"A ordem para matar Anas Al-Sharif, um dos jornalistas mais corajosos de Gaza, bem como os seus colegas, é uma tentativa desesperada de silenciar a ocupação de Gaza", diz a Al Jazeera. As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) acusam Al-Sharif de liderar uma célula do Hamas em Gaza - a ONU desmente. Israel não permite, desde o início da guerra, que jornalistas internacionais entrem na Faixa de Gaza para fazerem reportagens independentes
“Peço-vos que não se deixem silenciar pelas correntes”:ataque israelita mata vários jornalistas em Gaza, incluindo repórteres da Al Jazeera
por Abeer Salman, Dana Karni, Mohammed Tawfeeq, CNN
Um ataque israelita na Cidade de Gaza, na noite deste domingo, matou sete pessoas, incluindo pelo menos quatro jornalistas da cadeia de notícias Al Jazeera.
O exército israelita afirmou ter atacado e morto o correspondente da Al Jazeera Anas Al-Sharif. Trata-se de um proeminente jornalista que cobriu extensivamente a guerra a partir do interior de Gaza. Israel acusava-o de liderar uma célula do Hamas, algo que Al-Sharif (na foto que abre este artigo) já tinha negado.
Foram ainda mortos no ataque Mohammed Qreiqeh, que também era jornalista da Al Jazeera em Gaza, e os fotojornalistas Ibrahim Al Thaher e Mohamed Nofal.
"A ordem para matar Anas Al-Sharif, um dos jornalistas mais corajosos de Gaza, bem como os seus colegas, é uma tentativa desesperada de silenciar a ocupação de Gaza", reagiu a Al Jazeera em comunicado após o ataque.
Minutos antes de ser morto, Al-Sharif escreveu o seguinte nas redes sociais: "Se esta loucura não acabar, Gaza será reduzida a ruínas, as vozes deste povo silenciadas, os seus rostos apagados — e a história irá recordar-vos como testemunhas silenciosas de um genocídio que escolheram não impedir”.
Al-Sharif estava numa tenda com outros jornalistas perto da entrada do Hospital Al-Shifa quando foi morto, segundo o diretor do mesmo, Mohammad Abu Salmiya, que refere a morte de sete pessoas na sequência do ataque. A referida tenda estava identificada com um sinal de "Imprensa", disse à CNN.
As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) acusavam Al-Sharif de liderar uma célula do Hamas em Gaza que "lançou ataques com rockets contra civis israelitas e tropas das IDF". As IDF já tinham apresentado documentos que, segundo elas, eram "provas inequívocas" dos laços de Al-Sharif com o Hamas. "As IDF já tinham divulgado informações e muitos documentos encontrados na Faixa de Gaza, confirmando a sua filiação militar no Hamas", insistiram os militares em comunicado após o ataque.
No mês passado, depois de as Forças de Defesa de Israel terem acusado Al-Sharif, de 28 anos, de ser membro do Hamas, este respondeu através de mensagem nas redes sociais.
“Reafirmo: eu, Anas Al-Sharif, sou um jornalista sem afiliações políticas. A minha única missão é relatar a verdade a partir de onde ela está — tal como ela é, sem preconceitos”, escreveu. “Numa altura em que uma fome mortal assola Gaza, falar a verdade tornou-se, aos olhos da ocupação, uma ameaça.”
O Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) declarou em julho estar "profundamente preocupado" com a segurança de Al-Sharif, uma vez que o jornalista temia pela sua vida após ter sido alvo de "uma campanha de difamação militar israelita”, que acreditava “ser um precursor do seu assassínio".
A organização revelou que 186 jornalistas foram mortos desde o início da guerra, que decorre há quase dois anos. E concretizou: "178 destes jornalistas são palestinianos mortos por Israel".
Israel não permite, desde o início da guerra, que jornalistas internacionais entrem na Faixa de Gaza para fazerem reportagens independentes. Poucas horas antes do ataque que matou Al-Sharif e os colegas, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmava que os jornalistas estrangeiros seriam agora autorizados a entrar em Gaza, mas apenas com a aprovação das IDF e acompanhados por estas.
Por isso, os repórteres palestinianos de grandes meios de comunicação, como a Al Jazeera, tornaram-se os olhos e os ouvidos daqueles que sofrem em Gaza durante este conflito, vivendo nas mesmas condições duras da restante população.
O Hamas acusou o exército israelita, este domingo, de "atacar e matar" os jornalistas palestinianos, pedindo que os jornalistas e os meios de comunicação internacionais tenham "liberdade de entrada" em Gaza.
As Nações Unidas já tinham considerado que as alegações de Israel sobre Al-Sharif ser um agente do Hamas são "acusações infundadas".
"Estou profundamente alarmada com as repetidas ameaças e acusações do exército israelita contra Anas Al-Sharif, o último jornalista sobrevivente da Al Jazeera no norte de Gaza", afirmou Irene Khan, relatora especial da ONU para a liberdade de expressão, há duas semanas.
Al-Sharif, que era casado e tinha dois filhos, tinha preparado uma mensagem final para o caso de vir a morrer. A mensagem foi partilhada pelos colegas.
“Peço-vos que cuidem da minha amada filha, Shams, a luz dos meus olhos, que o tempo não me permitiu ver crescer como sonhei”, escreveu Al-Sharif. “E recomendo que cuidem do meu querido filho, Salah, para quem eu desejava ser um apoio e um companheiro na sua jornada, até que se tornasse forte o suficiente para partilhar o fardo e continuar a mensagem”, juntou.
“Peço-vos que não se deixem silenciar pelas correntes, nem sejam impedidos pelas fronteiras, e que sejam pontes para a libertação da terra e do seu povo, até que o sol da dignidade e da liberdade brilhe sobre a nossa pátria ocupada”, escreveu Al-Sharif.
