Polícia brasileira asfixia homem até à morte em "câmara de gás" dentro de carro patrulha

27 mai, 09:51

Genivaldo Santos, que sofria de esquizofrenia, foi fechado no porta-bagagens de um carro patrulha durante uma operação stop e obrigado a respirar gás lacrimogéneo lançado por uma granada para o compartimento. O caso está a gerar uma onda de revolta no Brasil. Bolsonaro já reagiu

Um homem de 38 anos foi morto na quarta-feira pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) na cidade de Umbaúba, em Sergipe, estado no nordeste do Brasil.

Segundo noticia a CNN Brasil, Genivaldo de Jesus Santos foi fechado no porta-bagagens do carro da polícia e obrigado a respirar gás lacrimogéneo, lançado por uma granada para o compartimento. Quando a bagageira foi aberta, a vítima já não reagia. A autópsia revelou que a causa da morte foi asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda.

Segundo um sobrinho do homem, que testemunhou o sucedido, o tio sofria de esquizofrenia e tomava medicação diária. "Eu estava próximo e vi tudo. Foi dada a ordem para parar, ele parou, colocou a mota no descanso e seguiu todas as ordens. Informei os agentes que o meu tio tinha um transtorno mental. Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele embalagens de medicamentos", começou por explicar Wallyson de Jesus.  

"O meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse", disse o sobrinho da vítima. De seguida, os agentes fecharam-no no porta-bagagens, exposto ao gás.

"Pegaram-no pelos braços e pelas pernas. Quiseram colocar algemas nos pé dele, mas não coube e pegaram uma fita lá dentro e amarraram-no. Começaram a pisá-lo e depois de tudo isso, pegaram no meu tio, colocaram na viatura e colocaram uma granada daquela de gás”, relata o sobrinho da vítima.

Vídeos partilhados nas redes sociais mostram a viatura da polícia a ser usada como uma "câmara de gás", com a vítima presa no porta-bagagens. O dois policias de capacete empurraram a porta contra as pernas do homem, enquanto nuvens de gás saíam do veículo. "Eles vão matar o homem", pode ouvir-se uma testemunha a gritar, enquanto as pernas de Genivaldo Santos ficam paralisadas.

Alertamos para a violência das imagens, que podem chocar os mais sensíveis

Polícia diz que só usou "técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo”

A Polícia Federal já reagiu ao caso e, através de um comunicado, informou que “instaurou um inquérito para apurar morte durante abordagem policial" e que estão a ser feitas diligências.

Segundo a nota da Polícia Rodoviária Federal, o “homem de 38 anos, resistiu ativamente a uma abordagem (…) Em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo.”

Ainda de acordo com o comunicado do órgão, citado pela CNN Brasil, “durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde posteriormente foi atendido e constatado o óbito.”

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, anunciou no Twitter que determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal e na PRF para apurar o caso. Os dois agentes foram entretanto afastados.

Também na quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro declarou que “execução ninguém admite”: "Eu vou inteirar-me com a PRF. O que eu vi há duas semanas, aqueles dois polícias executados por um marginal que estava, ele estava andando lá no Ceará. Eles foram negociar com ele, o homem tirou a arma dele e matou os dois, talvez isso, nesse caso que não tomei conhecimento ainda, tivesse na cabeça dele”, afirmou Bolsonaro.

Uma onda de revolta

As circunstâncias em que ocorreu esta morte geraram uma onda de choque e revolta no Brasil, onde a violência policial mortal é comum e afeta desproporcionalmente a população negra do país. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia matou 6.416 pessoas no Brasil em 2020. Quase 80% das vítimas eram negras.

Genivaldo Santos foi morto um dia depois de 26 pessoas terem morrido durante uma operação policial na favela Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, a segunda operação policial mais mortal já registada na cidade. A polícia raramente é responsabilizada nestes casos, mas houve pedidos generalizados para que os agentes no vídeo fossem investigados.

O funeral do homem ocorreu na manhã de quinta-feira. Os moradores de Umbaúba organizaram um protesto antes das cerimónias fúnebres, incendiando pneus na estrada onde Genivaldo foi morto e exigindo justiça.

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