Estudo avalia impacto da pandemia nas empresas e nos trabalhadores

31 out 2020, 16:04
Empresas

Estudo demonstra que as empresas consideram que estão preparadas para a pandemia, mas que há preocupações a ter em conta. A utilização das tecnologias, como o teletrabalho, trouxe uma grande alteração à forma como se trabalha.

Esta é uma das 16 investigações apoiadas pelo programa ‘GENDER RESEARCH 4 COVID-19’, da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), que contou com um financiamento de 19.986,67 euros e teve início oficial no dia 1 de agosto.

 

Tudo começou no início da pandemia, quando um grupo de investigadoras de várias universidades do país resolveu constituir equipa para estudar o impacto que a pandemia estava a ter nas empresas e nos trabalhadores, através da lente da psicologia das organizações.

 

Começámos o estudo mesmo antes de ser aprovado porque tínhamos mesmo a intenção de fazer esta investigação. O financiamento surgiu como um bónus e como uma validação do interesse do nosso projeto para a sociedade em geral. Sem dúvida que foi um incentivo para nós” declara Ana Veloso, uma das coordenadoras do projeto.

 

“Trabalho e género em tempos de COVID-19: a perspetiva de trabalhadores e organizações” é um projeto de concretização rápida, com um prazo máximo de quatro meses, onde se pretende fazer uma análise, através de duas perspetivas diferentes: a da organização e a dos trabalhadores. No que diz respeito aos trabalhadores, vão ser investigadas as consequências da crise pandémica na posição das mulheres e dos homens no mercado de trabalho, nos rendimentos e nas condições objetivas de vida e de trabalho. Quanto às empresas, o objetivo é perceber o modo como estas reagem à crise, as exigências impostas à conciliação da vida familiar e pessoal e a gestão das necessidades específicas dos trabalhadores, homens e mulheres.

 

Começámos pelas organizações, uma vez que tínhamos o apoio da Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas (APG) que nos facilitou imenso a divulgação do inquérito e essa parte do estudo já está concluída”

 

Os primeiros resultados divulgados dão conta de que foram as grandes e as pequenas empresas que mais alteraram as suas práticas face à pandemia, contrariamente às médias empresas que não se evidenciaram como diferentes. Este facto surpreendeu as investigadoras e deixa a vontade de investigar o porquê desta diferença.

 

Outra das revelações deste estudo foi as empresas considerarem que estão preparadas para a pandemia. As especialistas pensam que este facto pode estar relacionado com a crise vivida, recentemente, em Portugal e prometem explorar esta questão.

 

Nós pensamos que o facto de termos tido uma crise recentemente possa ter sido uma lição para as organizações e que as ajudou a adaptar-se para esta mudança” complementa Ana Veloso.

 

A utilização das tecnologias, como o teletrabalho, é uma das grandes alterações à forma como é elaborado o trabalho, consequência da pandemia. As investigadoras acreditam que seja esta a grande mudança que vai ocorrer no futuro.

 

 

Não é novidade, já ouvimos falar do trabalho remoto e do escritório tecnológico há muitos anos, mas penso que as empresas conseguiram ultrapassar um obstáculo, que foi utilizar as ferramentas e conseguir aplicar o que já se sabia ser possível. Esta pandemia apoiou positivamente esta mudança

 

A questão que se impõe é o que traz esta mudança às organizações? Segundo a especialista, esta mudança acarreta muitas implicações às práticas de gestão de recursos humanos. Tudo o que possa ser feito online vai realizar-se a partir desse meio, como o recrutamento de seleção e as formações. Atualmente, as empresas estão a apostar nas formações online e em dotar os seus trabalhadores com competências digitais.

 

A pandemia está a ter um grande impacto no emprego das pessoas e, apesar de se falar muito em teletrabalho, este não pode ser utilizado em qualquer função. Nos casos em que é possível usar o trabalho remoto, a experiência foi positiva, mas há alguns problemas a ter em conta. As pessoas não estavam preparadas para trabalhar em casa, não tinham espaço adequado e as escolas fechadas obrigam à conciliação entre crianças, escola e trabalho. As investigadoras pensam que estes fatores tiveram um grande impacto na sociedade, só ainda não sabem qual.

