A vida real dos "Aristogatos" do Museu Hermitage de São Petersburgo

CNN , Cai Pigliucci
17 dez 2021, 10:03
Gatos no Hermitage. Kev Broad/CNN
Gatos no Hermitage. Kev Broad/CNN

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Enquanto passeia pelos grandiosos salões do Museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia, talvez oiça o leve som de um miau a sair dos canos abaixo.

A deambular pela ampla cave do que foi, em tempos, o Palácio de Inverno, residência oficial dos czares da Rússia, andam quase 50 gatos que são tratados como reis. Na sala principal (a "koshachiy dom" ou "casa dos gatos") são alimentados e tratados pelo pessoal do Hermitage, com direito também a veterinários.

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O palácio também tem uma sala especial para gatos mais antissociais que preferem pouco contacto com os outros felinos. Depois há os que vagueiam pelos corredores da cave, deitados em tubos enormes e saltando pelos cantos e recantos do palácio.

O Hermitage até dedicou uma secretária de imprensa para os gatos, Maria Haltunen. Apesar de não lhes ser permitido andarem pelas galerias e de serem raramente vistos pelo público, Haltunen diz que são populares.

"Talvez seja porque são tão doces, talvez pela estranha combinação de um enorme museu e belos gatos", declara Haltunen, que, por acaso, é alérgica aos animais.

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Um gato preto diante o Museu Hermitage
Olga Maltseva/AFP via Getty Images

"Guardiões das galerias"

Hoje, o Museu Hermitage é composto por cinco edifícios abertos ao público, sendo o Palácio de Inverno o edifício principal. O edifício, com quase três séculos de existência, sempre foi habitado por gatos. A Imperatriz Isabel I ordenou por decreto que fossem levados gatos da cidade de Kazan, a cerca de 1200 quilómetros a sudeste de São Petersburgo, para caçarem ratos na cave do palácio.

Os gatos deambulam agora pela cave de um dois maiores museus do mundo, que tem cerca de 233 000 metros quadrados de área e mais de três milhões de obras de arte e artefactos, incluindo uma substancial coleção de obras de Rembrandt, Matisse e peças raras de cerâmica da Grécia antiga.

O Museu Hermitage em São Petersburgo ao pôr-do-sol.
Julian Finney/Getty Images

Passear pelo museu é como dançar nas pisadas dos czares russos. Os visitantes podem movimentar-se pela sala de brasões para a galeria militar e depois chegam à sala do trono, onde ficam diante do que foi literalmente o assento do poder da dinastia Romanov.

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A Imperatriz Isabel I aprovou o estilo barroco para o palácio, que foi construído nas décadas de 1750 e 1760, nos últimos anos do seu reinado. O seu pai, Pedro, o Grande, que fundou São Petersburgo, tinha chamado a si a missão de ocidentalizar o país, encomendando edifícios a famosos arquitetos italianos.

No reinado de Catarina, a Grande, que adquiriu as primeiras obras de arte, a coleção do Hermitage foi criada, e a lenda dos gatos do museu cresceu, tendo Catarina, alegadamente, nomeado os gatos como "guardiões das galerias".

Foi ela quem encomendou o Pequeno Hermitage (junto do Palácio de Inverno) que foi estabelecido como museu da corte, mantendo o Palácio de Inverno como galeria privada. Só em 1852, com Nicolau I, foi aberto ao público.

 

A Sala do Trono no Museu Hermitage, o assento do poder durante gerações de czares russos.
Kev Broad/CNN

O museu pelos olhos do seu diretor

O atual diretor Museu Hermitage, Mikhail Piotrovsky, conhece cada centímetro do palácio. O pai foi diretor durante quase 40 anos; Piotrovsky cresceu a vaguear pelos corredores.

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"É uma enciclopédia de arte e cultura mundiais. É uma enciclopédia da História russa", diz Piotrovsky à CNN. "Nenhum outro museu tem tal combinação de belas vistas e locais."

Piotrovsky diz que o seu local preferido está sempre a mudar. Adora que a arte e os artefactos não estejam guardados num "cubo branco", como o cenário minimalista de muitos dos museus de todo o mundo, mas, em vez disso, expostos na grandiosidade de um palácio.

Apesar de o diretor insistir que tudo no seu museu é preponderante, um dos seus ex-libris é o famoso Relógio do Pavão, uma das aquisições de Catarina, a Grande. Do seu poleiro com vista para os jardins, o relógio de bronze dourado contém três aves mecânicas de tamanho real que se movimentam.

"O pavão é a ave-do-paraíso, os jardins dão símbolos do paraíso, de certa forma", diz Piotrovsky. "Isso cria um pequeno paraíso no interior do museu."

A União Soviética e o ressurgimento dos gatos no Hermitage

Quando Piotrovsky assumiu o leme do Hermitage, no início da década de 1990, o país estava em tumulto. Depois da dissolução da União Soviética em 1991, o país vivia uma crise económica tão sombria que obrigava as pessoas a abandonar os seus animais de estimação.

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O museu decidiu recolher alguns gatos abandonados, aumentando número dos poucos felinos que viviam na cave nessa altura.

Piotrovsky diz que a ideia dele foi “dar às pessoas um símbolo de humanidade, um símbolo do amor das pessoas pelos animais."

Mas, acrescenta, "não foi do agrado de todos. Nem toda a gente gosta do cheiro dos gatos."

Os gatos do palácio foram imortalizados nestes retratos ilustrados, com fatos da coleção do Hermitage. À esquerda, "Cat Tigrik" com um fato cerimonial tradicional de aio da corte, "Cat Gavrila Ardalionovich" com um fato de arauto de câmara. The Hermitage Museum XXI Century Foundation

Durante muitos anos, o pessoal do museu usava as suas horas de folga para alimentar e cuidar dos seus colegas peludos, mas agora, os gatos dependem também da generosidade de doadores. Todos os anos, o museu tem um “dia do gato”, em que as crianças vão conhecer e fazer pinturas dos felinos.

Até à data, os gatos do palácio continuam a desempenhar a sua função de caça aos ratos, incluindo o gato mais velho, de 22 anos.

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"Bom, se os ratos passarem perto dos nossos gatos, são apanhados", declara Haltunen. “Fazem o seu trabalho muito bem."

Um gato vagueia pela cave do museu em busca de ratos. Kev Broad/CNN

Com os gatos na cave e a arte acima, o museu atrai visitantes de todos os cantos do mundo. Durante os primeiros tempos da pandemia, as obras do Hermitage estiveram apenas disponíveis online. Mas Piotrovsky diz que acredita que as pessoas reconhecem a importância de ver a coleção presencialmente, em toda a sua majestade.

"Acho que é um grande museu simbólico", acrescenta, salientado que o museu sobreviveu a guerras e a tumultos políticos ao longo dos séculos." Nenhum outro museu, francamente, tem tanta história quanto o Hermitage."

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