Cabo não estava certificado para transportar pessoas, manutenção dada como realizada afinal não foi feita: relatório sobre o elevador da Glória é demolidor para a Carris

20 out, 18:32

E ainda: inspeções previstas para o dia do acidente estão registadas como executadas, apesar de não terem sido feitas no horário assinado por um técnico. E há mais problemas detetados pelo relatório

Já é conhecido o relatório intercalar do Gabinete de Prevenção de Acidentes Ferroviários (GPIAF) sobre o acidente no Elevador da Glória — e as conclusões são demolidoras para a Carris, mas também para a empresa responsável pela manutenção, a MAIN.

Os técnicos do GPIAF concluem que houve falhas graves no cabo, na manutenção e nos travões.

O cabo não estava conforme as especificações da Carris em vigor desde 2011: não estava certificado para transportar pessoas, nem para integrar um destorcedor nas extremidades — precisamente o ponto onde acabou por romper, provocando o trágico acidente e a morte de 15 pessoas.

A manutenção era, também ela, uma miragem.

Os técnicos concluíram que as tarefas de manutenção registadas como cumpridas nem sempre foram efetivamente realizadas, como o exclusivo da TVI já tinha avançado.

Apesar disso, o plano de manutenção estava registado como conforme e foi aceite pela Carris. Mas há algo ainda mais grave: as inspeções previstas para o dia do acidente estão registadas como executadas, apesar de não terem sido feitas no horário assinado por um técnico.

O GPIAF faz questão de sublinhar que consultou todas as imagens de videovigilância e, por isso, sabe quem fez o quê. Sabe, nomeadamente, que nenhum técnico foi ao fosso, local onde seria possível verificar o estado do cabo — aliás, tal procedimento nem sequer estava previsto no plano de manutenção.

Há ainda outra causa mais do que provável para o acidente: o sistema de frenagem do elevador não foi eficaz para imobilizar a cabine que transportava 27 pessoas, apesar de o guarda-freio ter acionado, em menos de um segundo, todos os travões disponíveis. Ainda assim, a frenagem só imobilizou a cabine ao fim de sete metros. Não há memória, entre os técnicos da Carris, de o travão de emergência ter alguma vez sido testado em situação de falha de cabo.

Os técnicos concluíram ainda que o sistema de travagem das cabinas era sujeito a ajustes, mas as anomalias raramente eram registadas.

O GPIAF confirma também que o Elevador da Glória já tinha tido outros dois acidentes — tal como o exclusivo da TVI/CNN tinha noticiado —, apesar da resistência da própria Carris em entregar os relatórios à entidade investigadora: um a 3 de outubro de 2024 e outro em maio de 2025.

Além disso, os elevadores encontravam-se sob responsabilidade exclusiva da Carris, sem qualquer supervisão de uma entidade externa.

O GPIAF promete o relatório final para o próximo ano. Quanto a este, sublinha que é preliminar e não pode ser tomado como conclusivo, uma vez que o relatório definitivo só será publicado um ano depois do acidente.

Moedas reage

Confrontado com as conclusões do relatório intercalar do GPIAF, Carlos Moedas reagiu dizendo que fica claro que o acidente teve "causas técnicas e não políticas".

"Ao contrário da politização que alguns fizeram durante a campanha, este relatório reafirma que a infeliz tragédia do elevador da Glória foi derivada de causas técnicas e não políticas", afirma o presidente da Câmara de Lisboa.

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