Hoje em dia, os jovens enfrentam pressões profissionais e financeiras, elevadas taxas de solidão e depressão e, agora, o receio de que um relacionamento lhes possa desestabilizar a vida
Quando Jayden começou a sentir algo por um dos seus amigos, pensou logo no pior cenário possível.
“Se isto não der certo, tu sabes como é um término e sabes como é sentires-te ridicularizada, e eu não quero mesmo passar por isso outra vez”, explica Jayden, uma jovem de 25 anos que vive em St. Petersburg, na Flórida, e que revelou apenas o seu primeiro nome para proteger a sua privacidade.
Mas depois de ele continuar a cortejá-la, Jayden percebeu o quanto se sentia realmente segura naquilo que agora é um relacionamento. Era apenas o medo do que poderia correr mal que a estava a impedir de avançar.
“Há milhões de anos que as pessoas enfrentam exatamente esse medo”, afirma Paul Eastwick, professor de psicologia na Universidade da Califórnia, em Davis, e diretor do laboratório de investigação sobre atração e relações. E se eu for rejeitado? E se eu revelar algo intenso e pessoal e isso me for usado contra mim?”
Hoje em dia, os jovens enfrentam pressões profissionais e financeiras, elevadas taxas de solidão e depressão e, agora, o receio de que um relacionamento lhes possa desestabilizar a vida.
Nos Estados Unidos, apenas cerca de um em cada trê homens jovens e uma em cada cinco mulheres jovens com idades compreendidas entre os 22 e os 35 anos afirmaram estar confiantes na sua capacidade de abordar alguém por quem se sentem romanticamente atraídos, de acordo com um estudo do Instituto Wheatley da Universidade Brigham Young, em Provo, Utah, e do Instituto para os Estudos da Família, uma organização sem fins lucrativos.
A popularidade das redes sociais - onde toda a gente partilha os seus assuntos pessoais online - transformou a rejeição num espetáculo público, que vai além do teu grupo de amigos, da escola, da comunidade ou do bairro.
No entanto, os relacionamentos e a intimidade exigem que se corram alguns riscos. Isso é assustador e sempre foi. Mas quanto mais a Geração Z se isola para se “proteger” de fatores externos, mais se fecha à possibilidade de estabelecer ligações - que são o antídoto para a epidemia de solidão.
“Aprendemos imenso sobre nós próprios quando temos relações amorosas, e penso que aprender a ter uma boa relação é uma tarefa realmente importante”, afirma Richard Weissbourd, psicólogo infantil e familiar norte-americano e professor catedrático na Escola de Pós-Graduação em Educação de Harvard. “Seja romântico ou não, o simples facto de aprender a ter relações muito íntimas é uma das melhores coisas de ser humano.”
Uma geração avessa ao risco
Os membros da Geração Z, todos nativos digitais, sabem que qualquer uma das suas ações pode acabar nas redes sociais - quer tenham sido filmados sem dar por isso, quer alguém tenha decidido divulgar o seu drama no TikTok.
Não admira que a geração mais jovem, desde os 29 anos até aos adolescentes, tenha medo de fazer qualquer coisa que possa ser embaraçosa - é simplesmente demasiado arriscado.
Gabriel Rubin, professor de estudos sobre justiça na Universidade Estadual de Montclair, em Nova Jérsia, diz ter ficado chocado com a falta de privacidade que os estudantes referiram ter nas redes sociais.
“ Algumas das coisas que dizem fazem-me pensar : “Como é que não se pode estar sempre a pensar demais em tudo?”“, refere Rubin. “Com todos esses julgamentos, todas essas comparações, essa enxurrada de informação a atingir-te... e tu tens apenas 20 anos.”
A Geração Z percebe mais perigos na vida do que as gerações anteriores, concluiu Rubin num estudo para o qual realizou 108 entrevistas entre novembro de 2022 e abril deste ano. A sua investigação, ainda por publicar, foi apresentada em dezembro na Reunião Anual de 2025 da Sociedade de Análise de Risco (SRA), em Washington, DC.
O risco não é uma questão de preto ou branco; as coisas não são simplesmente seguras ou perigosas. Avaliar os riscos faz parte da vida, mas as gerações mais jovens têm mais dificuldade em compreender esse conceito.
A aversão ao risco é uma tendência comportamental que leva a evitar, tanto quanto possível, a assunção de riscos, preferindo um resultado garantido, mesmo que essa decisão resulte num ganho menor do que a opção mais arriscada.
No que diz respeito aos encontros amorosos, Rubin afirmou que os jovens da Geração Z estão a evitar tudo o que seja arriscado e que possa levar ao amor.
“Eles disseram: “Não queres dar com o nariz numa rapariga, nem queres ter um dia mau, porque as pessoas podem criticar-te nas redes sociais ou gozar contigo”“, explica Rubin, recordando a conversa. “Porquê envolvermo-nos?”
Damian Bertrand, um repórter de 21 anos da Carolina do Sul, disse que não só tem receio de passar vergonha, como também de, sem querer, deixar alguém desconfortável caso se aproxime dessa pessoa.
“A principal razão pela qual as pessoas estão a evitar riscos é para não incomodarem os outros”, afirma Bertrand. “A última coisa que não quero fazer no mundo dos encontros é estragar o dia a alguém só por lhe ter pedido para sair comigo.”
