Duas de letra entre Jardel e João Pinto Jardel resolveu aquilo que João Pinto preparara e o colectivo complicara. Foi um diálogo entre avançados que decidiu o destino do jogo.
Estava complicado fugir a Nunes e inventar um segundo movimento para enganar Ricardo Fernandes, que surgia para a dobra, caso o companheiro de sector falhasse. A primeira parte tinha sido para esquecer e o registo pessoal assinalava um par de passes inteligentes e pouco mais. Faltava o seu poder de decidir, que o Sporting parecia exigir, face a uma incapacidade colectiva que ameaçava comparecer em Vidal Pinheiro. Pois, bem. O brasileiro fez o que lhe pediam. Desempatou a passe de César Prates, marcou de grande penalidade e assistiu Niculae com um toque delicioso. «De letra», lembram-se?
A defesa do Salgueiros tentava como podia impedir de Jardel, Niculae, Beto e Babb tirassem os pés do chão e centrava atenções em quem parecia candidatar-se a reinar no espaço áreo. João Pinto, confiavam, jamais pularia tão alto e seria facilmente anulado por uma saída arrojada de Rui Correia. Não podiam estar mais errados. O cruzamento de Rui Jorge ia precisamente para a menor estatura que se movimentava na área e exigia um mero desvio, um simples toque com a testa que deixaria o guarda-redes a lamentar-se por ter deixado a baliza. O marcador estava inaugurado e João Pinto preparava-se para uns minutos de verdadeiro fulgor, nos quais acumulou fintas impossíveis, remates e passes que procuravam aproximar os companheiros do perigo. Com os dois pontas-de-lança sempre muito marcados, acabaram por ser suas as tentativas mais consistentes do ataque do Sporting.
A lesão de Sá Pinto concedeu-lhe novamente a titularidade e a braçadeira de capitão. Bölöni pediu-lhe que fizesse o que melhor sabe, que criasse desequilíbrios com o seu estilo desconcertante e a sua tendência para o enfeite puro. Muito do que o Sporting viesse a produzir no ataque, seria concebido por si e por João Pinto. O médio tentou, mas não conseguiu, mostrando-se mais adormecido que nunca, a ponto de deixar os próprios adeptos leoninos a pedir a sua substituição quando o treinador saiu para o descanso. O romeno substitui-o apenas na segunda parte, quando já era um exagero tê-lo mais tempo em campo a aguardar pela inspiração que devia ter deixado no hotel.
A partida parecia equilibrada e o Salgueiros parecia cada vez mais emancipado. O empate era uma tendência que podia ser contrariada pelas duas equipas e o Sporting assumia mesmo algumas precauções, deixando Jardel e Niculae presos numa marcação irrepreensível. Se um lapso tornaria o jogo mais aberto, o disparate de Rui Ferreira terminou com o espectáculo. Era uma pancada forte de mais para a alma, que deixava o Sporting com a moral toda e terminava com as dúvidas. Depois, foi o que se viu. Rui Ferreira, incompreensivelmente, jogou os 90 minutos, depois de ter visto o amarelo logo a abrir.
Estava isolado no ataque e via Toy, também avançado, preocupar-se mais em defender que em atacar. O Sporting já estava a vencer e o Salgueiros mantinha-se na retaguarda, atordoado, tentando rever a estratégia e recuperar a confiança. O capitão, contudo, não podia esperar. E correu. E fintou. E empatou. Um grande golo que deixou o estádio em delírio. Fica uma boa recordação numa noite para esquecer.