"Marcelo não quis que o país visse" o caso, disse a jornalista numa audição no Parlamento. E sublinha: "Em nenhum outro caso o senhor Presidente da República mandatou uma assessora para falar com o hospital, nenhum". Sandra Felgueiras revela ainda uma chamada de Marcelo por WhatsApp para um jornalista da TVI e conta ainda o que aconteceu depois de uma entrevista à mãe das gémeas luso-brasileiras. Sandra Felgueiras revela ainda que foi ameaçada de morte e que lhe arrombaram a arrecadação
A jornalista Sandra Felgueiras afirmou esta terça-feira que houve um “tratamento desigual” no acesso das gémeas luso-brasileiras à consulta e ao tratamento milionário no Hospital Santa Maria em 2019, mas que “resta apurar quem são os responsáveis”, referindo-se a interferências políticas. Na comissão parlamentar de inquérito (CPI) a este caso, a jornalista da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) relatou dificuldades em aceder ao processo que constava na Casa Civil da Presidência, adiantando que Marcelo Rebelo de Sousa “não quis que o país visse isto”.
“Em nenhum outro caso o senhor Presidente da República mandatou uma assessora para falar com o hospital, nenhum”, disse a jornalista, revelando incongruências nas declarações de Marcelo Rebelo de Sousa aquando dos primeiros contactos, antes e depois da reportagem ter sido emitida, a 3 de novembro.
Quando questionada sobre o que mais a impactou neste caso que noticiou, a jornalista Sandra Felgueiras admitiu que, “factualmente, o que mais me impactou foram os silêncios, a tentativa de omissão, porque só esconde quem tem um problema para esconder”. Sandra Felgueiras disse mesmo que “se o senhor Presidente da República me tivesse respondido no dia 23 de outubro de 2023, às tantas não estávamos aqui” e que, por isso, não entendia a “resistência” da Presidência da República em falar deste caso. A jornalista da TVI e CNN Portugal afirmou mesmo que o Presidente da República “negou” dar aos jornalistas da TVI o dossiê da Casa da Presidência sobre o caso das gémeas, dizendo que estava “sob segredo de justiça”, pois já estava a ser investigado pelo Ministério Público. O acesso apenas foi possível com recursos administrativos.
E sublinhou: Marcelo Rebelo de Sousa “não quis que eu visse isto, não quis que o país visse isto, não quer que se fale neste assunto”.
O Presidente da República anunciou na semana passada que não muda de posição e vai aguardar até ao final da comissão parlamentar de Inquérito ao caso das gémeas para se pronunciar. A última audição é já esta sexta-feira, com Lacerda Sales, que, segundo Sandra Felgueiras, é “o protagonista principal” e quem poderá ajudar a apurar o que de facto aconteceu. O à data dos factos secretário de Estado da Saúde é um dos três arguidos neste caso, a par de Nuno Rebelo de Sousa (filho de Marcelo) e de Luís Pinheiro, na altura diretor clínico do Santa Maria.
O telefonema de Marcelo por WhatsApp
Sandra Felgueiras confidenciou aos deputados que enviou uma mensagem por WhatsApp a Marcelo Rebelo de Sousa a 23 de outubro, “uma semana antes” de a TVI emitir a reportagem no Jornal Nacional, mas sem revelar qual o tema, nunca mencionado as gémeas, o hospital ou o medicamento, mas dizendo que gostaria de falar pessoalmente com o Presidente da República. Nesse mesmo dia, o jornalista Nuno Guedes, que faz parte da equipa de investigação de Sandra Felgueiras, contactou Ana Paula Martins, à data presidente do conselho de administração do Santa Maria, no qual questionam se houve ou não algum contacto do Presidente da República sobre o caso concreto das gémeas, entre outras questões.
Ainda nesse mesmo dia, “às 20h57”, Marcelo Rebelo de Sousa telefonou a Sandra Felgueiras duas vezes, mas a jornalista não atendeu pois estava a apresentar o noticiário em direto. O Presidente da República telefonou, então, por WhatsApp, ao jornalista Nuno Guedes, dizendo-lhe “que sabia tudo sobre o que estávamos a investigar, disse que procedeu da forma habitual, que sabia o que era o caso das gémeas, que mandou para o Governo como fazem [com] todos os outros casos”.
