Salgueiros-Sporting, 1-5 (crónica)

6 nov 2001, 00:00

De goleada em goleada, leão enche o papo Dezassete golos em três jogos é obra! O Sporting sobe de forma, vence e convence. Acordou um pouco tarde, mas foi só Jardel aparecer...

Laszlo Bölöni pode ser um excelente treinador de futebol, mas está a dar provas cabais de perceber muito pouco sobre futurologia. Há duas semanas, quando o Sporting preparava a deslocação a Paços de Ferreira, o técnico romeno deu a entender que os próximos tempos iriam trazer dificuldades. Mas os resultados não lhe estão a dar razão. À medida que os dias passam, os leões somam vitórias e goleadas volumosas: seis golos aos pacenses, meia dúzia aos suecos do Halmstads e a desejada chapa cinco ao velho Salgueiros. Dezassete golos em três desafios é obra! 

A vitória do clube de Alvalade não sofre contestação, porque a melhor equipa em campo esteve sempre vestida de verde. Sempre. Mesmo quando os vermelhos de Paranhos tentavam equilibrar os pratos da balança e esboçavam o perigo em contra-ataque. O leão mostrou a sua raça, especialmente na segunda parte, quando Pedro Barbosa abandonou o terreno de jogo, depois dos adeptos terem pedido a sua substituição. A metamorfose aconteceu aí, nos últimos 20 minutos, com o jovem Hugo Viana a ser lançado à relva e com Jardel a renascer das cinzas, depois de uma primeira parte muito apagada. 

No entanto, o Sporting demorou tempo a perceber que tinha trunfos muito superiores ao adversário. E isso podia ter consequências negativas, se o ataque do Salgueiros fosse acutilante e o meio-campo o exemplo perfeito de como tudo deve funcionar: um poço de sabedoria no plano ofensivo e o rigor táctico em termos defensivos. Aqui, entra a deixa para Rui Ferreira, em noite de grande desinspiração. Se os sectores da formação de Vítor Manuel tivessem sido mais rigorosos, a história poderia ter sido outra. 

Vinte minutos de grande classe 

Comecemos pelo fim. O Sporting resolve tudo nos últimos 20 minutos, quando Jardel tem a honra de aparecer em jogo, porque João Pinto já estava a acusar o peso do protagonismo, de ter de fazer tudo sozinho. E resolve o desafio, porque vence o adversário graças ao cansaço, quando os pilares da equipa de Paranhos ¿ sobretudo as marcações ¿ deixam de funcionar no meio-campo. A reviravolta acontece e o empate passa a ser uma palavra esquecida, à custa da vitória, cada vez mais certa, cada vez mais dilatada. 

Para que assim fosse, valeu o facto do ponta-de-lança brasileiro conseguir fugir da imperiosa marcação individual de Nunes, uma melga capaz de sugar o melhor dos goleadores. Sugo-o muito tempo, especialmente porque as bolas não lhe chegavam e o Super-Mário tinha dificuldade em ganhar espaço. Porém, tudo acabou por ser diferente, não só pelo simples facto de Hugo Viana ter incutido maior dinamismo, ideia nem sempre protagonizada por Pedro Barbosa, mas também pela noção de que o Salgueiros perdeu o fôlego, a razão e a inteligência. Por isso, em vinte minutos, o marcador registou quatro golos. 

Começo a dois tempos 

Para trás destes 20 minutos, o Sporting demorou algum tempo a perceber que era muito mais forte do que o seu adversário. Entrou bem no jogo, aos quatro minutos já vencia com um cabeceamento soberbo de João Pinto, cortando logo os espaços ao opositor, muitas vezes acanhado com a bola nos pés, sem soluções para dar fluência ao seu futebol. Mas tudo isto durou pouco, cerca de um quarto de hora. Na primeira ocasião de perigo, o Salgueiros chegou ao empate, porque sabia que o contra-ataque era a melhor arma. E a defesa leonina falhou perante a destreza de João Pedro. 

A partir dessa altura, os três centrais de Paranhos eram suficientes para anular as investidas de Jardel e os leões ficaram dependentes de João Pinto. No entanto, o ex-menino de ouro dos benfiquistas é um futebolista incapaz de actuar pelas faixas e o ataque verde só funcionava pelo meio. E isso é bom para quem defende. Eram os laterais - César Prates, na direita e Rui Jorge na esquerda - , que tentavam vestir a pele de flaqueadores, mas nem sempre conseguiam interpretar na íntegra a ideia de Bölöni que jogou como tanto gosta, com três defesas centrais. Por isso, pelo simples facto do meio do terreno ser a via preferida dos leões, o Sporting demorou a ser a sensação que todos esperavam. Um aspecto a corrigir no futuro. 

Do árbitro, pouco ou nada há a dizer. Esteve bem e as duas equipas não têm razões de queixa.