São aqueles que recusam reconhecer o outro como ser humano quando a sua dor não lhes serve, nem ideológica nem politicamente, que são responsáveis pela corrupção do Ocidente que tanto dizem defender – por terra, mar e ar
A guerra em Gaza tornou-se uma negação de tudo aquilo que afirmamos defender. Começou como resposta a um ataque terrorista repugnante, mas dissolveu-se com o tempo num ciclo de destruição que já nada tem de militar ou de estratégico. O que permanece é o castigo: cego, prolongado, sem desfecho. Com o Hamas praticamente sem capacidade operacional e Israel a controlar a maioria do território, a continuação da ofensiva ultrapassa os limites da legítima defesa. O bloqueio da ajuda humanitária transformou o que resta da operação num exercício de brutalidade sem justificação. A guerra, outrora instrumento, tornou-se um fim em si mesma.
Ao contrário do que se viu no ataque ao Irão, onde houve cálculo e precisão para limitar vítimas civis e atingir alvos estratégicos, em Gaza os ataques são indiscriminados, mergulhados na destruição, que recai quase exclusivamente sobre populações inocentes e dificilmente contribuirá para resgatar os reféns. Gaza não é hoje um teatro de operações, mas um território esvaziado, onde dois milhões de pessoas sobrevivem entre ruínas, sujeitas à fome, doença e deslocação forçada. As infraestruturas foram destruídas e as crianças morrem de subnutrição num território controlado por Israel, que bloqueia a ajuda internacional. A ONU é ignorada e a legalidade internacional tida como mera sugestão. O humanitarismo foi substituído sem piedade por uma frieza administrativa que já não reconhece civis – apenas obstáculos.
É por isso que certos argumentos, ainda que mal disfarçados de legitimidade moral, servem apenas para desviar o essencial: quem bombardeia, quem bloqueia, quem mata. Não são análises – são manobras para adormecer a consciência e diluir responsabilidades. Não negam o sofrimento: querem torná-lo irrelevante. O agressor é pintado como vítima da propaganda. A vítima, como atriz de uma farsa. Não se trata de ignorância, mas de uma estratégia de desumanização em direto e a cores, de forma mais ou menos gritante.
Afirmar que não há crianças famintas em Gaza – num lugar onde se opera sem anestesia, se bebe água contaminada e se dorme entre escombros – é muito mais do que normalização ou desculpabilização. É acusar o espelho de distorcer o rosto. O gesto é cínico. Ao insinuar que a dor é manipulada, apaga-se o sofrimento e converte-se a empatia em fraqueza. E no fundo, o que se tenta apagar não são imagens, mas a vergonha de tê-las permitido. A acusação de que a ajuda humanitária é manipulada pelo Hamas para alimentar uma narrativa falsa é recorrente – contudo, uma meia-verdade não é uma verdade inteira. Sim, haverá certamente corrupção. Mas não se desvia o que não se deixa entrar. O facto é que o bloqueio deliberado de comida, medicamentos e combustível não é um acidente colateral, mas a utilização da fome como ferramenta de guerra.
Bombardeiam-se armazéns, impedem-se corredores, atacam-se comboios identificados. Ignorar isto não é ingenuidade, é tomar partido. Quanto à ONU – tão fácil de criticar quanto difícil de substituir –, convém lembrar o óbvio: a maioria dos seus trabalhadores em Gaza são palestinianos, porque Gaza é parte da Palestina. Não são agentes infiltrados do Hamas. São médicos, condutores de ambulância, engenheiros. São os que tentam manter o mínimo de humanidade sob bombardeamentos. Confundi-los a todos com terroristas equivale a acusar sobreviventes de naufrágio de serem cúmplices da tempestade.
A retórica que descreve jornalistas como marionetas do Hamas repete um padrão conhecido: se a realidade incomoda deslegitime-se o mensageiro. Se há imagens, diga-se que são encenadas. Se há testemunhos, diga-se que foram coagidos. Mas os jornalistas estão lá. Morrem lá. A Reuters, a BBC, a AP ou AFP são o que restam entre nós e o que está a acontecer no terreno. Quem os acusa de colaboracionismo fá-lo sempre partindo da ideia de que o sofrimento tem classes – que o que importa em Kiev não importa em Gaza. Que existe o legítimo e o descartável, aquilo que comove e aquilo que incomoda.
A ideia de que toda a informação vinda de Gaza é falsa, só porque passa por filtros locais, não é um argumento, mas uma desculpa para não ver. A estratégia do Hamas – uma organização terrorista – é bem conhecida: esconder-se entre civis, provocar retaliações, exibir cadáveres. O Hamas vive da morte. Mas acreditamos que os israelitas não querem viver nem da morte, nem da indiferença, apesar do seu Governo. Ser uma democracia – apesar de toda a realpolitik que se queira invocar – implica outro grau de responsabilidade. E quando o sofrimento civil é visto apenas como dano colateral, a democracia já cedeu à barbárie.
