Espanha: Sánchez pede dissolução do parlamento e convoca eleições antecipadas. PP diz estar pronto para governar e pede maioria

Bárbara Cruz | Daniela Costa Teixeira , Com Lusa, atualizado às 13:34
29 mai, 10:23

Primeiro-ministro espanhol decidiu assumir resultados "na primeira pessoa" e pediu aos eleitores que tomem a palavra para definir o rumo político do país, após a derrota dos socialistas nas eleições de domingo. Líder do PP diz que "Espanha deu ontem o primeiro passo para abrir um novo ciclo político" e pede maioria nas próximas eleições (e até já teve uma conversa "informal" com o VOX)

O primeiro-ministro espanhol decidiu esta segunda-feira pedir a dissolução do parlamento e convocar eleições antecipadas para 23 de julho, após a derrota do PSOE, partido que lidera, nas eleições autárquicas e autonómicas de domingo. As eleições legislativas, ou gerais, iram realizar-se em Espanha no final do ano.

"A convocatória formal das eleições será publicada amanhã no Boletim Oficial do Estado (BOE)", declarou, citado pelo El Mundo, admitindo que acredita que é melhor que os espanhóis "tomem a palavra" e decidam antes do previsto quem querem no Palácio da Moncloa. 

O PSOE sofreu uma derrota significativa a favor da direita, o que levou Sánchez a "assumir na primeira pessoa os resultados e dar uma resposta", disse ainda o primeiro-ministro. 

Segundo o El País, o governo espanhol vai reunir-se ainda esta tarde em sessão extraordinária para convocar as eleições legislativas para 23 de julho. "Acabo de ter uma reunião com sua majestade o rei, na qual convoquei ao chefe de Estado a decisão de convocar um Conselho de Ministros esta mesma tarde para dissolver as cortes e convocar eleições gerais", disse Sánchez. "É necessária uma clarificação dos espanhóis das políticas que é necessário fazer e que forças têm de levar a cabo essas políticas. O melhor é que os espanhóis tomem a palavra para definir o rumo político do país", defendeu.

A Unidas Podemos, plataforma de extrema-esquerda que estava no poder em coligação com o PSOE de Sánchez, também considerou "maus, sem paliativos", os resultados da sua formação nas autonómicas e municipais, tendo criticado igualmente o PSOE, considerando que faltou aos socialistas "a valentia para ir mais além", o que explica o retrocesso da esquerda no mais recente ato eleitoral.

Pedro Sánchez é primeiro-ministro de Espanha desde 2018 e, na atual legislatura, iniciada em janeiro de 2020, liderava um executivo de coligação entre o partido socialista e a Unidas Podemos, que junta várias formações mais à esquerda do PSOE.

Yolanda Díaz, a vice-presidente do governo espanhol e líder da plataforma de esquerda Sumar (Somar, em português), já reagiu à decisão de Sánchez: "A mensagem recebida ontem à noite foi muito clara: há que fazer as coisas de outra maneira. Assumo o desafio", escreveu no Twitter. "Frente à Espanha negra de Feijóo, saímos a ganhar. As pessoas estão à nossa espera", sublinhou Díaz.

 

 

Ione Belarra, a secretária-geral do Podemos, revelou já esta segunda-feira, depois do anúncio de Sánchez, que o partido abriu entretanto negociações para um acordo de coligação com a Sumar, plataforma liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz.

“Quero informar que já estamos a trabalhar para dar aos cidadãos progressistas a notícia que eles tanto esperam: que este espaço político se apresenta unido nas eleições e que saiamos a vencer”, lê-se na publicação feita no Twitter, onde foi transmitida em direto a declaração de Belarra, sem espaço para questões aos jornalistas.

 

Segundo Belarra, a união com a Sumar não nascerá “só para revalidar o governo de coligação, mas para governar com mais força”. Tanto o Podemos como a Sumar têm agora dez dias para apresentar uma coligação, de acordo com a Lei Orgânica do Regime Geral Eleitoral de Espanha. Belarra afirmou ainda que os resultados das eleições deste domingo são um sinal do “retrocesso em avanços fundamentais em direitos”, como os feministas, na luta contra a emergência climática e pelo direito à habitação.