 

 

Recordo que as pessoas trabalharam muitas horas. Estar em casa implica mais horas de trabalho por uma questão de adaptação e isso vai-se refletir nas pessoas. Este será um aspeto que terá de ser tratado.”

 

Além disso, as organizações acham que a comunicação é um dos aspetos mais importantes a considerar em situações futuras de crise, como esta, ou na transição para uma organização mais virtual.

 

 

A comunicação é muito importante para manter as pessoas coesas e seguras, para que se sintam parte do grupo e para que possam partilhar o conhecimento que têm. Nesse aspeto, o foco na comunicação foi algo que se evidenciou

 

Os inquiridos foram, essencialmente, diretores de recursos humanos com formação especializada na área. Segundo os mesmos, as perspetivas são de que vai haver mudanças na organização do trabalho, ou seja, as tarefas podem vir a sofrer alterações e os funcionários vão trabalhar mais por objetivos. Espera-se menos preocupação com o tempo de trabalho e mais com o que é feito. Posto isto, as avaliações de desempenho vão basear-se mais no trabalho realizado.

 

Relativamente à entrada e saída de trabalhadores dentro das organizações, antecipa-se que não vá haver tantos movimentos. As pessoas que já estão empregadas não vão querer sair das empresas e não vai haver novas contratações, segundo indica este estudo.

 

O balanço trabalho/família é uma das preocupações das empresas, sendo que estas procuram saber o que o trabalho em casa possa trazer às pessoas e às respetivas famílias. A saúde física e mental dos trabalhadores é um dos aspetos que mais inquietam os gestores de recursos humanos.

 

Atualmente, a equipa de investigação está na fase de inquérito aos trabalhadores a fim de refletir as questões das organizações, mas agora de outro ponto de vista.

 

Estamos interessados em saber como se estão a adaptar, como está a decorrer o trabalho, quais as preocupações, quais as perspetivas de futuro e o que acham do teletrabalho” esclarece a coordenadora.

 

Neste projeto, as diferenças de género vão ser objeto de estudo, principalmente, na conciliação trabalho/família, para saber como foi para eles e para elas trabalhar em casa, que mudanças se sucederam e quais as perspetivas de futuro. O objetivo é verificar o impacto de género no trabalho, fruto do novo coronavírus.

 

O estudo vai também avaliar a perceção de insegurança no trabalho. Além do medo de perder o emprego, mesmo aqueles que têm o seu posto de trabalho assegurado podem ter as suas dúvidas e receios.

 

 

Queremos perceber se as pessoas, estando remotas, vão continuar a contribuir para a organização ou se vão estar apenas focadas na própria carreira e se vão distanciar do coletivo

 

Muitas empresas já se encontram a chamar novamente os funcionários para o local de trabalho e, em algumas situações, foram os próprios a pedir para regressar. Para o grupo era importante começar o estudo assim que possível, para conseguir caracterizar a situação na altura mais evidente da pandemia.

 

Este projeto foi o primeiro a apresentar resultados, através de um webinar realizado a pedido da APG. No total, estiveram presentes 136 participantes com uma voz ativa.

 

Para além dos inquéritos, a equipa de investigação tenciona fazer entrevistas e análises quantitativas de dados. Para já, além de dar continuidade ao estudo, as especialistas vão focar-se na divulgação através da publicação de artigos científicos e profissionais. No fim, será publicado um manual de boas práticas.

 

 

Para nós é muito importante que este projeto tenha um resultado prático, ou seja, queremos que daqui possam surgir orientações e sugestões de alteração da forma de trabalhar, tal como aspetos a ter em conta que facilitem as mudanças, que estão a decorrer, e que possam diminuir algumas diferenças de género

 

Covid-19

Mais Covid-19

Patrocinados