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Psicólogo, Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Emoções à flor da pele: o dia em que a guerra entrou em nossa casa

24 mar, 17:39

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

E, de repente, está perante nós. A guerra entrou em nossa casa. Entra agora e não antes, não porque antes não existisse, mas porque até aqui não lhe abríramos a porta. Olhámos antes como quem perscruta através do visor da porta quem se afigura do outro lado, confiável ou não, familiar ou desconhecido.

A guerra nem sempre bem compreendida por quem tem mais com que se inquietar é um vulto fácil de ignorar. Mas esta guerra é diferente. Tem carne, osso, um rosto que se parece reconhecer. Entrou em nossa casa, espraiando-se pelas janelas, não aquelas que dão para a rua onde se vive em paz, mas as que dão para o resto do mundo. Essas são, aliás, cada vez mais, grandes ou pequenas, e todas nos transmitem o pesadelo da guerra.

Consta que existe um lugar onde a guerra não existe porque não se pode falar nela. Por cá ela também não tem existido, não porque não se pudesse falar nela, mas porque fazê-lo era um exercício de memória. A palavra começou por desocupar o nosso espírito, depois foi a língua que perdeu os jeitos de a articular e, por fim, foi-se afeiçoando ao formato das páginas dos livros. Na manhã de 24 de fevereiro de 2022, a guerra fez-se novamente pessoa. Passou a ter nomes e vozes que conseguimos escutar e compreender humanamente, apesar de não soarem na nossa língua.

Esta guerra não é um vulto porque não sabemos dela por meias palavras ou meias notícias. Não é uma abstração que não compreendemos bem, nas suas dimensões histórica, geográfica ou conjuntural. Esta é uma guerra explícita porque não parece haver memória de uma história assim vista, onde vilões e heróis agem tão convincentemente como tal, nos gestos, nas ações e nas palavras. Não existe ambiguidade que nos escuse a fechar os olhos, como já fizemos antes, ou ignorância que nos perdoe a isenção.

Quando a guerra se senta à mesa connosco, não temos meios de a ignorar e quando prestamos atenção à atrocidade não somos capazes de ser indiferentes. São por isso muitas, diversas e, por vezes, intensas as emoções que temos sentido à flor da pele.

A angústia é talvez a emoção original da guerra porque se define por oposição à sensação de paz. É vivida como inquietude e insegurança. Fisicamente, sente-se como uma constrição, um aperto no peito. Mentalmente, sente-se como um estreitar do espaço entre nós e os nossos pensamentos.

O medo, o mesmo que nos paralisa, também nos leva a agir e, mais ainda, a reagir perante a ameaça. É uma emoção básica e, portanto, natural quando cremos que algo de nós próprios – talvez o nosso modo de vida – possa estar ameaçado. A grande sequela desta emoção, que, contudo, não devemos ignorar, é a irracionalidade. O medo elevado ao expoente das nações já patrocinou muitas guerras, algumas delas de memória recente.

A revolta é aquilo que acontece quando sentimos um nojo de natureza moral. É reprovação e também uma forma de zanga pela violação de normas sociais, de princípios ou virtudes. É uma emoção poderosa porque na medida certa faz esquecer que o medo existe. 

A impotência é talvez agora a mais ocidental destas emoções. Advém da constatação da inutilidade da nossa revolta, pelo menos no sentido de interferir no rumo das circunstâncias. É uma emoção ameaçadora porque nos coloca perante o conflito fundamental da nossa ausência de controlo sobre o mundo.

A compaixão poderá ser aquilo que separa a impotência da desesperança. É o que nos permite encontrar formas de fazer bem entre tudo o que está mal e encontrar vias de agir perante a maioria esmagadora de rumos de inação. A compaixão consiste em revermo-nos no sofrimento do outro e querermos agir para o remediar.

A esperança é de todas a mais infinita e aquela sobre a qual se deve escrever por último. A minha é a de que desta vez não sejamos indiferentes. A história mostra-nos como, por vezes, quando vemos o pior da humanidade, descobrimos também o seu melhor. Ou, nas palavras de Winston Churchill: o futuro é insondável, mas o passado deve dar-nos esperança.

Estas são só algumas das emoções que agora trazemos connosco. Desengane-se quem acha que são fúteis. Os sentimentos partilhados têm pressionado governos e corporações para a ação e podem muito bem vir a contribuir para mudar o curso dos eventos a favor da paz.  

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