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Diretor executivo CNN Portugal

Era o debate decisivo mas o sr. António e a d.ª Manuela mudaram para o Big Brother (e não viram Costa a ser Cavaco)

13 jan, 23:37
Debate entre António Costa e Rui Rio (CNN/ Armanda Claro)
Debate entre António Costa e Rui Rio (CNN/ Armanda Claro)

Um será primeiro-ministro, outro será ex-líder partidário. Mas se a decisão entre ser um ou outro dependesse deste debate, ficava tudo na mesma. Não foi inútil, foi previsível. Costa e Rio não desviaram votos um do outro, mas desviaram a convocatória de eleitores. Mesmo usando malandrices, mesmo quando Rio apelou ao sr. António e à d.ª Manuela, mesmo quando Costa… fez chantagem como Cavaco

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O excesso de expectativas é o maior gerador de frustrações. Seis canais de televisão – seis! – transmitiram o debate em direto, houve dossiês analisados, moderadores bem preparados e 75 minutos para o próximo primeiro-ministro debater com o próximo ex-líder partidário. Mas António Costa e Rui Rio fizeram um confronto previsível, sem ideias nem ideais, sem bater nem arrebatar, com algumas definições, propagandas e ilusões. Não foi mau, foi até “civilizado”, mas nenhum logrou ganhar - nem votos um ao outro nem mobilização de eleitores.

Até ao momento em que acabou e houve a “flash interview”. E aí Costa arriscou tudo e fez o que jurara não fazer. Um dia depois de criticar Cavaco Silva por, no passado, ter feito chantagem com a exigência de maioria absoluta, António Costa apelou à maioria absoluta e insinuou que sem ela será o caos. Sim, aconteceu mesmo, o homem que durante o debate se inspirou em Guterres (prometendo negociar diploma a diploma se estiver em minoria), fez como Cavaco. Chantagem.

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Vídeo: o momento em que Costa disse como vai fazer se tiver minoria (e envolve o PAN e Guterres)
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Isso foi no prolongamento. Antes, no debate propriamente dito, fora diferente.

A mensagem de Costa: está pronto para governar, já tem Orçamento e tudo, com ele ninguém se atrasa; não há que ter medo de uma maioria absoluta e, se não a tiver, já percebemos o que deseja, um governo PS com o Livre e o PAN.

A mensagem de Rio: sabe muito de economia, tem os pés assentes na terra, é preciso interromper este atraso de vida aboborado pelos socialistas, quer crescer pelo lado das empresas e a TAP é uma vergonha.

Os problemas do país

Quais são os problemas do país? É o deslizar lento mas persistente para a indigência coletiva.

É a pobreza, a desigualdade e os salários baixos. Os impostos altos, as dívidas altas. E o futuro baixo, raso, sobretudo para os mais novos.

É vermos um PRR passar por nós como um TGV, um vai-ser-tão-bom-não-foi? consumido como um fósforo sem percebermos bem para-onde-vai / para-onde-foi / para-o-que-era o dinheiro.

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É termos riscos de inflação que nos come o poder de compra e de subida de taxas de juro com capacidade destruidora dos devedores que somos.

É estarmos com uma mão à frente estendida à União Europeia e outra atrás escondida dos próprios portugueses, iludidos pela mensagem já-estivemos-pior em vez de inspirados por um discurso de vamos-para-melhor.

Vídeo: Rio perde a calma por causa da TAP. "É companhia de bandeira espanhola ou de outro país qualquer. Isto é revoltante"

O que tiveram os líderes dos dois maiores partidos para dizer ao país sobre isso?

Ambos querem baixar impostos. Ambos querem subir salários. E estabilidade. Não há cão nem gato que não prometa descer impostos. Mas não se encontra elefante ou formiga que efetivamente o cumpra. Por isso, quando ouvimos falar de impostos, ouvimo-los como impostores.

Chamar descida de impostos ao que ao OE chumbado propunha é como chamar barragem a um vaso. E anunciar que uma descida do IRC fará aumentar o investimento e os salários é como esperar que uma lâmpada faça de sol. São fantasias e ilusões. Como quando Costa afirma que o PS reduziu brutalmente os impostos, referindo-se sobretudo ao IRS e à eliminação da sobretaxa, que sempre foi provisória. Ou como quando explica a carga fiscal: é verdade que ela subiu porque houve mais emprego, e com mais gente a trabalhar o Estado arrecadou mais IRS e contribuições sociais. Mas se essas receitas aumentaram, porque não desceram as taxas? Porque não era possível. E assim foi mesmo se o turismo trouxe muito mais IVA e os preços alarves do imobiliário geraram mais IMI e IMT.

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Foi o próprio António Costa que usou, noutra circunstância, o termo “malandrice”.

Malandrice não é mentir, é enganar com a verdade.

