Dormir oito horas seguidas? Há muitos padrões de sono, mas as rotinas de trabalho acabaram por impor um deles

CNN , Katie Hunt
21 jan, 15:21
O estudo de A. Roger Ekirch sugere que a prática de dormir a noite toda não era dominante até há apenas algumas centenas de anos. Foto: John Fedele/The Image Bank RF/Getty Images

O historiador A. Roger Ekirch descobriu referências a um padrão de sono que o mundo moderno desconhece: o sono bifásico

Como muitas pessoas, o historiador A. Roger Ekirch pensava que o sono era uma constante biológica e as oito horas de descanso por noite não variavam muito consoante a época e o local.

No entanto, enquanto investigava a vida noturna na Europa e América do Norte pré-industriais, ele descobriu a primeira prova de que muitos humanos dormiam de forma segmentada. Um primeiro e segundo sonos com um intervalo de algumas horas para fazer sexo, rezar, comer, conversar e tomar a medicação.

“Este é um padrão de sono que o mundo moderno desconhece”, afirmou Ekirch, um ilustre professor universitário do departamento de História de Virginia Tech.

O livro posterior de Ekirch, At Day's Close: Night in Times Past, desenterrou mais de 500 referências sobre o que tem sido chamado de sono bifásico desde então. O historiador já encontrou mais de 2000 referências numa dezena de línguas, originando as mais antigas da Grécia Antiga. O seu livro, de 2004, será republicado em abril.

O seu estudo sugere que a prática de dormir a noite toda não era dominante até há apenas algumas centenas de anos. Esta só se desenvolveu graças à difusão do uso da luz elétrica e à Revolução Industrial, com a sua crença capitalista de que o sono era uma perda de tempo que podia ser melhor aproveitado para trabalhar.

Segundo o estudo de Ekirch e de outros historiadores e antropólogos, a história do sono não só revela detalhes fascinantes sobre a vida quotidiana no passado, como também ajuda os cientistas do sono a ganhar uma nova perspetiva sobre o que constitui uma boa noite de sono. Oferece também novas maneiras de lidar e de pensar os problemas de sono.

O conhecimento sobre este padrão de sono anterior no mundo ocidental é valioso, disse Ekirch. Ele convenceu “uma grande quantidade de pessoas que, hoje, sofrem de insónias que ocorrem a meio da noite, o principal distúrbio do sono nos Estados Unidos da América, e, arrisco-me a afirmar, em grande parte dos países industrializados, que, em vez de enfrentarem um distúrbio, entre aspas, na realidade, experienciam um vestígio muito poderoso, ou um eco, deste padrão de sono antigo”, explicou Ekirch, realçando que ele falava a partir de uma perspetiva histórica e não como médico.

Os adultos precisam de mais de sete horas de sono por noite, mas mais de um terço dos adultos norte-americanos não dormem o tempo suficiente de forma regular, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
O painel de um vitral numa igreja medieval que retrata um casal a dormir.

O painel de um vitral numa igreja medieval que retrata um casal a dormir. Foto: TonyBaggett/iStockphoto/Getty Images
O painel de um vitral numa igreja medieval que retrata um casal a dormir. Foto: TonyBaggett/iStockphoto/Getty Images

O mito das oito horas de sono?

A primeira referência ao sono bifásico que Ekirch encontrou foi num documento legal datado de 1697 de um tribunal itinerante “Assizes” enterrado num arquivo de Londres. O depoimento de uma menina de 9 anos chamada Jane Rowth menciona que a mãe a acordou depois do seu “primeiro sono” para sair. A mãe foi encontrada morta mais tarde.

“Nunca tinha ouvido a expressão e era expressada de uma maneira que parecia completamente normal”, disse o professor. “Depois, comecei a deparar-me com referências posteriores nestes depoimentos legais e noutras fontes.”

Posteriormente, Ekirch encontrou várias referências ao “primeiro” e “segundo” sono em diários, textos médicos, obras de literatura e livros de oração. Um manual médico francês do séc. XVI aconselhava aos casais que a melhor altura para conceber não era no final de um longo dia, mas “depois do primeiro sono”, quando “eles têm mais prazer” e “fazem-no melhor”.

