Nesta "casa" há até sapatos para as vítimas de violência que chegam descalças

25 nov, 14:37

A PSP registou mais de 11.400 denúncias de violência doméstica nos primeiros 10 meses de 2021, quase metade em Lisboa. Uma das estratégias para combater o fenómeno, passa pela criação de espaços seguros e privados para receber vítimas de maus-tratos. O atendimento é feito por polícias com formação específica. Há chá e brinquedos para os filhos das vítimas.

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Quem passa pela esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP) de Oeiras não se apercebe que lá dentro há uma espécie de habitação. Chama-se Casa da Maria, tem floreiras à janela e a porta sempre aberta para vítimas de violência doméstica. 

Maria (nome fictício), 57 anos, passou em frente à divisão policial várias vezes, antes de decidir entrar. “’Tu vais é presa’, dizia ele para me intimidar”, conta.

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É professora do ensino secundário. Sofreu de violência física e psicológica durante dois anos. O agressor é o marido. “Eu ganhei coragem. Naquele dia em que ele me abriu o lábio, tirei uma fotografia e vim à PSP, que me recebeu de braços abertos”, recorda. 

Quando entrou na PSP encontrou a Casa da Maria, um local especializado no combate à violência doméstica. 

“É um espaço harmonioso, com móveis semelhantes aos de uma habitação e em nada se parece com uma esquadra de polícia. Faz com que as pessoas se sintam mais à vontade a formalizar as queixas”, explica o comissário Alberto Lino, coordenador da Violência Doméstica da Divisão Policial de Oeiras.

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A Casa da Maria é um dos seis espaços do Comando de Lisboa da PSP, capacitados para o atendimento de vítimas de violência doméstica. Um dos últimos a abrir portas, em setembro de 2021, chama-se Okazo e fica em Alfornelos, Amadora. 

O objetivo é criar um ambiente confortável, bem diferente das esquadras de polícia. “Nas esquadras é muito barulho, rádio a tocar, o telefone, elementos a sair à pressa, a entrar com um detido. Aqui há um silêncio morno”, explica o chefe da PSP Marco Peres Ferreira.

O coordenador do espaço Okazo investiga crimes de violência doméstica desde 2013 na divisão policial da Amadora e defende que o combate à violência contra mulheres deve passar este tipo de resposta que é “possível, real e consciente”.

Nos primeiros meses do ano, a PSP registou mais de 11.400 denúncias de violência doméstica - cerca de quatro mil no Comando Metropolitano de Lisboa. Em comunicado, no Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, a PSP recorda que desde 2000 já reportou 215.102 ocorrências deste género.

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Brinquedos, paracetamol e sapatos

Há um pouco de tudo nesta casa para receber quem chega, muitas vezes vulnerável. A Comissário Maria Dantier vai abrindo os armários da cozinha. Há papa e leite em pó para as crianças e comida pronta para os adultos. “Elas dizem sempre que não querem comer nada, mas depois sentem o cheiro da comida e aceitam. Muitas vezes, a última refeição que fizeram foi no dia anterior, antes de fugirem de casa.”

Chegam com fome, desorientadas, por vezes descalças ou sem roupa. “Têm de fugir e saem descalças ou trajes menores. Já me apareceram enroladas em toalhas”, conta a responsável pelos projetos especiais do Comando de Lisboa.

Além de roupa, calçado e comida, há berços, brinquedos e jogos para entreter os filhos que acompanham as vítimas. “Já tivemos muitas crianças a dormir enquanto a mãe tratava da queixa”, relata o chefe Peres Ferreira. “E temos sempre paracetamol. Elas chegam sempre com muitas dores de cabeça”, confessa Dantier. 

O espaço Okazo abriu em setembro e, até agora, atendeu cerca de 100 vítimas. São duas a três pessoas por dia. A equipa defende o alargamento destes espaços “por todo o país” para baixar a média de 27 mil casos anuais de violência doméstica, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna 2020. Está prevista a abertura de mais dois espaços no distrito de Lisboa, em Sintra e Loures.

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Em 2021, a Casa da Maria em Oeiras atendeu cerca de mil pessoas até meados de novembro. Abriu portas em 2017 e, até hoje, não registou nenhuma morte relacionada com violência doméstica.

O comissário Alberto Lino olha para estes dados com cautela, mas admite que podem ser fruto do trabalho que têm desenvolvido na esquadra de Oeiras, de forma a combater o medo que as vítimas sentem em fazer queixa.  

“O medo é o segundo grande agressor que nós temos. Se não combatermos este medo, se não agirmos, estamos perdidas”, afirma Maria. A professora admite que ainda sente algum receio, mas garante sentir-se segura com o apoio da PSP.  

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Serviço gratuito e confidencial de informação às vítimas de violência doméstica - 800 202 148; SMS para 3060. 

Casa da Maria - Divisão Policial da PSP de Oeiras - Rua Espargal, nr. 18 - 214 540 230 / 918 435 286.

Okazo - Rua Capitães de Abril, nº 4 -A, 2650-349, Alfornelos – Amadora - 930 466 716; espacookazo.amadora.lisboa.amadora@psp.pt. 

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