Sánchez quer "forçar PP a definir pactos com a extrema-direita"

O El País assinala que Sánchez tomou a decisão mais drástica ao convocar eleições antecipadas: o ainda primeiro-ministro espanhol poderia ter optado por remodelar o governo, romper a coligação com a extrema-esquerda ou anunciar alguma alteração nas suas alianças. Ao escolher este caminho, Sánchez deixa os seus próprios eleitores - e os dos outros partidos - perante a necessidade de decidir se deixam que governem PP e Vox com os votos que conseguiram este domingo ou se se mobilizam para o impedir.

Não é a primeira vez que Sánchez assume um risco. Em 2019, o secretário-geral do PSOE venceu duas eleições gerais: as primeiras, no final de abril, acabariam por ser repetidas em novembro, porque os socialistas não conseguiram entender-se com o Podemos de Pablo Iglesias para formar governo. As segundas legislativas espanholas no mesmo ano deram nova vitória ao partido de Sánchez, que conseguiu 28% dos votos, mas os grandes vencedores foram os nacionalistas do Vox, que elegeram 52 deputados - em abril do mesmo ano, tinham conseguido 24.

Emilio Rubio, diretor do Instituto Espanhol do Porto, considera que Sánchez arriscou ao antecipar o ato eleitoral previsto para o final do ano, mas terá um objetivo: precisamente, o de forçar o PP de Alberto Núñez Feijóo a admitir claramente se fará ou não coligação com o Vox, da extrema-direita, do qual dependerá também se quiser governar em muitos municípios ou regiões espanholas.

Assinalando igualmente o "fator supresa" da decisão de Sánchez, Emilio Rubio defende que, mais do que arriscada, a opção poderá "ter o seu quê de inteligente desse ponto de vista, porque vai forçar o PP a definir-se quanto ao seu pacto com a extrema-direita". 

O diretor do Instituto Espanhol do Porto refere ainda que o atual primeiro-ministro poderá ter decidido antecipar eleições para que o desgaste do governo não se agrave ainda mais, e para o qual contribuiu também a "gestão desastrosa do Podemos", com "iniciativas legislativas desastrosas" e a lançar críticas agressivas ao poder económico. 

"Em bom rigor, não é uma derrota tão expressiva em número de votos", frisa Emilio Rubio, lembrando que Espanha é um país muito polarizado e que o desaparecimento do Ciudadanos, de direita, bem como uma diminuição do número de votos no Podemos, poderão explicar o predomínio da direita nas urnas.

PP diz que se abriu "novo ciclo político" no país e pede maioria nas próximas eleições. Conversa "informal" com o VOX já aconteceu

O líder do Partido Popular de Espanha (PP), que está atualmente na oposição, reivindicou uma vitória clara nas eleições regionais e municipais de domingo, que considerou serem o início de "um novo ciclo político" no país.

"Espanha iniciou um novo ciclo político", disse Alberto Núñez Feijóo, numa declaração a milhares de apoiantes do PP que se concentraram em frente da sede do partido, em Madrid, na noite de domingo, para celebrar os resultados das eleições. Feijóo, antigo presidente do governo regional da Galiza, foi eleito presidente do PP há pouco mais de um ano e teve no domingo o seu primeiro teste eleitoral.

"Ganhou a centralidade frente ao radicalismo", afirmou Feijóo, que considerou que o PP recuperou "a melhor versão" do partido, aquele que "que sintoniza com a maioria de Espanha", "centrado, amplo, onde cabe a imensa maioria dos espanhóis". 

"Sei que o meu momento chegará se os espanhóis quiserem", disse o líder do PP. 

