O gelado deixa as crianças 'hiperativas'? E desregula as rotinas? Tenha aqui uma dose de certezas

5 ago 2025, 12:00

GUIA DE VERÃO | As preocupações sobre os efeitos do açúcar deixam muitos pais à beira de um ataque de nervos. O verão é uma altura propícia a que se criem novas rotinas alimentares desadequadas. E tudo fica mais difícil no regresso à vida dita normal

Eles querem lá saber se a felicidade vem em copo ou em cone. O que eles querem é que ela venha, bem refrescante, a meio da tarde. Fica impossível resistir ao gelado. E as crianças provam-nos isto (praticamente) todos os dias nesta época estival.

Os pais põem as mãos à cabeça, sobretudo quando nos grupos de progenitores anda tudo a dizer que o açúcar deixa as crianças hiperativas. Mande-lhes este artigo, vão ficar surpreendidos.

É que nós fomos ouvir três nutricionistas e uma psicóloga, que nos garantem que não há uma evidência direta entre o açúcar e a hiperatividade. “Há muitos estudos que procuram encontrar uma relação efetiva, mas não há ainda base científica que nos possa associar as duas coisas diretamente”, refere a nutricionista Lillian Barros.

Até porque o diagnóstico da hiperatividade - transtorno neurológico que causa um excesso de energia - é bem mais do que a mera agitação que podemos ver nas crianças.

“Os estudos não são consistentes. Do ponto de vista científico, esta ideia não está validada. A hiperatividade é multifatorial”, atesta a psicóloga Catarina Lucas.

(Pexels)

Agitados? Sim

Se a ligação do açúcar com a hiperatividade é difícil de traçar, é mais fácil fazê-lo quando falamos da agitação das crianças. “O excesso de açúcar pode deixar a criança mais agitada porque tem um pico de glicémia. Há uma alteração metabólica, isso é sabido”, aponta Lillian Barros.

Por isso, na hora de dar gelados às crianças, aplica-se o lema: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Porque, como todos sabemos - ou deveríamos saber - o açúcar acaba por criar algum grau de dependência. Há quem diga mesmo que é uma droga. E, depois de uma dose, o nosso corpo fica sempre a pedir mais.

É motivo mais do que suficiente para não abusar dos gelados industriais nesta altura, que, além do açúcar, também são ricos em gorduras saturadas ou trans.

“Saber controlar e equilibrar o consumo destes alimentos é o principal. Não podemos proibir a criança de comer gelados no verão. Poder, podemos, mas será que está correto?”, reflete Lillian Barros.

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Há uma exceção para tornar o gelado uma rotina

Gelado bom é gelado feliz, mas não se for todos os dias. Bem, na verdade, há uma exceção a esta regra: pode dar um gelado todos os dias aos seus filhos. Tem é de prepará-los em casa, utilizando fruta, iogurte ou leite.

“Aí conseguimos ter consciência do que lá metemos como ingredientes. Esses gelados, sim, são sempre bem-vindos para o lanche de uma criança”, refere a nutricionista Bárbara Plácido. Porque, deste modo, estão a aumentar a ingestão de fruta, que tanta falta lhes faz.

Se os seus descendentes conseguem fazer-lhe a cabeça para lhes dar um gelado industrializado todos os dias - “ó pai, é só hoje”, “ó mãe, estamos de férias’ -, fique a saber que essa rotina de verão só vai deixar tudo mais complicado quando eles tiverem de voltar a casa, à escola, à vida normal.

“Criam habituação. É tal e qual como num adulto: quanto mais doce comemos, mais vontade temos de comer. E se isto é estabelecido desde a infância, quando estamos a educar a criança para uma alimentação saudável, será mais difícil recuar. Vai haver mais birra, mais conflito”, refere Lillian Barros.

“A criança pode acabar por ficar mais sedentária, mais preguiçosa, menos motivada, porque o açúcar realmente provoca isto”, junta a nutricionista Magda Roma.

“Vai chegar o dia em que essa rotina vai ter de ser quebrada. E depois as crianças sentem uma grande diferença. Na falta desses gelados, em termos de humor, acabam por ficar assim mais chateados. Também tem reflexos na concentração: vamos ter picos de açúcar, que, ao baixarem, causam diferenças na concentração”, conclui Bárbara Plácido.

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