A administração Trump aponta agora a mira aos políticos alegadamente comprados pelo narcotráfico, numa estratégia que pode abalar profundamente as relações entre os EUA e o México
Durante décadas, barões da droga com nomes como “El Chapo” e “El Mencho” foram o rosto da luta dos Estados Unidos contra o tráfico de droga mexicano. Agora, a administração Trump adotou um novo alvo: políticos influentes que alegadamente aceitam dinheiro ilícito para ajudar os criminosos.
Recentemente, o Departamento do Tesouro dos EUA acusou os cartéis de estarem a utilizar “cada vez mais os seus lucros ilícitos para efetuar pagamentos em dinheiro a campanhas políticas mexicanas”. O objetivo, segundo o comunicado, era eleger candidatos “dispostos a defender os cartéis e os seus interesses”.
Não é segredo que os grupos do crime organizado mexicano injetam dinheiro em campanhas eleitorais, especialmente ao nível local. Mas o assunto raramente é abordado de forma aberta pelas autoridades mexicanas. O alerta da Financial Crimes Enforcement Network, do Departamento do Tesouro, desencadeou uma onda de polémica, com analistas a considerarem-no mais um sinal de que os Estados Unidos pretendem atingir não apenas os chefes dos cartéis, mas também os seus alegados cúmplices dentro do governo.
No último ano, a administração Trump revogou os vistos norte-americanos de, pelo menos, uma governadora - Marina del Pilar Ávila Olmeda, do estado mexicano da Baixa Califórnia - e de numerosos presidentes municipais. E, numa medida rara, procuradores norte-americanos acusaram formalmente um governador em exercício - Rubén Rocha Moya, de Sinaloa - de alegadamente permitir que traficantes de droga operassem em troca de subornos e apoio eleitoral. Tanto Rocha como Ávila, ambos do partido no poder, Morena, negaram qualquer irregularidade.
Estas medidas representam uma rutura clara com a prática tradicional dos EUA de resolverem os diferendos bilaterais maioritariamente à porta fechada e de não interferirem abertamente na política mexicana.
“Este é um território inexplorado nas relações entre os Estados Unidos e o México”, afirma Pamela Starr, cientista política da Universidade do Sul da Califórnia e autora do recente livro The Making of Mexico: Revolution, Reform, and Transformation.
Segundo Starr, os Estados Unidos concediam tradicionalmente ao México “muita autonomia política interna”, de modo a garantir a estabilidade de um país vizinho disposto a cooperar em questões que iam das relações entre grandes potências à migração ilegal e ao comércio.
O que mudou? A administração Trump adotou uma abordagem de linha dura, que incluiu a classificação dos cartéis como organizações terroristas e o bombardeamento de embarcações suspeitas de transportar droga nas Caraíbas e no Pacífico. As autoridades norte-americanas poderão também estar agora em melhor posição do que nunca para processar judicialmente políticos que ajudem grupos do crime organizado. Graças a operações antidroga agressivas dos EUA e à cooperação do México, dezenas de figuras de topo dos cartéis foram entregues à justiça norte-americana nos últimos dois anos. Especialistas em segurança especulam que muitos estarão dispostos a revelar os subornos pagos a políticos na esperança de obter reduções de pena.
“É a única forma realista, neste país, de detetar as ligações entre o crime organizado e as campanhas políticas”, afirma Luis Carlos Ugalde, académico que presidiu ao Instituto Federal Eleitoral do México entre 2003 e 2007.
Contudo, a política norte-americana está a tensionar as relações com a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, e com o seu partido de esquerda, o Morena, que detém a maioria no Congresso e governa quase três quartos dos estados do país. Se a administração Trump for longe de mais, alerta Starr, “arrisca-se a envenenar a cooperação bilateral em matéria de segurança”.
Difícil seguir o rasto do dinheiro
Ninguém sabe ao certo qual é a dimensão das doações dos cartéis às campanhas políticas mexicanas, mas até antigos responsáveis eleitorais reconhecem que os montantes são significativos.