O discurso foi repetido esta segunda-feira, numa conferência de imprensa já depois de os outros partidos terem falado. Feijóo começou por “agradecer à maioria dos espanhóis que ontem enviaram uma mensagem muito contundente sobre o rumo que querem que o seu país siga”, mostrando a sua “satisfação” com o facto de tal “ter resultado na convocação de eleições gerais” antecipadas, anunciadas esta manhã pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez. E diz que "quanto mais cedo [forem as eleições], melhor".

“A Espanha deu ontem o primeiro passo para abrir um novo ciclo político. Desde já apelo a todos para que concluam este ciclo político que termina a 23 de julho”, disse o líder conservador, afirmando que está pronto para ser o próximo presidente do governo espanhol, diz o El País

Feijóo não se mostrou comedido nas ambições: “Peço desde já uma maioria clara, uma maioria incontestável e uma maioria retumbante para iniciar um novo rumo”.

Segundo o El Mundo, Feijóo reconhece a existência de um contacto “informal” com o Vox após saber dos resultados das eleições autárquicas e regionais deste domingo. “Trocamos felicitações e esta manhã, Abascal e eu conversamos”, reconheceu, destacando que o Vox “cresceu muito”.

Porém, se quiser governar em muitas das autarquias e regiões que conquistou, o PP precisará do apoio do Vox, de extrema-direita, outro grande vencedor das eleições de domingo: o partido liderado por Santiago Abascal aumentou a representação tanto nos parlamentos autonómicos como nas municipais, onde alcançou 7,19% dos votos globais. Em 2019, nas autárquicas anteriores, tinha tido 3,56% dos votos.

No conjunto, o PP poderá ficar a governar oito das 12 regiões que foram a votos, a que se juntam Andaluzia e Castela e Leão, que anteciparam para 2022 as eleições e que o Partido Popular também ganhou. O PP só governava duas das regiões que no domingo foram a votos (Madrid e Múrcia, que manteve).

Nas eleições municipais, que se celebraram em todo o país, o PP foi também o partido mais votado e conquistou à esquerda grandes cidades, como Sevilha e Valência, além de ter tido uma maioria absoluta em Madrid.

Os resultados das municipais e das regionais refletem uma mudança em relação às eleições anteriores, de 2019, em que o PSOE tinha sido o partido globalmente mais votado e com mais vitórias nas regionais.

Imprensa espanhola diz que "antisanchismo" levou à derrota do PSOE

A imprensa espanhola destacou esta segunda-feira "o descalabro" do partido socialista e do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, nas eleições municipais e regionais de domingo em Espanha e como o PP "arrasou" com uma vitória "sem paliativos".

"O PP arrasa em Madrid e multiplica o seu poder territorial", lê-se na manchete da edição impressa de hoje do jornal El País, que no editorial escreve que o Partido Popular conseguiu no domingo "um êxito sem paliativos", embora enfrente agora a decisão de aceitar ou não alianças com o Vox da extrema-direita para governar várias regiões autónomas e cidades espanholas.

Num outro título, o mesmo jornal escreve que foi o “antisanchismo" que levou o PSOE a esta derrota e prejudicou vários barões regionais e locais do partido.

O jornal El Mundo escreve também que "o PP arrasa e o castigo a Sánchez apaga o PSOE do mapa". No editorial, o diário defende que "Espanha castiga a forma de governar de Sánchez" e que o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, "impulsiona a mudança" num país governado pelos socialistas desde 2018.

Para o El Mundo, as eleições de domingo, que Feijóo transformou num referendo ao "sanchismo", acabaram por ditar uma condenação às "alianças com populistas e independentistas" de Pedro Sánchez, que governa Espanha coligado com a plataforma de extrema-esquerda Unidas Podemos e que tem feito pactos com partidos catalães e bascos para aprovar leis como os orçamentos do Estado.

O ABC, outro jornal de âmbito nacional espanhol, escreve igualmente que o "PP arrasa e Sánchez arrasta o PSOE para o descalabro" e que a "perda de poder territorial" por parte dos socialistas "não encontra precedentes".

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