opinião

Brincar com o diabo dá mau resultado

22 set, 21:02

Nos últimos sete anos, António Costa alicerçou a sua estratégia política em dois pilares: apagar a ideia – correta – de que o PS não era um partido de contas certas. E criar uma retórica política contra o diabo. O belzebu encarnado no líder do PSD, fosse ele quem fosse. António Costa era assim uma espécie de anti-lúcifer, o otimista que não se importava com o epíteto de irritante, um malabarista que resiste a tudo e atira do precipício todos os que se lhe atravessem à frente.

Durante sete anos, António Costa fez o que quis. Do PCP, do Bloco de Esquerda, do Estado e do país. A ilusão da estabilidade política e de uma economia em crescimento valeu-lhe uma maioria absoluta, por falta de comparência, sobretudo, do principal partido da oposição.

Isto apesar de o país continuar pobre. De uma economia que nunca foi capaz de gerar o necessário aumento dos rendimentos do trabalho, de a carga fiscal continuar elevadíssima para o nível de serviços que o Estado presta e de nenhuma reforma, digna desse nome, ter sido feita.

Durante sete anos, com juros historicamente baixos, a economia a crescer e o mundo em paz, António Costa não se preocupou, por um segundo que fosse, em preparar Portugal para o próximo choque externo. A justiça ficou na mesma ou pior. A saúde bateu no fundo. A educação continua com os mesmos problemas estruturais de há décadas. A segurança social – que, segundo o PS, não tinha qualquer problema de sustentabilidade – agora corre sérios riscos. O Estado continua com pessoas a mais nuns sítios e pessoas a menos noutros. Mas, sobretudo, com ordenados miseráveis e uma capacidade de recrutamento cada vez menor.

Durante sete anos, a prioridade foi manter os pensionistas felizes com os aumentos extraordinários em cima de reformas miseráveis, os funcionários públicos iludidos com a ideia de que um dia, quem sabe, talvez os aumentos fossem alguma coisa que se visse. O salário mínimo foi subindo administrativamente, sem qualquer adesão à produtividade ou ao crescimento económico. O défice controlado à custa de cativações e outras artimanhas orçamentais. E subsídios. Muitos subsídios. A velha tática socialista para se manter no poder, que é a de distribuir dinheiro para a fatia do eleitorado que decide eleições.

Durante sete anos, António Costa aproveitou como pôde e o mais que pôde o ódio com que os pensionistas e os funcionários públicos ficaram ao PSD depois dos anos da troika, alimentando a narrativa política de que a direita é o diabo e o PS o Cristo redentor. 

Mas o diabo apareceu mesmo. E, neste caso, não está nos detalhes. A invasão da Ucrânia pela Rússia arrastou o mundo para aquilo que pode ser um novo paradigma económico. O tempo do dinheiro barato e de inflações baixas pode mesmo ter vindo para ficar durante alguns anos, ao contrário do que António Costa e Fernando Medina diziam há uns meses.

A energia é só o caso mais evidente. Não é apenas uma arma potente de Vladimir Putin contra o Ocidente, é a prova provada de que fazer negócios com ditadores dá sempre mau resultado. Portugal, que até nem depende da Rússia energeticamente – mas não deixa de sofrer os danos colaterais desta crise –, depende, no caso do gás, de países como a Nigéria ou a Argélia, que, como sabemos, são dois bons exemplos de democracias estáveis. Ainda esta semana, na CNN Portugal Summit dedicada a este tema, o ministro do Ambiente e das Alterações Climáticas lá deixou escapar que não estamos livres de cortes no abastecimento, confirmados, aliás, pelo presidente da Galp logo a seguir.

O segundo grande exemplo é a segurança social. Ao contrário do que o Governo nos quer fazer pensar, o problema de sustentabilidade não surgiu com a guerra na Ucrânia. Ele existe há décadas e não têm faltado vozes a alertar para os riscos de uma pirâmide demográfica cada vez mais invertida que pode colocar em causa a sobrevivência do sistema. Nada, rigorosamente nada, foi feito nos últimos sete anos para se reformar este setor que tem à frente da pasta uma ministra fantasma, como são quase todos os ministros de António Costa.

E eis-nos, agora, perante uma pergunta traiçoeira: quão preparado está Portugal para sobreviver a mais uma crise? A resposta tem sido dada todos os dias pelo (des)Governo. Ministros que se desautorizam em público, informação incompleta, anúncios públicos que não passam de truques de ilusionismo e uma tentativa permanente de esconder a verdade ao país: a austeridade vai voltar.

Marcelo avisou esta semana: o que vem aí não é bom. Os bancos centrais e vários organismos internacionais já o repetiram várias vezes. A Alemanha pode entrar em recessão já este ano. O Japão interveio esta semana, pela primeira vez em 24 anos, no Yen e começou a vender dólares. O diabo com que António Costa andou a gozar nos últimos sete anos está agora a bater-lhe à porta.

O assunto é sério. A Guerra da Ucrânia não é apenas um problema de segurança das democracias ocidentais. Não é apenas uma guerra temporária que mata uns milhares e depois podemos assobiar para o lado. O que estamos a viver pode ser o fim da globalização tal como a conhecemos. Pode ser a destruição de um sistema económico assente em cadeias de distribuição baratas, juros baixos e uma inflação ainda mais baixa. Qualquer brincadeira, mentira, ou tentativa de ocultação desta realidade não é apenas uma irresponsabilidade. É politicamente criminoso. O PS tem em seu poder a sua segunda maioria absoluta na história da democracia. Falta saber o que quer António Costa fazer com ela, que legado quer deixar ao país e que futuro quer deixar ao próprio Partido Socialista.

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