O escritor israelita David Grossman diz que resistiu durante anos a usar o termo, mas que agora o faz “com imensa dor e de coração partido”. “Esta palavra é uma avalanche: quando a dizes, cresce”
David Grossman já foi a voz que procurava pontes. Pacifista assumido, autor consagrado, voz crítica da ocupação e do endurecimento do discurso político em Israel. Agora, com mais de três décadas de escrita e reflexão, Grossman chega à palavra que sempre evitou: genocídio.
Numa entrevista publicada pelo diário italiano La Repubblica, o autor israelita assume, pela primeira vez, que o seu país pode estar a cometer um genocídio em Gaza. Pode não; “está”. “Pergunto-me: como é que chegámos aqui?”, questiona. “Como é que passámos a ser acusados de genocídio? Só pronunciar essa palavra – ‘genocídio’ – associada a Israel, ao povo judeu, só essa associação devia bastar para nos dizer que algo de muito errado se está a passar connosco.”
Durante anos, Grossman recusou usar o termo. Agora, diz, não consegue evitá-lo. “Não depois do que li nos jornais. Não depois das imagens que vi. Não depois de falar com pessoas que estiveram lá. Esta palavra é uma avalanche: quando a dizes, cresce. E traz ainda mais destruição e sofrimento.”
As declarações surgem numa altura em que duas das principais organizações de direitos humanos de Israel acusam publicamente o Governo de estar a cometer um genocídio em Gaza, num contexto internacional cada vez mais alarmado com a fome e o cerco humanitário ao território palestiniano.
Grossman, que recebeu o Prémio Israel em 2018 – a mais alta distinção literária do país –, fala com “imensa dor e de coração partido”. A associação, que começa a ser inevitável, entre “Israel” e “fome”, deixa-o devastado. “Devastado porque vem da nossa própria história, da nossa suposta sensibilidade ao sofrimento humano, da responsabilidade moral que sempre dissemos carregar para com todos os seres humanos – não só para com os judeus.”
A leitura do presente de Grossman começa no passado. “A ocupação corrompeu-nos. Estou absolutamente convencido de que a maldição de Israel começou com a ocupação dos territórios palestinianos em 1967”, afirma. “Talvez as pessoas estejam cansadas de ouvir isto, mas é a verdade. Tornámo-nos poderosos, militarmente poderosos, e caímos na tentação do poder absoluto. Na ideia de que podemos tudo.”
Sobre a intenção da França e do Reino Unido, entre outros, em reconhecer formalmente o Estado da Palestina, Grossman não vê razão para alarme. “Acho mesmo que é uma boa ideia, e não percebo a histeria que se vive aqui em Israel. Talvez lidar com um Estado real, com obrigações reais, em vez de uma entidade vaga como a Autoridade Palestiniana, tenha as suas vantagens.”
Mas há condições que considera inegociáveis: “Sem armas, e com a garantia de eleições transparentes, das quais fiquem excluídos todos os que advoguem violência contra Israel.”
Ainda assim, Grossman não larga a ideia de que duas nações podem coexistir. E diz-se “desesperadamente comprometido” com a solução dos dois Estados. “Vai ser complexo. Tanto nós como os palestinianos teremos de agir com maturidade política perante os ataques inevitáveis que virão. Mas não há outro plano.”