Porém, no início do séc. XIX, o primeiro sono começou a alargar-se às custas do segundo sono e do período intermédio do acordar, descobriu o historiador. No final do século, o segundo sono era pouco mais do que virar-se na cama para dormitar mais dez minutos.

Ben Reiss, autor de Wild Nights: How Taming Sleep Created Our Restless World, professor e diretor do Departamento de Inglês na Universidade Emory em Atlanta, culpa a Revolução Industrial e a atitude de que “o sono é para fracos” que esta engendrou.

“A resposta é mesmo seguir o dinheiro. A organização económica alterou-se, quando se tornou mais eficiente rotinizar o trabalho e fazer com que um grande número de pessoas apareça nas fábricas ao mesmo tempo e trabalhe mais da maneira mais concentrada possível”, afirmou Reiss.

Consequentemente, o nosso horário de sono ficou mais reduzido e consolidado, acrescentou.

A imagem mostra um iluminador de lâmpadas num escadote. As ruas britânicas eram iluminadas por candeeiros a petróleo até a iluminação a gás ser introduzida em meados de 1807.

A imagem mostra um iluminador de lâmpadas num escadote. As ruas britânicas eram iluminadas por candeeiros a petróleo até a iluminação a gás ser introduzida em meados de 1807. Foto: SSPL/Getty Images
A imagem mostra um iluminador de lâmpadas num escadote. As ruas britânicas eram iluminadas por candeeiros a petróleo até a iluminação a gás ser introduzida em meados de 1807. Foto: SSPL/Getty Images

Não é uma época de ouro

No entanto, a vida pré-industrial não era uma época tranquila em que os nossos antepassados passavam os seus dias bem repousados e rejuvenescidos, sem serem perturbados pela insónia ou outros distúrbios do sono, sintonizados, sem qualquer esforço, com o ciclo da noite e do dia, os padrões do tempo e das estações, segundo Sasha Handley, professora de História na Universidade de Manchester no Reino Unido.  Ela estuda a forma como as famílias otimizavam o seu sono na Grã-Bretanha, Irlanda e nas colónias norte-americanas entre 1500 e 1750.

“Todas as discussões sobre a história do sono parecem centrar-se numa espécie de momento decisivo da industrialização, em que a vida da população foi arruinada com o aparecimento da eletricidade. O corolário dessa afirmação é que tudo o que seja pré-industrial é imaginado como uma época de ouro do sono.”

É mostrada a miniatura de um quarto do séc. XV. Foto: NSA Digital Archive/iStockphoto/Getty Images
É mostrada a miniatura de um quarto do séc. XV. Foto: NSA Digital Archive/iStockphoto/Getty Images

Handley disse que a sua investigação sugere que, tal como atualmente, o sono estava ligado à saúde física e mental e era um tema sobre o qual as pessoas se preocupavam e com que ficavam obcecadas.

Os manuais para médicos da época tinham muitos conselhos sobre a quantidade de horas que se devia dormir e em que posição, explica a historiadora. Os guias de referência também enumeram centenas de receitas para ajudar a ter uma boa noite de sono, afirma ela. Estas incluem coisas bizarras - cortar um pombo ao meio e colar cada metade a cada um dos lados da cabeça -  e coisas mais familiares - tomar banho em infusão de camomila e usar lavanda. As pessoas também queimavam certos tipos de madeira nos quartos, pois, julgava-se que ajudavam a dormir melhor.

“No nosso tempo, o sono está fortemente ligado à digestão, à emoção, ao estômago e, portanto, à dieta das pessoas”, afirmou Sasha Handley.

Os médicos aconselhavam a descansar, primeiro, sobre o lado direito do corpo antes de virar para o lado esquerdo na segunda metade da noite. Pensava-se que descansar sobre o lado direito no primeiro sono permitia que a comida chegasse ao fundo do estômago, onde era digerida. Virar para a esquerda, o lado mais fresco, libertava vapores e espalhava o calor uniformemente pelo corpo.

Pensa-se que este hábito pode ter dado origem à expressão “acordar do lado errado da cama”.