Um dia antes da transmissão da reportagem, ou seja, a 2 de novembro de 2023, “às 19 horas o [jornalista] Nuno Guedes chega à redação e diz que o senhor Presidente diz que não se lembra de nenhum contacto do filho, da nora, nem de ninguém’”. No entanto, a jornalista diz que parece “ser irrefutável” o contacto de Nuno Rebelo de Sousa com o pai e que os dois falaram sobre o caso além do e-mail que foi tornado público.
“O doutor Levy Gomes foi uma peça fundamental nesta investigação. Se não fosse ele a ter verbalizado, demonstrado o e-mail que trocou com Marcelo Rebelo de Sousa na altura, eventualmente também não estaríamos aqui”, disse a jornalista, recordando que nesse mesmo e-mail há uma referência a Nuno Rebelo de Sousa, que “sempre declinou qualquer tipo de entrevista”.
Sandra Felgueiras, cujo programa que coordena, o Exclusivo, deu a conhecer o caso das bebés luso-brasileiras - reportagem inicial que pode ver ou rever aqui -, quis deixar claro durante a audição que “este trabalho [jornalístico] nunca foi sobre nenhuma mãe e nenhumas gémeas, foi sempre apenas sobre a existência ou não de interferência política no acesso ao Serviço Nacional de Saúde, fosse por quem fosse”, mas que falta ainda “apurar” a quem deve ser imputada tal responsabilidade.
A jornalista garantiu que este caso mostra uma “cadeia de intervenções que me parecem claramente ilegítimas”, porque a portaria 147 foi violada, tendo essa cadeia começado na “mulher de Nuno Rebelo de Sousa”, passado pelo filho de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo próprio Presidente da República, passando pelo Governo até chegar à médica Teresa Moreno, apenas com o objetivo de conseguir uma “consulta para obtenção de um medicamento, consulta para a obtenção de um gasto de quatro milhões de euros.
"Tu não acreditas no que acabou de acontecer"
Sandra Felgueiras revela que Daniela Martins, mãe das bebés, revelou em off - já com as câmaras desligadas - ao correspondente da CNN Portugal no Brasil, o jornalista Nelson Garrone, que Nuno Rebelo de Sousa estava a par da situação das gémeas e a trabalhar para que as bebés conseguissem o tratamento em Portugal.
Sandra Felgueiras explicou, logo no início da audição, que Daniela Martins estava no Brasil quando a jornalista Anabela Vaz Jacinto, também da TVI e da equipa de investigação de Sandra Felgueiras, a contactou e lhe pediu uma entrevista, a “que ela acede”. Essa entrevista realizou-se através de uma plataforma de videochamada e com a presença, junto de Daniela Martins, do jornalista Nelson Garrone, correspondente da CNN Portugal no Brasil. “E aconteceu aqui o inusitado”, relatou Sandra Felgueiras, contando que Daniela Martins desligou a chamada, depois de ter dito que o acesso das crianças ao SNS foi “normal”. “E passado uns cinco minutos eu recebo uma das chamadas mais inacreditáveis da minha vida, que é uma chamada do Nelson Garrone a dizer: ‘Tu não acreditas no que é que acaba de acontecer. Assim que ela desligou o Zoom, eu estava aqui e continuei a gravar e ela disse ‘acabei de mentir, já não aguento mais, acabei de mentir, isto não foi nada assim, nós conhecemos a mulher do filho do presidente [da República Portuguesa], entretanto Nuno Rebelo de Sousa já foi lá a casa, conhece as miúdas, disse que nos ia ajudar, ajudou-nos com tudo (...), que estivéssemos descansados, que iríamos conseguir e assim foi’”.
Segundo Sandra Felgueiras, Daniela Martins confidenciou ainda, já depois de a entrevista ter terminado, mas ainda na presença do correspondente da CNN Portugal no Brasil, que “só vinha para Portugal quando tivesse a garantia absoluta de Nuno Rebelo de Sousa” de que as bebés recebiam o Zolgensma.
