“A cumprir as leis do país, o custo seria muito superior” aos 3200 milhões de euros: trabalhadores defendem injeção pública na TAP e contestam privatização

26 abr 2023, 19:13
Paulo Duarte, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (SITAVA) (Lusa/Manuel de Almeida)

Sindicato defende Pedro Nuno Santos, diz que os trabalhadores da TAP foram “encostados à parede” para aceitar a reestruturação e avisa que empresa pode “morrer da cura”. Trata-se de declarações na comissão de inquérito à TAP - na qual Manuel Beja, ex-chairman da empresa despedido pelo Governo, foi arrasado: “A forma como saiu da TAP foi mais ou menos a forma como entrou. Foi como se não tivesse passado por lá”

O Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos (SITAVA) considera que os trabalhadores da TAP foram “encostados à parede” para aceitar o plano de reestruturação e avisam que a companhia aérea corre o risco de “morrer agora da cura”.

“Fomos encostados à parede. Ou aceitávamos aquilo ou era-nos aplicado um regime sucedâneo”, explicou o dirigente Paulo Duarte, que revelou ainda aos deputados da comissão parlamentar de inquérito à gestão da TAP que nunca foi facultado ao SITAVA o plano de reestruturação da empresa e que, perante as saídas - que impedem a normal operação -, colocam-se riscos para a empresa.

“Acho que podíamos ter esperado um pouco mais para perceber o que era a covid. Acho que foi precipitado. A TAP corre o risco de não ter morrido do mal e morrer agora da cura.”

Para Paulo Duarte, sem apoios estatais estariam em risco cerca de 100 mil postos de trabalho diretos e indiretos. “A cumprir as leis do país, o custo seria muito superior à injeção do Estado” de 3200 milhões de euros

Sobre a privatização da empresa, o SITAVA diz desconhecer qualquer processo e tem mesmo dúvidas de que ele possa avançar ainda em 2023. “Somos contra o processo de privatização.  Devíamos aprender com os erros” e “não ir à pressa entregar a TAP a qualquer um”.

Paulo Duarte destacou ainda que a empresa hoje não é “atrativa” para os trabalhadores em todas as categorias profissionais. “Saem muitas pessoas que vão para as empresas de segurança, para o Pingo Doce. A TAP abre e fecha concursos em que não tem pessoas que concorrem”.

Negócio no Brasil: “fraude enorme”, Pedro Nuno Santos “foi o único que se interessou”

Um dos temas abordados foi o do negócio de manutenção da VEM/Varig no Brasil, que para o sindicato é um “enigma” e uma “fraude enorme”, com prejuízos superiores a mil milhões de euros. Segundo Paulo Duarte, foram feitos sucessivos alertas às diferentes administrações, mas nunca obtido um esclarecimento. Já da parte do Governo, “o único interlocutor que se interessou foi Pedro Nuno Santos”.

Paulo Duarte revelou que a TAP recorria a faturas de serviços para subsidiar este negócio do Brasil. Foi então questionado pelo social-democrata se Luís Rodrigues, atual CEO da TAP, antigo administrador da empresa com este pelouro, teria protagonizado estes pagamentos.

“Já não estava lá, já tinha saído”, descartou. E concretizou como era feito o fluxo do dinheiro: “Fecharam a torneira a saídas de dinheiro para o Brasil. A partir de determinada altura, foi dada uma indicação de que não havia mais dinheiro transferido. Havia trabalho que era feito aos aviões da TAP em que era emitida uma fatura. A forma de continuar a haver dinheiro para pagar as contas lá era através dessas faturas de prestação de trabalhos”.

Questionado sobre a ligação de Diogo Lacerda Machado a este negócio enquanto esteve na TAP, confidenciou: “quando falámos neste assunto, nunca deu abertura a que se falasse”.

Já sobre a compra de aviões A320 e A330 Neo, Paulo Duarte considerou que se deveu à vontade da empresa de se expandir para o Oriente. Mas censurou a escolha: “A escolha hoje parece acertada porque não há passageiros suficientes para aviões de maior porte. Mas dizemos que a estratégia não foi correta porque a fiabilidade dos aviões não é a que se pensava”.

Porque as aeronaves “precisam de manutenção constante, penalizam ao nível de motor”, concretizou.

(Lusa)

Manuel Beja? “Foi como se não tivesse passado por lá”

A comunicação interna na TAP foi também alvo de análise na comissão. Sobre Manuel Beja, presidente do conselho de administração, foi categórico: “A forma como saiu da TAP foi mais ou menos a forma como entrou. Foi como se não tivesse passado por lá”. Houve apenas uma reunião com o sindicato, com a indicação de que “qualquer contacto teria de ser com a comissão executiva”

Já sobre João Duarte, o administrador não executivo eleito pelos trabalhadores, também houve críticas: “Nem acrescenta nem adianta nada. Naquilo que foi a nossa participação nesse processo, achávamos que um trabalhador estava sempre diminuído nessa função. Achávamos que ele não tinha as qualificações e o ‘know how’ suficiente. E que ia ser uma presa fácil”.

Houve esta quarta-feira um encontro entre o novo CEO, Luís Rodrigues, e os trabalhadores da TAP. Segundo Paulo Duarte, Luís Rodrigues confessou aos trabalhadores não ter conhecimento dos detalhes do plano de reestruturação. O PSD quis perceber quando a iniciativa foi marcada. Paulo Duarte explicou que foi antes de saber que viria à comissão de inquérito.

Sobre a indemnização a Alexandra Reis poder ser a “ponta do iceberg”, o sindicalista não quis alimentar o “diz que disse”. “Este não é o sítio adequado”, justificou.

Deputado do Chega deixa trabalhados após ofensa com “lavandaria”

Paulo Duarte admitiu o “embaraço” sentido pelos trabalhadores com as revelações da comissão de inquérito à gestão da TAP. O deputado do Chega aproveitou depois para recordar um comunicado do SITAVA onde esse escrutínio é definido como uma “lavandaria de roupa suja”. Para Filipe Melo, trata-se de uma “ofensa”. Daí que tenha decidido abandonar os trabalhos.

Paulo Duarte disse que “não houve intenção de desrespeitar deputados” e pede desculpa.

(Lusa)

Portugal é “paraíso fiscal” para a Ryanair

A audição começou com Mariana Mortágua a lembrar que a TAP pagou 73 milhões em impostos enquanto a Ryanair pagou 916 mil euros. Paulo Duarte haveria de considerar que a transportadora irlandesa é “marginal”. “E vai continuar a ser enquanto o Estado não travar”, porque “isto é um paraíso fiscal para eles e vai continuar”.

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