“É um fenómeno que se desenvolveu muito rapidamente”, afirma Ugalde, acrescentando que o problema mal era percetível há duas décadas, quando exercia funções como responsável eleitoral.
Em 2018, foi coautor de um relatório que estimava que os candidatos a governador gastavam, em média, pelo menos quinze vezes mais nas campanhas do que aquilo que declaravam oficialmente às autoridades. Esse “dinheiro escondido” incluía não apenas contribuições do crime organizado, mas também verbas desviadas dos orçamentos públicos e doações de empresários que esperavam obter contratos governamentais.
As campanhas recebem, em geral, esses fundos em numerário e distribuem-nos da mesma forma, não deixando qualquer rasto financeiro. “Ninguém paga uma operação de mobilização de eleitores com o seu American Express”, observava o relatório, intitulado "Money Under the Table".
Jaime García, consultor político, afirma que as campanhas se tornaram progressivamente mais dispendiosas nas últimas décadas, à medida que o México passou de um sistema de partido único para uma democracia competitiva. Isso levou os dirigentes partidários a ignorarem as regras de financiamento eleitoral e a aceitarem donativos ilegais, diz.
Raramente os doadores ou os beneficiários de fundos provenientes do narcotráfico foram alvo de processos judiciais, quanto mais condenados.
Há várias razões para esse fracasso. O México tem um sistema judicial fraco e sobrecarregado. As testemunhas têm frequentemente demasiado medo dos cartéis para depor em tribunal. E nenhum dos partidos políticos demonstrou grande interesse em escrutinar o dinheiro que entra nas suas campanhas.
“Não convém a ninguém rastrear o dinheiro gasto durante os dias da campanha oficial”, afirma García.
Embora seguir o rasto do dinheiro seja difícil, há outros sinais do crescente papel do crime organizado na política. Mais de três dezenas de candidatos foram assassinados no período que antecedeu as eleições nacionais de 2024, e centenas de outros desistiram da corrida eleitoral, à medida que os grupos criminosos procuravam colocar os seus aliados no poder. O controlo político de cidades e municípios tornou-se mais importante à medida que os cartéis diversificaram as suas atividades para áreas como a extorsão, a exploração florestal ilegal e a venda de droga no mercado interno. Se antes se concentravam em garantir o controlo das estradas para enviar heroína ou cocaína para os Estados Unidos, agora procuram controlar câmaras municipais, forças policiais locais e populações inteiras.
Sheinbaum afirmou que surgiram poucas provas que sustentem as alegações de interferência dos cartéis nas eleições e recordou que um tribunal eleitoral estadual confirmou a vitória de Rocha em Sinaloa, depois de analisar denúncias de irregularidades. Ainda assim, propôs que as autoridades eleitorais federais criassem uma comissão de verificação para analisar os candidatos e detetar eventuais ligações ao crime organizado antes das eleições intercalares do próximo ano.
A presidente mexicana também manifestou suspeitas quanto ao verdadeiro objetivo da ofensiva da administração Trump contra políticos alegadamente ligados aos cartéis. “Será isto um interesse legítimo em combater o crime organizado?”, questionou Sheinbaum num discurso recente. “Ou estaremos talvez a assistir à forma como sectores da extrema-direita norte-americana estão a usar o nosso país para se posicionarem antes das eleições de novembro de 2026?”
O dilema de Sheinbaum
O recente comunicado do Departamento do Tesouro centrou-se numa dessas atividades mais recentes dos cartéis. A venda ilegal de petróleo e combustíveis tornou-se um negócio de milhares de milhões de dólares no México, com o Governo a acusar grupos criminosos de trabalharem lado a lado com funcionários corruptos e empresas. Em alguns casos, as organizações roubam combustível no México e revendem-no; noutros, fazem-no entrar clandestinamente através da fronteira com os Estados Unidos.
O alerta do Tesouro afirmava que os cartéis estão a utilizar os lucros dessas vendas para eleger políticos mexicanos corruptos que lhes proporcionem acesso a “cargos administrativos-chave no governo”, facilitando o contrabando de combustível e o branqueamento dos lucros obtidos.
Tratava-se de uma acusação abrangente ao sistema político mexicano, e Sheinbaum respondeu com indignação. “Que provas têm eles?”, perguntou numa conferência de imprensa.
A acusação fazia parte de uma sucessão de críticas norte-americanas aos esquemas de proteção política dos cartéis.
Em abril, o embaixador dos Estados Unidos no México, Ronald Johnson, deu a entender que a administração Trump estava a abrir uma nova frente na luta antidroga, avisando que estavam a caminho “medidas significativas” contra o suborno e a corrupção no México. Quase uma semana depois, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a acusação formal de Rocha e de outros nove atuais e antigos responsáveis de Sinaloa. Os procuradores acusaram-nos de colaborar com o Cartel de Sinaloa para enviar “quantidades maciças de estupefacientes para os Estados Unidos em troca de apoio político e subornos”.
O caso é particularmente delicado porque Rocha é um aliado próximo do antigo Presidente Andrés Manuel López Obrador, mentor político de Sheinbaum. A Presidente recusou um pedido dos Estados Unidos para deter Rocha com vista à sua extradição, afirmando que Washington não apresentou provas da sua culpabilidade. O governador de Sinaloa suspendeu temporariamente as suas funções enquanto decorre a investigação norte-americana. Rocha alegou que as acusações tinham como objetivo enfraquecer o Morena. “Estas acusações contra mim são falsas”, disse aos jornalistas. “Não permitirei que me utilizem para prejudicar o movimento a que pertenço.”
Os analistas afirmam que a política da administração Trump criou um dilema para Sheinbaum: o Morena apresentou-se como um partido anticorrupção e a Presidente não quer dar a impressão de que está a encobrir práticas corruptas. No entanto, entregar destacados políticos do Morena aos Estados Unidos poderá prejudicar a popularidade do partido e enfraquecer o próprio controlo de Sheinbaum sobre o Governo.
Até agora, a líder mexicana procurou, em grande medida, apaziguar o Presidente norte-americano Donald Trump na sua campanha antidroga. Enviou milhares de soldados para patrulhar a fronteira mexicana e transferiu mais de 90 figuras de topo dos cartéis para a custódia das autoridades norte-americanas. O seu Governo intensificou também o combate ao roubo de combustível e prendeu dezenas de atuais e antigos responsáveis locais - incluindo alguns do Morena - acusados de colaborar com grupos criminosos.
Contudo, nas últimas semanas endureceu o tom, afirmando que o Governo dos Estados Unidos estava a tentar minar a soberania do México através de acusações como a apresentada contra Rocha. Tanto o Governo mexicano como a opinião pública são extremamente sensíveis à interferência de um vizinho que anexou mais de metade do território mexicano no século XIX.
“Sejamos claros: primeiro vêm atrás de uns, depois de outros, até que os gabinetes do Departamento de Justiça se tornem os principais eleitores no México”, afirmou Sheinbaum no final de maio. “Não podemos permitir isso.”
Embora poucos duvidem de que políticos corruptos prestam um apoio essencial ao crime organizado, não é claro até que ponto a política da administração Trump conseguirá, em última análise, enfraquecer esses grupos. Os cartéis, as máfias de menor dimensão e os gangs de rua exercem influência sobre câmaras municipais e governos estaduais em todo o país e aprofundaram o seu papel na economia. Críticos, tanto nos Estados Unidos como no México, afirmam que o país continua a não dispor de um sistema judicial eficaz nem de forças policiais devidamente preparadas, além de ter subfinanciado de forma persistente o seu aparelho de segurança. Os cartéis são igualmente fortalecidos pela forte procura de droga nos Estados Unidos e pelo fluxo ilegal de armas norte-americanas através da fronteira.
“Resolver este problema no México é um projeto de uma geração”, afirma Starr. “Não é algo que possa ser feito num ou dois anos, nem durante os quatro anos restantes da administração Sheinbaum.”