A Jayden conta que já teve alguns rapazes interessados nela que se aproximaram, não perceberam que ela não estava interessada e a deixaram desconfortável. Mas, na maioria das vezes, se alguém a abordar com confiança e respeito, ela não vê nisso qualquer problema - na verdade, ela acha que mais homens deviam abordar as mulheres em público. Porque é que não o fazem?
Talvez seja porque a “geração ansiosa”, como lhes chama o psicólogo social Jonathan Haidt, titular da cátedra Thomas Cooley de Liderança Ética na NYU Stern School of Business, tem medo de cometer erros.
“Torna-se difícil dizer alguma coisa, ser-se a si próprio, cometer erros, namorar, falar com as pessoas no escritório”, aponta Rubin.“Sabes demasiado sobre a forma como as pessoas te veem e como te vês a ti próprio.”
Não se trata apenas do acesso ilimitado às informações de outras pessoas, mas também da quantidade avassaladora de informações negativas, alarmistas e assustadoras nas redes sociais.
Weissbourd, o psicólogo de Harvard, descobriu que o sentimento de distopia desta geração pode levá-la a desistir das relações.
Nas suas conversas com membros da Geração Z, Weissbourd constatou que muitos achavam que um relacionamento os desestabilizaria ou os desviaria do seu caminho, principalmente porque não se sentem preparados para isso.
No entanto, por vezes, arriscar é a decisão certa, observa Weissbourd .
A abordagem da Geração Z em relação aos comportamentos de risco apresenta alguns aspetos positivos, tais como taxas mais baixas de gravidez na adolescência e uma preocupação com a proteção do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Mas quando se chega a um ponto em que os jovens ficam demasiado absorvidos no seu próprio estado emocional, isso pode ter consequências negativas, segundo Weissbourd.
“A tendência para se fechar em si mesmo pode diminuir a sua disponibilidade para novas relações e relações positivas”, afirma Weissbourd.
Escondida atrás de um ecrã
Quando a Jayden se mudou para São Petersburgo depois de terminar a faculdade, disse que estava presa num ciclo interminável de encontros desastrosos, todos marcados através de aplicações.
As aplicações de encontros permitiram que os homens a abordassem sem correrem qualquer risco. Dependendo da aplicação, só se dá um “match” quando ambas as partes demonstram interesse, ou o utilizador pode decidir se está interessado em alguém que já demonstrou interesse, o que alivia a tensão de uma rejeição direta.
A Jayden achava que os rapazes eram mais ousados quando a abordavam através das aplicações, mas não demonstravam a mesma confiança em público. Ao vivo, esses tipos não correspondiam à imagem que davam online, critica Jayden.
Com as aplicações de encontros , o ato público de abordar alguém é eliminado da equação.
Mas, segundo Eastwick, essa ilusão de facilidade traz consigo uma falta de interação, que é uma parte essencial da construção de relações. Através da interação, é possível reduzir a tendência de julgar as pessoas principalmente pela sua aparência.
Em vez disso, começa-se a encontrar pessoas que nos atraem por motivos que vão além da mera atração física - incluindo peculiaridades e hábitos, afirma Eastwick.
“Temos de interagir com as pessoas em várias ocasiões, com a possibilidade de desistir se não me impressionarem nos primeiros minutos”, aconselha Eastwick.
Anseio por conexão
Até a palavra “relação” pode ter um significado muito mais sério para a Geração Z do que para outras pessoas, acredita Harry Reis, professor de psicologia na Universidade de Rochester, em Nova Iorque.
“As pessoas vão, basicamente, fazer o que antes se chamava de namoro ou encontro, mas sem lhe dar esse nome”, diz Reis. Uma “situação de namoro” - um termo muito utilizado quando se fala dos namoros da Geração Z e ao qual Reis se refere - tem todas as características de uma relação, mas carece daquele selo de compromisso que causa tanta ansiedade a algumas pessoas.
Tanto os especialistas como a Geração Z afirmam que a geração mais jovem continua a ansiar por conexão. Facilitar e promover as relações entre as pessoas tem valor.
“A maioria das pessoas anseia por intimidade, pela intimidade sexual, pelo calor humano e pelo sentimento de pertença que se sente quando se convive com outras pessoas”, lembra Reis. “Socializamos porque isso faz parte da natureza da nossa espécie.” “O desejo de conviver, não creio que seja mais fraco do que alguma vez foi.”
Os pais e os avós, e até mesmo as escolas, “quase nada” fazem para preparar a geração mais jovem para o amor, aponta Weissbourd.
A educação sexual nos Estados Unidos centra-se na abstinência e no que Weissbourd designou por “prevenção de desastres”, em vez de se centrar no desenvolvimento das relações. E, devido à falta de comunidades fortes, é mais difícil para os jovens estabelecerem contacto uns com os outros - fora das aplicações.
O desejo de estabelecer ligações não vai desaparecer. Os jovens estão a ter cada vez mais dificuldade em tomar essas decisões, seja por medo, por falta de conhecimento ou por terem outras prioridades.
Weissbourd incentiva os jovens a estarem abertos à ideia de se mostrarem vulneráveis e a continuarem a tentar estabelecer laços significativos.
“A forma como reformamos os diferentes tipos de comunidades onde os jovens têm oportunidades naturais de se encontrarem é uma questão verdadeiramente urgente e vital”, termina Weissbourd.