Gravura em madeira de um pescador a sonhar, cerca de 1700, Japão. O artista é desconhecido. Foto: Heritage Images/Hulton Archive/Getty Images
Gravura em madeira de um pescador a sonhar, cerca de 1700, Japão. O artista é desconhecido. Foto: Heritage Images/Hulton Archive/Getty Images

Nem todos os académicos acreditam que dormir em dois turnos, embora seja comum nalgumas comunidades, tenha sido um hábito universal a determinada altura. Longe disso, afirma Brigitte Steger, professora de Estudos Japoneses na Universidade de Cambridge no Reino Unido, que não encontrou referências ao sono segmentado no seu trabalho sobre os hábitos de sono no Japão.

“O sono natural não existe. O sono foi sempre cultural, social e ideológico”, afirma a professora universitária, que está a trabalhar numa série de seis livros sobre a história cultural do sono.

“Não existe uma diferença evidente entre hábitos de sono pré-modernos (ou pré-industriais) e modernos”, escreveu ela por e-mail. “Os hábitos de sono, ao longo dos tempos pré-industriais e por todo o mundo, sofreram sempre alterações. Além disso, houve sempre diversidade social e os hábitos de sono na corte eram diferentes daqueles dos camponeses, por exemplo.”

Da mesma forma, Gerrit Verhoeven, professor auxiliar em Património Cultural e História na Universidade de Antuérpia na Bélgica, afirma que o seu estudo de registos de tribunais penais da Antuérpia do séc. XVIII sugere que os hábitos de sono não diferiam muito dos nossos atualmente. A norma era sete horas de sono e não há referências a primeiro ou segundo sono.

“Enquanto historiador, preocupa-me que os argumentos sobre alegados padrões de sono do passado - prolongados, bifásicos e com sestas durante o dia - sejam apresentados como uma possível cura para os nossos distúrbios de sono modernos. Antes de tirarmos essas conclusões, temos de investigar mais sobre estes padrões de sono do início da era moderna”, explica o académico.

Repensar a insónia

Russell Foster, professor de Neurociência Circadiana na Universidade de Oxford, afirmou que as descobertas de Ekirch sobre o sono bifásico, embora não estejam livres de controvérsia, contribuíram para o seu trabalho enquanto cientista do sono.

Experiências em laboratórios de sono mostraram que, quando os humanos têm a oportunidade de dormir mais tempo, explica o neurocientista, o sono pode tornar-se bifásico, ou até polifásico, reproduzindo o que Ekirch descobriu em arquivos históricos. Contudo, Foster, que também é diretor do Instituto do Sono e de Neurociência Circadiana Sir Jules Thorn em Oxford, duvidou que este seria um padrão de sono comum na população.

Ninguém deve impor-se um regime de sono segmentado, especialmente, se implicar uma redução da duração total do sono, acrescentou Foster.

O que é nítido, segundo o académico, é que o sono interrompido não era visto como um problema no passado e as expectativas modernas sobre o que constitui uma boa noite de sono - dormir oito horas por noite -  nem sempre eram úteis.

Ele acrescentou que um ponto-chave era que acordar a meio da noite não significava o fim do sono. Num exemplo que o neurocientista dá, mais pessoas acordavam a meio da noite durante os confinamentos da pandemia da covid-19.

“As pessoas ficavam extremamente ansiosas e preocupadas com o acordar a meio da noite, porque não é o que elas costumam experienciar”, disse Foster, que também é autor do livro Life Time: The New Science of the Body Clock, and How It Can Revolutionize Your Sleep and Health, que será publicado em maio de 2022. O mais provável é que o episódio de sono das pessoas - o tempo disponível que têm para dormir - tinha aumentado e não era limitado pelo toque de um alarme para acordar.

“É o regresso a um tempo em que, genuinamente, dormíamos mais”, afirmou Foster.

Se acordamos à noite, é provável que o sono regresse, se este não for sacrificado para aceder às redes sociais ou devido a outro comportamento que nos deixe mais alerta ou ative uma resposta ao stresse, como sugere a investigação de Foster. Como a maioria dos especialistas do sono, ele recomenda sair da cama, se o facto de não conseguir voltar a dormir o frustrar, e fazer uma atividade mais relaxante com uma luz de baixa intensidade.

“O sono individual nos humanos é muito variável. Não há uma solução única. Não deve preocupar-se com o tipo de sono que tem”, afirmou o neurocientista.

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