Veja-se agora os salários: Rio está coberto de razão quando fala dos baixos salários médios, embora use a mediana de salário de 900 euros (que é real, mas o indicador normalmente usado é o do ganho médio, que inclui outros rendimentos, e ronda os 1.100 euros). Qual é a sua solução? É “o crescimento económico”. E o “aumento de produtividade”. Como aluno de economia, teria nota 20. Como candidato a primeiro-ministro, falta explicar como. Porque Rio evita quase sempre detalhar o que significam as suas famosas “reformas de que o país precisa”. Descer IRC não basta, é preciso reduzir a burocracia, transformar a Administração Pública, criar aceleradores na Justiça... 

Mas pronto, confirmámos, Rio quer aumentar primeiro a produção (investimento e exportações) e depois distribuir a riqueza, primeiro desce o IRC, depois o IRS. Costa prefere o lado de lá da equação, aumenta rendimento pelo salário mínimo, sublinhando que ele hoje é muito mais elevado mas omitindo que a percentagem de trabalhadores que o recebe também o é.

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Mas já agora: como é possível falar de descidas de impostos sem falar cortes de despesa pública?

Não é. Mas é.

Não se fala de despesa, nem um nem outro. Tirando aquelas coisas da “racionalização” e “boa gestão”, que não querem dizer nada. E Costa a repetir cassetes. E Rio a dizer que o sr. António e a d.ª Manuela não têm médico de família. Mas adiante. Adiante e racha na TAP e salva o SNS e protege a justiça e sobe a “massa salarial” da função pública…

Foto: Armanda Claro

Frases pronto-a-comer

Os partidos de poder são máquinas de propaganda e contra-propaganda. Em eleições, atingem o zénite dessa projeção criadora de perceções. Já não são equipas de política, são agências de ilusão. Cada debate é uma batalha e, como dizem os estrategas militares, as batalhas ganham-se antes de começarem. Só que aqui não é estratégia, já não é política e nem sequer retórica, é preparação e ataques e defesas.

Em debates de meia hora, como os anteriores, todos os partidos preparam frases e não mais que frases, sabendo que serão essas frases os títulos dos jornais e os excertos dos resumos das TV e jornais. Mas num debate de 75 minutos, tem de ser mais do que isso. Rio e Costa preparam não só frases mas dossiês, ataques a pontos fracos do outro (com acusações) e defesas para os seus próprios pontos fracos (às vezes mudando de assunto).

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Era o mínimo que se exigia para o debate de hoje. Mais que frases, ao menos dossiês. Era o máximo que se sonharia para o debate de hoje: mais que dossiês, política.

E aqui tudo foi fraco.

Costa está viciado em frases pré-congeladas, que leva ao micro-ondas sempre que precisa. A lengalenga do “virar a página”, a cassete da descida do desemprego e do aumento das exportações, o slogan da “geração mais qualificada de sempre” que agora tem o acrescento de que tem de se tornar “a geração mais realizada de sempre”. Já Rio é menos repetitivo, mas é demasiado técnico quando se empolga e é vago quando lhe convém.

Foto: Armanda Claro

Coligações, maiorias e entendimentos  

À entrada deste debate, Rio dava para os dois lados, Costa para lado nenhum.

Não era por acaso que esse tinha sido o mapa das estradas que cada um desenhara nos debates prévios: era o posicionamento de cada partido para umas eleições que se preveem suficientemente bipartidarizadas para cavar distância entre a piscina dos (dois) grandes e a piscina dos (outros) pequenos, mas suficientemente atomizadas para dificultar uma maioria absoluta. 

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Isso prejudicava à entrada Rio, porque a ambiguidade sincera quanto à disponibilidade para entendimentos tanto à sua esquerda (PS) como à sua direita (CDS, mas também IL e até Chega) diminuíam-lhe autoridade, perceção de liderança e estratégia. Isso beneficiava Costa, porque dele fazia uma rosa-dos-ventos parada, numa dramatização para pedir uma maioria absoluta.

O que mudou com o debate?

Foi a pergunta de Rui Rio: se o PS ganhar sem maioria absoluta, o que faz? “Se calhar o que faz é sair também e temos um novo primeiro-ministro, Pedro Nuno Santos”. “Não há tabus” no dia 30 de janeiro, respondeu Costa: se ganhar sem maioria absoluta, “não viro as costas aos portugueses, teremos de conversar com os partidos com assento na Assembleia”, ou negociando diploma a diploma, ou negociando acordos.

Está na cara de um: Costa sonha com uma maioria absoluta numa coligação com o Livre e com o PAN.

Está na cara do outro: Rio sonha com uma maioria absoluta através de uma aliança com o CDS e a IL.

 

E portanto…

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Faltam duas semanas e meia para as eleições. E dez dias para o voto antecipado. O que estava em causa era quem é o melhor primeiro-ministro. O que estava em causa neste debate era o eleitorado do centro. Rui Rio levou finalmente os seus melhores neurónios, Costa levou a projeção de consistência de primeiro-ministro. E o melhor do debate foi ser clarificador quanto aos caminhos diferentes que ambos propõem, na economia, no Estado e na relação com os privados. Mas quando foram claros, foram repetitivos. Quando foram vivazes, foram confusos. Por isso, quando analisarmos os milhões que assistiram aos debates, talvez as audiências mostrem que muitos foram mudando para o TVI Reality para ver o Big Brother, incluindo o sr. António e a d.ª Manuela.

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