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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

A NATO como desculpa conveniente

13 abr, 11:44

É uma desfaçatez da Administração Trump fazer da NATO o bode expiatório pelo desaire no Irão e em Ormuz. Essa responsabilidade recai sobre quem tomou decisões independentemente das suas consequências. E também sobre quem, por ignorância, vaidade ou simples asnice, não percebeu onde se estava a meter

A fúria que se observa na Casa Branca em relação à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), descrita como um “tigre de papel” e acusada de “não ter estado ao lado dos Estados Unidos” no Estreito de Ormuz, bem como de que “tornará a não estar ao lado da América se esta precisar”, tem sido analisada à luz do que tem sido uma hostilidade aberta por parte do Presidente dos Estados Unidos (USA) há décadas. Para este cronista, a razão, desta vez, parece ser muito mais prosaica.

É, no entanto, verdade que Donald Trump tem a mesma visão (errada) sobre o que é a NATO e como funciona desde 1987, quando, numa entrevista à CNN, com Larry King, afirmou: “Os pagamentos que fazemos à NATO são totalmente desproporcionais aos de todos os outros”. Não deveria ser necessário, mais uma vez, corrigir esta falácia, mas é preciso fazê-lo: os membros da NATO não fazem pagamentos para a organização; investem, sim, nas suas capacidades militares, de forma a poderem apoiar os aliados, caso tal seja necessário.

Como argumentado aqui, existe também a real possibilidade de Trump não sair em defesa da Europa caso seja necessária ajuda militar. Esse aviso foi reforçado numa mensagem dirigida a Ursula von der Leyen, quando afirmou que “a NATO está morta e nós vamos sair”. Esta posição foi reiterada num comício na Carolina do Sul, em fevereiro de 2024, onde declarou que, se um país da NATO “estivesse em dívida” e fosse atacado pela Rússia, “não o protegeria” e iria até “encorajar a Rússia a fazer o que lhes apetecesse”.

Possíveis explicações têm sido sugeridas para compreender a hostilidade do Presidente dos USA em relação à NATO, ilógica tendo em conta o historial desse país, não só enquanto fundador da organização, mas também enquanto beneficiário da mesma desde o seu início. Afinal, as intervenções militares no Médio Oriente não seriam possíveis sem o acesso às bases europeias. O mesmo se aplica à ativação do Artigo 5 do Tratado de Washington (que institui a NATO), após os ataques de 11 de setembro de 2001. O vosso cronista partilha duas em particular.

A NATO vista por Trump como um ativo à disposição do Presidente dos Estados Unidos, em que a lógica é a de: se não quiserem, pego na bola e vou para casa. Mais do que o realismo estrutural proposto por autores como Kenneth Waltz, trata-se de uma visão de unilateralismo radical, em que a hegemonia americana não serve para liderar o mundo, mas para exigir a submissão total dos aliados aos impulsos do momento. Exemplos que corroboram esta hipótese incluem a ideia de que os aliados devem comprar armas ou energia americana, aceitar tarifas arbitrárias e alinhar em conflitos como o do Irão sem questionar. A NATO baseia-se no consenso e no multilateralismo; para Trump, ter de pedir licença ou opinião a Bruxelas para atacar o Irão deve-lhe parecer impensável.

A outra é a notável proximidade de Donald Trump a Vladimir Putin, marcada por uma constante defesa, acomodação e formas diversas de apaziguamento da Rússia. Os dois Presidentes parecem partilhar a ideia de que as grandes potências (USA, Rússia e China) devem exercer controlo sobre as suas respetivas esferas de influência, sem interferência de organizações internacionais. A NATO surge, nesta leitura, como o principal obstáculo à capacidade da Rússia de ter mão livre na Europa. Usando uma perspetiva puramente transacional e de benefício para Trump, Putin poderá fazer, nas cimeiras e telefonemas recorrentes, o argumento de: Se não intervires na Ucrânia, eu não intervenho na Venezuela, se tomares a Gronelândia, destruindo a NATO no processo, eu posso recriar uma esfera de influência no espaço pós-soviético.

Porém, como sugerido acima, desta vez a explicação pode ser mais prosaica. Um artigo no New York Times, de Jonathan Swan e Maggie Haberman, explica o que pode ter levado a esta resposta inflamada da Administração Trump.

No dia 11 de fevereiro, dezassete dias antes dos ataques iniciais, o primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu, na Situation Room (of all places!), com a ajuda do diretor da Mossad, David Barnea, apresentou a Donald Trump uma estratégia que, segundo essa leitura, apontava para uma vitória quase certa, na linha do que alegadamente acontecera pouco antes na Venezuela: eliminar o líder supremo, Ali Khamenei; neutralizar as capacidades militares de Teerão; promover uma revolta popular no Irão; e facilitar a ascensão de um líder secular no país.

Netanyahu e a sua equipa defenderam que, em poucas semanas, o regime iraniano estaria suficientemente enfraquecido para não conseguir bloquear o Estreito de Ormuz. Garantiram também que não haveria retaliação significativa contra interesses americanos nos países vizinhos. A reação em Washington foi bem mais cética. O diretor da CIA, John Ratcliffe, terá classificado esses cenários como “absurdos”, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, os descreveu como “uma treta”. Já o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, terá alertado que os israelitas tendem “a exagerar” e que os seus planos “nem sempre são suficientemente bem desenvolvidos”.

O que aconteceu a seguir pode ser visto como a lei das consequências imprevistas. Ao contrário dos ataques às centrais de enriquecimento de urânio em junho de 2025, em que Teerão respondeu de forma simbólica, avisando previamente os Estados Unidos sobre os alvos de possíveis represálias, desta vez a resposta foi máxima e incluiu o recurso a uma das principais armas geopolíticas de que dispõe: o controlo do Estreito de Ormuz e, com isso, a capacidade de destabilizar a economia mundial. Foi então que a Administração Trump procurou que os aliados europeus interviessem em apoio, depois de estes não terem sido previamente avisados, consultados ou envolvidos.

Como expresso aqui, é de uma enorme desfaçatez que a Administração americana, desde o Presidente ao Vice-Presidente, passando pelos Secretários de Estado e da Defesa, esteja agora a fazer da NATO o bode expiatório da situação, quando toda a responsabilidade recai sobre aqueles que procuram alcançar os seus objetivos independentemente dos resultados negativos que isso provoca e sobre aqueles que, por ignorância, vaidade ou simples asnice, não percebem onde se estão a meter.

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