2009) no auge da crise financeira do início deste século.

Focando no mercado de ações, o que nos ensina a evidência empírica sobre a dinâmica de retornos em contextos de elevado risco geopolítico?

De acordo com informação recolhida pela Stock Trader’s Almanac[2] analisando 17 “incidentes” desde 1939, a queda média numa semana do índice S&P500 após o início de um choque geopolítico foi de 1,09%. Nos doze meses seguintes, o S&P500 apresentou um ganho médio de 2,92%. Mas estes números encerram grandes disparidades. A maior subida numa semana após um incidente foi de 13,5%, após a Alemanha invadir a Polónia (01.09.1939). A maior descida numa semana foi de 17,9%, após a Alemanha invadir a França (10.05.1940). A maior subida nos doze meses após um incidente foi 32,2%, depois do início da guerra de Gaza (07.11.2023). A maior descida nos doze meses após um incidente foi de 34,3%, depois do embargo Árabe ao petróleo (19.10.1973). Em tempos recentes, o S&P500 subiu 3,27% na semana seguinte à invasão Russa da Ucrânia (22.02.2022). Após um ano, o índice caiu 6,05%. Ou seja, não existe uma cartilha exacta para antecipar o que sucederá no mercado de ações nas próximas semanas. 

No contexto atual, uma questão crítica respeita ao que sucederá ao preço do petróleo e do gás no curto e médio prazo. Tem sido realçado que o preço do petróleo pode subir e manter-se acima dos $100 por barril caso o estreito de Ormuz permaneça encerrado por período prolongado. Naturalmente que quanto mais tempo durar o conflito e o encerramento do estreito, maior será a pressão sobre a estrutura de custos das empresas e economias em geral e, em consistência, sobre as expectativas de inflação dos agentes económicos. A consequência em matéria de política monetária pode ser a necessidade de eventuais subidas das taxas de juro de referência.

As próximas duas semanas serão críticas para os mercados financeiros digerirem a magnitude do conflito do médio oriente, e dissecar as suas implicações a curto e médio prazo. Será um conflito prolongado? Que impactos terá nas cadeias de abastecimento energético? Existirão outras consequências que impactem o sentimento e comportamentos dos consumidores, investidores e governos? São questões que vão marcar a trajectória dos mercados financeiros nos próximos tempos.

 

[1] Knight, F. H. (1921) Risk, Uncertainty, and Profit. Boston, Houghton Mifflin Company.

[2] Divulgada no artigo “Iran war and your portfolio: The historical stock market patterns investors should know”, Sarah Agostino, 4 Março 2026, https://www.cnbc.com/2026/03/04/iran-war-historical-stock-market-patterns.html

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas