Elon Musk acha que o algoritmo do Twitter deve ser público. Eis o que isso poderá implicar

CNN , Rachel Metz
24 abr, 19:00
Telemóvel (Adobe Stock)

A 24 de março, semanas antes de ter anunciado a sua intenção de comprar o Twitter, Elon Musk publicou uma sondagem na rede social: “O algoritmo do Twitter deve ser de código aberto”, escreveu ele, com opções para os utilizadores votarem “sim” ou “não”.

Parte da tecnologia do Twitter já é de código aberto, o que significa que está disponível para qualquer pessoa ver, retrabalhar, e utilizar para outros fins. No entanto, o que Musk estava a perguntar, essencialmente, era se as regras que os computadores seguem para determinar o que se vê no seu feed do Twitter (TWTR) também deveriam ser públicas. Mais de um milhão de votos foram contados na altura do encerramento da sondagem, com uma quantidade esmagadora de votos “sim” (82,7%).

A implicação da sugestão e sondagem do Musk ganhou um novo peso na semana passada, após o CEO da Tesla (TSLA) e da SpaceX ter anunciado que queria comprar todas as ações do Twitter que ainda não possui, através de um negócio que valorizaria a empresa em cerca de 41 mil milhões de dólares. A administração do Twitter anunciou uma medida chamada “poison pill” (comprimido de veneno) que pode dificultar a aquisição da empresa por parte do Musk.

Se o acordo se concretizar, Musk disse que o seu objetivo é “desbloquear o potencial extraordinário” do Twitter, mas as suas sugestões de alterações específicas de como o fazer têm sido, sem dúvida, vagas. Um dos seus principais focos tem sido o reforço da liberdade de expressão na plataforma, e a sua sugestão relativa aos algoritmos é fulcral para tal.

Horas depois de Musk ter feito a sua proposta para comprar o Twitter, reiterou a ideia de algoritmos de fonte aberta do Twitter durante uma presença na conferência da TED em Vancouver. Disse também que se deveria tornar mais claro para os utilizadores quando o Twitter toma decisões que impactam o que se publica, tais como decisões para amplificar ou desenfatizar tweets. 

Desta forma, explicou durante o evento, “não há nenhum tipo de manipulação de bastidores, nem algorítmica nem manual”. Os membros da audiência do TED aplaudiram em resposta com grande entusiasmo. (O Twitter adiciona etiquetas aos tweets por uma série de razões, tais como se um post contém informações enganosas ou se um post viola as regras da rede social, mas é mantido disponível após ter sido determinado que é “do interesse do público”).

Elon Musk não é o único a apelar para que as plataformas tecnológicas sejam mais transparentes com os seus algoritmos. Na sequência do lançamento de 2021 dos “Facebook Papers”, que mostraram como os algoritmos podem fomentar a divisão e levar os utilizadores por caminhos perigosos, tem havido um novo escrutínio em relação aos algoritmos que cada vez mais dominam as nossas vidas. Além disso, Jack Dorsey, o cofundador do Twitter e antigo CEO, apelou a um maior esforço para proporcionar aos utilizadores controlo sobre a rede social, inclusive respondeu à sondagem do Musk, citando-a com um comentário seu: “A escolha do algoritmo a utilizar (ou não) deve ser aberta a todos”.

Musk também tem razão ao referir os algoritmos que suportam a empresa como parte fundamental do que faz o Twitter... o Twitter. Afinal de contas, os algoritmos, que são na sua forma mais simples um conjunto de instruções, sustentam inúmeros produtos e serviços que dependem de computadores.
Os algoritmos são utilizados para analisar os tweets que vê das pessoas que segue na plataforma, de forma a mostrar-lhe publicações de outros que o Twitter pensa que você gostaria de ver, tudo isto com base numa série de fatores, tais como: as contas com quem interage, o quão popular é um tweet, e como outras pessoas que você conhece estão a interagir com esse tweet. Também são utilizados para recortar imagens que as pessoas publicam, e para remover conteúdos desagradáveis. E se optar por ver tweets por ordem cronológica de publicação, isso também é feito através do uso de um algoritmo.

Mas, de acordo com a inteligência artificial e os especialistas em software de código aberto, tornar públicos os algoritmos que moldam o que se vê no Twitter não terá grande efeito para fazer do Twitter uma empresa mais transparente. Mesmo que acabe por ajudar a resolver alguma desconfiança que os críticos têm nas suas medidas de fiscalização do conteúdo do Twitter, avançar nesta direção também poderá criar um novo conjunto de riscos para a rede social.

O CEO da Tesla, Elon Musk, não respondeu ao pedido de comentários da CNN Business. O Twitter recusou-se a comentar.

As limitações do plano de Elon Musk

Mesmo aqueles que conseguem compreender a programação por detrás do algoritmo não compreendem realmente como funciona. Por exemplo, tenha em mente o facto de que frequentemente há pouco mais do que uma explicação básica das empresas de tecnologia sobre como os seus sistemas algorítmicos funcionam e para o que são utilizados. As pessoas que constroem estes sistemas nem sempre sabem por que razão chegam às suas conclusões, e é por isso que estas são geralmente referidas como “black boxes”.

Permitir que qualquer pessoa veja o código do site é “um pouco insensato”, comentou Vladimir Filkov, professor de informática na Universidade da Califórnia, porque muito poucas pessoas conseguem compreender como funciona a base de códigos do Twitter para produzir o que veem nos seus ecrãs.

“Código Aberto, por definição, significa que se pode ver o código, mas não significa que se possa compreender as políticas ou influenciar as políticas que determinam esse código”, disse Filkov, que desenvolve ferramentas para ajudar os programadores a executar projetos de software de código aberto mais eficazes.

Dito isto, aqueles que conseguem compreendê-lo seriam capazes de descobrir como é que o Twitter decide que tweets mostrar aos utilizadores, afirmou Ariel Procaccia, uma professora de ciências informáticas na Universidade de Harvard, cujos estudos incluem inteligência artificial e economia.

“Nessas circunstâncias, é melhor que a empresa se certifique de que os seus algoritmos são justos, pois certamente seriam responsabilizados se não o fossem”, disse Procaccia. “Acredito que isso seria positivo para os utilizadores”.

Filkov considera que seria bastante útil fazer o mesmo que os outros projetos de código aberto fazem frequentemente em conjunto com o código: listar publicamente as políticas que conduziram a esse tipo de programação.

“A compreensão dessas políticas seria mais fácil do que a compreensão do código”, disse Filkov.

Um novo conjunto de riscos para o Twitter

Para além da eficiência do código aberto dos algoritmos do Twitter, há também a questão do que seria exatamente divulgado ao público juntamente com o código.

Por exemplo, se o Twitter tornasse código aberto apenas o algoritmo que utiliza para decidir o que é e o que não é permitido na plataforma, mas não os dados de formação que foram utilizados para fundamentar esse algoritmo, então seria “bastante inútil”, comenta Allison Randal, membro da direção da Software Freedom Conservancy e da Open Infrastructure Foundation. No entanto, fica mais complicado se tivermos em conta os dados de instrução. Se esses dados incluírem tweets privados, a sua divulgação levaria a “enormes implicações negativas de privacidade”, disse ela.

No entanto, tornar os algoritmos do Twitter públicos não implicaria necessariamente quaisquer mudanças no Twitter. Os utilizadores não seriam capazes de fazer alterações ao código, a menos que o Twitter permitisse tais ações (por exemplo, através da implementação de uma alteração a todos os utilizadores, ou deixando que os utilizadores individuais efetuem modificações com o código que controla as suas contas pessoais).

“Os utilizadores poderiam, naturalmente, copiar o código e modificá-lo, mas tais alterações não afetariam os algoritmos implementados no Twitter”, disse Procaccia. “É muito improvável que o Twitter considerasse mesmo a possibilidade de implementar alterações feitas por indivíduos que não são empregados da empresa”.

Embora a disponibilização ao público dos seus algoritmos pudesse aumentar a confiança entre os utilizadores, o Twitter também poderia acabar por dar uma vantagem à concorrência. Tal como Procaccia referiu, a concorrência poderia reproduzir e implementar os algoritmos do Twitter.

Este feito deve também ser realizado cuidadosamente para evitar falhas de segurança, disse Filkov. Ele acredita que a divulgação pública do código teria de ser acompanhada por um esforço para assegurar que a base de códigos é mais segura.

“Compreender o código significa também compreender as falhas do mesmo”, disse ele. “Assim, alguém que tenha más intenções pode tirar partido do facto de conhecer o código e expor a plataforma a riscos, o que pode incluir tomar posse de contas pessoais ou expor a plataforma a desinformação”.

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