E depois vem o último reduto argumentativo: o antissemitismo. Cada crítica a Israel é traduzida, automaticamente, como ódio ao povo judeu. É uma armadilha eficaz. E profundamente perversa. Porque instrumentaliza um passado trágico para justificar um presente insustentável. O antissemitismo é real, sim. E é inaceitável. Mas usá-lo como biombo para crimes de guerra é banalizá-lo. É converter a memória do Holocausto numa retórica de impunidade.
A acusação de que a ONU e ONGs, como os Médicos Sem Fronteiras – ou até a Cruz Vermelha - são cúmplices do Hamas, não é apenas infame, mas perigosamente eficaz. Porque propaga a ideia de que ninguém é fiável, que tudo é manipulado, que não há inocentes. E nesse terreno, quem ganha é sempre o mais forte. Se toda a solidariedade for suspeita, sobra apenas o silêncio. E o silêncio, como sabemos, não é neutro, é a linguagem da indiferença cúmplice.
Sim, o Hamas iniciou esta guerra. Sim, o ataque de 7 de Outubro foi bárbaro, inadmissível. Mas nenhum ato terrorista justifica a punição coletiva de dois milhões de pessoas. O sofrimento civil não pode ser apenas um detalhe estratégico, ou uma variável tolerável. Separar a população civil dos jihadistas não é uma estratégia militar – é uma obrigação moral.
O que hoje se diz sobre Gaza já se disse, com ligeiras variações, noutros tempos: “mentem”, “exageram”, “são perigosos”, “não são como nós”. Foi com esta lógica que fracassou a Conferência de Évian, se fecharam fronteiras a judeus em fuga, se ignoraram comboios em marcha, se preferiu o conforto da distância à urgência da decência. A diferença é que hoje, quando dizemos que não sabíamos, estaremos a mentir. Sabemos. E escolhemos não ver.
As análises que sugerem que tudo é encenação alinham-se com o cinismo, não com a verdade. E os seus autores são cúmplices do colapso moral que fingem denunciar. A fome em Gaza não é ficção – é uma realidade. As ruínas não são metáforas – são casas destruídas. E a ONU não é o vilão – é o que ainda tenta impedir, com pouco sucesso, que o mundo inteiro desabe.
É precisamente por isto que a decisão francesa deve merecer o nosso apoio. A França será o primeiro país do G7 a reconhecer a Palestina, em setembro. Um gesto justo, condicionado à reforma da Autoridade Palestiniana, à libertação dos reféns, ao desarmamento do Hamas e à realização de eleições legislativas e presidenciais em 2025, muito daquilo a que Netanyahu sempre se opôs. Durante anos, os seus sucessivos governos procuraram enfraquecer a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia, enquanto toleravam e incentivavam o fortalecimento do Hamas em Gaza, bloqueando assim qualquer hipótese de um Estado palestiniano. O reconhecimento da Palestina – que o Reino Unido também já anunciou – não é, portanto, um mero gesto simbólico, nem um “prémio político” ao terrorismo. Hoje, representa a melhor opção disponível para pôr fim ao sofrimento e abrir caminho a um acordo político.
Gaza não é um destino trágico, é um abandono metódico. Não caiu, foi deixada cair juntamente com os Acordos de Oslo, sobretudo depois do assassinato de Yitzhak Rabin e da chegada ao poder de Netanyahu. A ruína não começou com as bombas, começou com a desistência: da política, da imaginação, da responsabilidade. É fácil declarar o irremediável. Nenhuma sociedade é irrecuperável, mas todas podem ser perdidas se forem tratadas como insolúveis. Gaza não precisa de compaixão episódica, precisa de soberania funcional, instituições credíveis, autonomia real.
Essa recusa em imaginar soluções sustentáveis para Gaza não é inédita, inscrevendo-se numa longa tradição de cinismo geopolítico, onde também a defesa dos direitos humanos depende menos da gravidade dos crimes e mais da utilidade do regime que os comete. Mas muitos ainda vão mais longe. Afirmam que a fome em Gaza é uma “narrativa fabricada” e acusam-nos de corrupção moral, de sermos cúmplices do jihadismo e do antissemitismo.
Mas estão enganados. A fome não mente. Nas palavras da Presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha – que talvez também “seja do Hamas”, como Luís Marques Mendes – Gaza é mesmo “pior do que o inferno na terra”. E são aqueles que recusam reconhecer o outro como ser humano quando a sua dor não lhes serve, nem ideológica nem politicamente, que são responsáveis pela corrupção do Ocidente que tanto dizem defender – por terra, mar e ar.