"É mais fácil culpar o secretário de Estado que o Presidente da República - que é mais poderoso, pode fazer-nos pior": médico "denunciante" defende Lacerda e exige desculpas de Marcelo

17 dez 2024, 19:41
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CASO DAS GÉMEAS|| Levy Gomes, ex-diretor da neuropediatria do Hospital de Santa Maria, e Joana Coelho, neuropediatra na mesma unidade, foram ouvidos esta terça-feira na comissão parlamentar de inquérito ao caso das gémeas. O médico - que em vez de "denunciante" prefere ser tratado como pessoa que "diz e confirma coisas" - defende Lacerda Sales (Levy Gomes considera que é mais fácil culpar o ex-secretário de Estado porque se trata de alguém abaixo na hierarquia do Estado) e exige que Marcelo peça desculpas públicas. Levy Gomes envolve ainda o gabinete de Marta Temido. E diz assim: "Têm medo de mim porque eu digo tudo"

Mais de um ano após ter denunciado o caso da gémeas, o diretor de neuropediatria do Hospital de Santa Maria à data dos factos foi ouvido comissão parlamentar de inquérito sobre as gémeas tratadas com o medicamento Zolgensma no SNS. Levy Gomes garante que nunca quis ser um protagonista e que foi apenas “um protagonista involuntário” em todo este processo, lembrando que estava alienado da polémica até que “um belo dia uma jornalista [Sandra Felgueiras]” o abordou e “perguntou se estava disponível para responder a duas ou três perguntas”. “Mas fui protagonista com muito gosto, porque estas situações são para se esclarecerem”, acrescenta.

Levy Gomes não aprecia o rótulo “denunciante” – expressão utilizada pelo deputado do PSD António Rodrigues – e afirma que “diz e confirma coisas”. “Eu, o denunciante, gostava de saber porque é que isto surgiu 4 anos depois”, diz, acrescentando que gostaria de saber também de onde veio a 'carta mistério' que Sandra Felgueiras tinha na sua posse. 

“Eu confirmei tudo aquilo que a Sandra Felgueiras sabia e ela sabia muito mais do que eu. Este assunto surge quatro anos depois. Eu, o denunciante, gostava de saber porque é que isto surgiu quatro anos depois. O denunciante também gostava de saber como é que havia uma carta escrita por cinco pessoas e, quando chego à televisão, a Sandra Felgueiras tem uma carta que nós nem sequer tínhamos encontrado – que tinha desaparecido dos arquivos do conselho de administração e dos nossos computadores. Só um dos nossos cinco computadores é que tinha por acaso a carta igual à apresentada pela Sandra Felgueiras.” E insistiu: “Eu não sou condicionável e não fui condicionado. Ninguém me faz calar de nada. Sou um homem livre”.

O poder do Presidente

Para Levy Gomes, a administração do Zolgensma às gémeas está longe de estar esclarecida. Até este momento, tende a crer que foi “genuíno e é a verdade” o primeiro relato da mãe das gémeas filmado e divulgado pela TVI na altura. “O resto é palha”, afirmou o neuropediatra, que sublinhou que "esta não era uma cunha benigna - era uma cunha interesseira e interessada em fazer com que o SNS despendesse aquela quantidade de dinheiro”.

“Quando há cinco pessoas que querem uma consulta e só uma consegue, as outras ficam à espera. Portanto, havia uma lista de espera.” Levy Gomes considera que o caso das gémeas espelha a “displicência com que se trata os dinheiros públicos” e a desproporção de visões existente entre os decisores políticos e os profissionais do SNS.

O antigo diretor da neuropediatria do Santa Maria recorda que uma colega lhe confidenciou que tinha recebido telefonemas da secretária da ministra Marta Temido e discorda que Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde na altura, seja o principal responsável pela marcação das consultas: “O acesso ao SNS é facílimo e eu não compreendo... Se é verdade o envolvimento do secretário de Estado, porque é que o secretário de Estado não disse ‘epá, vão à urgência’. Em vez de pedir, ligar à Carla, faz, não faz, não é? Vai à urgência e está tudo resolvido. Não percebo como é que pessoas que estão tão envolvidas e tão metidas no sistema da Saúde não dizem a coisa mais fácil e mais banal: vai à urgência”.