Para Sandra Felgueiras, “o que Daniela Martins acabou por fazer foi confirmar tudo o que tínhamos tentado confirmar quatro meses antes”, pois “o trabalho [jornalístico] começa porque uma das pessoas com quem eu falo me diz [que] há um caso de umas gémeas luso-brasileiras - vou contar o que me era dito à época - que se naturalizaram para vir para Portugal fazer o tratamento, tanto que só vieram cá para tomar o Zolgensma e já foram para o Brasil”. Por mais do que uma vez nas audições até agora realizadas nesta CPI foram relatados rumores que se ouviam no hospital sobre estas gémeas e uma eventual interferência política, como a própria Ana Paula Martins, atual ministra da Saúde, o disse na semana passada.
Em resposta a um deputado do PS, Sandra Felgueiras voltou a destacar que “ninguém quis marcar uma consulta, quiseram obter um medicamento, [mas] para se obter um medicamento era preciso ir à consulta”. Sandra Felgueiras assegurou que Daniela Martins sabia que a doutora Teresa Moreno “era a única médica em Portugal” a “dar-lhe o medicamento que ela quis, o Zolgensma”, algo que “o doutor José Vieira não iria fazê-lo, como não fez, apesar de ela ter pedido”. “Tomou e foi-se embora. Entretanto levou cadeiras [de rodas] elétricas pagas pela Segurança Social, deixou duas cadeiras [de rodas] elétricas à espera, que estiveram vários meses paradas no Santa Maria, com crianças lusodescendentes, portuguesas a precisarem delas, que não teriam direito”.
“Daniela Martins já apresentou quatro [versões sobre o que aconteceu], eu só tenho uma, que é a verdade”, disse a jornalista, vincando, mais do que uma vez, que estas bebés “não vieram salvar-se a Portugal e este é o primeiro grande equívoco que eu gostava que ficasse definitivamente desfeito aqui”. “Estas crianças, se não tivessem tomado o Spinraza no Brasil, estariam mortas. As crianças trocaram de medicamento.”
“Recebi uma ameaça de morte de um número não identificado, que só dizia que eu ia morrer”
Sandra Felgueiras revelou que foi alvo de ameaças desde que o caso foi tornado público. Algumas dessas ameaças “com um sem-fim de processos” vieram por parte de Daniela Martins, mas outras, anónimas, foram mesmo de morte.
Questionada sobre a origem das ameaças de que foi alvo, Sandra Felgueiras disse não saber a origem, mas que “a partir do momento em que esta investigação surgiu, poucos dias mais tarde eu recebi uma ameaça de morte de um número não identificado, que só dizia que eu ia morrer”.
A jornalista relatou ainda que, “dias mais tarde”, a sua arrecadação, “incluindo a de outros vizinhos, foi complementante vandalizada, sendo que foi usado um pé de cabra (...) - havia objetos de valor na casa dos meus vizinhos, nada foi roubado, a única coisa que foi retirada da arrecadação foi o colchão da minha filha e foi colocado fora”. “Perante isto e perante o timing em que isto acontece, a associação de ideias que nós fazemos é [que] ‘pode acontecer aqui qualquer coisa’”, diz, explicando o porquê da presença na CPI de Pedro Duro, advogado.
Novamente dizendo que não tem provas para associar as ameaças ao caso das gémeas, Sandra Felgueiras acusou ainda Wilson Bicalho, advogado de Daniela Martins, de uma “hostilidade tremenda” e revelou: “Tenho apenas um telefonema, que considero muito desconfortável, muito desagradável, que é quando ligo, nessa vez que o senhor Wilson Bicalho me recebe com três, quatro pedras nas mãos, a determinada altura eu digo-lhe ‘senhor doutor, eu não estou a perceber esta animosidade e ainda por cima ainda anteontem recebi uma ameaça de morte’, e do outro lado ouço uma gargalhada imensa e uma resposta que é ‘ainda bem’. Confesso que fiquei assim [como se tivesse levado um] murro no estômago”.