Levy Gomes garante que “NUNCA” tinha ouvido falar no nome do secretário de Estado Lacerda Sales a propósito do caso das gémeas. “Numa sociedade hierarquizada como a nossa é mais fácil dizer que a culpa é do secretário de Estado que do Presidente, porque o Presidente é mais poderoso e pode fazer-nos pior”, argumentou. Mais: "Eu acredito no secretário de Estado, ele disse-me que nunca marcou qualquer consulta". E ainda: "E porque é que se dá mais valor à palavra da secretária que à do secretario de Estado?”. Por outro lado: Levy Gomes acredita que “pode haver mais pessoas envolvidas". "A ministra?", questionou o deputado do PSD António Rodrigues - referindo-se a Marta Temido. Resposta de Levy Gomes: "Não sei".

Certo é que “já está estabelecido que foi tudo completamente ilegal”, aponta Levy, mas diz que não está provado quem tomou a iniciativa de fazer o pedido para as consultas.

"As 'meninas do Presidente'? Nunca ouvi essa expressão" nos corredores do hospital

Levy Gomes foi inquirido, juntamente com a neuropediatra Joana Coelho, na qualidade de responsáveis pela marcação de primeiras consultas no Hospital de Santa Maria e de coautores da carta dirigida ao então diretor clínico do centro hospitalar a contestar o tratamento às gémeas. O médico, agora reformado, garante que o que o motivou a redigir a carta “foi um dever de cidadania e cívico para tornar evidente a discrepância que havia entre o tratamento e a abertura que podia ser dada a determinados gastos e o depauperamento com que as pessoas que trabalham no SNS se deparam”.

Joana Coelho assegura que nunca ouviu um colega referir-se às gémeas como 'as meninas do Presidente'. Quanto a quem fez o pedido para a marcação das consultas, a resposta foi simples: “Houve um pedido – não sei dizer de quem – para que a minha colega marcasse a consulta e a consulta foi marcada, mas este contacto não foi feito comigo”. Certo é, como confirma Joana Coelho, o pedido não atravessou o procedimento comum de triagem.

A médica Joana Coelho garante que subscreveu a carta dirigida ao então diretor clínico do Centro Hospital de Santa Maria a contestar o tratamento das gémeas como “alerta de que esta situação se iria repetir e poder-se-á repetir no futuro”, lembrando que, além Zolgensma, “existem vários fármacos que custam mais do que este”.

“Eu, Joana, continuo a achar que esta questão [caso gémeas] se vai voltar a colocar no futuro se não existir uma limitação destes recursos.” E essa foi a a motivação para assinar a carta: “A motivação para escrever a carta foi a questão económica que o caso nos trouxe”.

Levy Gomes exige “pedido de desculpas público” a Marcelo Rebelo de Sousa

O médico Levy Gomes exigiu ainda um “pedido de desculpas público” a Marcelo Rebelo de Sousa.

“Se isto está a ser transmitido, eu gostava de ter um pedido de desculpa público do sr. Presidente da República em relação à atitude que teve comigo. Por ter dito que eu lancei este assunto. Eu não lancei nada, quem lançou foi a Sandra Felgueiras e eu confirmei os dados dela, assim como de outras coisas quaisquer.”

Por fim, e em resposta ao líder do Chega, André Ventura, o médico Levy Gomes realça que acredita que “não teve coragem nenhuma” para denunciar o caso da gémeas. E lembra que, na altura, não percebeu por que motivo lhe diziam isso mesmo, até ter começado a ler “artigo mirabolantes” na imprensa, incluindo que se tinha candidatado para ser deputado do Chega.

“Eu não tive coragem nenhuma. Eu sou muito falador. Têm medo de mim porque eu digo tudo”, culmina, antes de reiterar: "O nosso problema, ao contrário de que disse alguma comunicação social, nunca foi respeitante ao tratamento. Nós não éramos contra o tratamento, éramos contra o Estado fazer um crivo no SNS".

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