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Israel suspende ataques em algumas zonas de Gaza perante o horror crescente da fome. Será suficiente?

CNN , Tim Lister
27 jul 2025, 17:33
Palestinianos transportam ajuda humanitária que entrou em Gaza através de Israel, em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza, este domingo (Ebrahim Hajjaj/Reuters)
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Na fotografia de capa, palestinianos transportam ajuda humanitária que entrou em Gaza através de Israel, em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza, este domingo (Ebrahim Hajjaj/Reuters)

Israel anunciou uma “pausa táctica diária na atividade militar” em três áreas de Gaza para permitir que mais ajuda chegue à população, perante a crescente indignação internacional pela fome neste território.

As forças armadas israelitas afirmaram que esta medida visa “refutar a falsa alegação de fome deliberada na Faixa de Gaza”.

A pausa — que incluirá também a abertura de corredores para facilitar a entrega de ajuda por parte das Nações Unidas e de outras organizações — chegou tarde demais para dezenas de palestinianos, segundo as autoridades locais, que relataram mais mortes por desnutrição e entre as pessoas que tentavam, em desespero, obter ajuda junto dos comboios humanitários e centros de distribuição.

Embora a “pausa tática” tenha sido bem recebida pelas agências da ONU, subsistem dúvidas sobre se ela será suficiente, após meses em que a ajuda enviada para Gaza foi manifestamente insuficiente. Isto é aquilo que sabemos.

Como chegámos aqui?

A crise humanitária em Gaza arrasta-se há muito.

Durante quase dois anos de guerra, após os ataques do Hamas a 7 de outubro, a vasta maioria da população de Gaza acabou deslocada várias vezes. Dezenas de milhares vivem nas ruas ou em tendas improvisadas. Com a destruição das infraestruturas, o acesso à água e à eletricidade tornou-se extremamente difícil.

Acima de tudo, a entrega de alimentos e a ajuda humanitária têm sido interrompidas pelos combates, pelas dificuldades logísticas e pelas restrições impostas pelas forças israelitas.

Antes do conflito, cerca de três camiões de ajuda e comércio entravam em Gaza todas as semanas. Depois disso, o número caiu de uma forma drástica.

Durante um cessar-fogo, que teve lugar no início do ano, chegaram a entrar várias centenas de camiões por dia. Contudo, foi algo que não durou muito.

A situação agravou-se profundamente em março, quando Israel impôs um bloqueio total a Gaza, numa tentativa de forçar o Hamas a libertar os reféns que ainda mantinha.

Palestinians gather to receive food from a charity kitchen, amid a hunger crisis, in Gaza City, on Thursday.
Palestinianos juntam-se para receber comida de uma cozinha solidária, em plena crise de fome, em Gaza. Este registo é da passada quinta-feira (Dawoud Abu Alkas/Reuters)

A fome já era generalizada em Gaza e, nos meses que se seguiram, só se intensificou. Padarias e cozinhas comunitárias fecharam, os preços nos mercados dispararam, tornando-se inacessíveis para a maioria. As Nações Unidas alertaram para o aumento da desnutrição. Por sua vez, quase seis mil camiões com ajuda permaneciam retidos na fronteira.

No final de maio, o bloqueio foi levantado parcialmente. Aí, a Gaza Humanitarian Foundation (GHF) — uma iniciativa privada apoiada pelos EUA e por Israel — começou a distribuir alimentos no sul de Gaza. Contudo, a ONU e outras organizações vieram criticaram a GHF por violar princípios humanitários básicos e por não conseguir responder às necessidades dos habitantes de Gaza. A GHF afirmou ter distribuído mais de 90 milhões de refeições e responsabilizou a ONU pela falta de coordenação.

Segundo a ONU, mais de mil pessoas morreram desde maio em tentativas desesperadas para obter comida para as suas famílias. Quase todas foram abatidas pelas forças israelitas.

Em maio, a ONU relatou que toda a população enfrentava níveis elevados de insegurança alimentar aguda, com meio milhão de pessoas em risco de fome extrema e mais de 70 mil crianças a necessitar de tratamento por desnutrição aguda.

Desde o início do conflito e até à data, 133 pessoas morreram desnutridas em Gaza, segundo as autoridades de saúde palestinianas — quase 90 eram crianças. A maioria dessas mortes teve lugar desde março.

As imagens de crianças a morrer de desnutrição severa têm provocado indignação global, com o Reino Unido, França e Alemanha a afirmarem, na semana passada, que a crise era “provocada pelo Homem e evitável”.

Two-year-old Yezen Abu Ful continues to lose weight as his condition worsens due to severe food shortages caused by the blockade and Israeli attacks, in Gaza City, Gaza on July 13.
Yezen Abu Ful, de dois anos, continua a perder peso à medida que o seu estado se agrava devido à escassez alimentar provocada pelo bloqueio e pelos ataques israelitas, em Gaza. Este registo é de 13 de julho (Ahmed Jihad Ibrahim Al-arini/Anadolu/Getty Images Ahmed Jihad Ibrahim Al-arini/Anadolu/Getty Images)

O que anunciou Israel?

As pausas táticas anunciadas pelas forças israelitas abrangem três áreas ao longo da costa mediterrânica — Al-Mawasi, Deir al-Balah e parte da Cidade de Gaza. São zonas que já deveriam estar a funcionar como áreas seguras, para onde a população poderia fugir. O exército israelita divulgou um mapa com as áreas abrangidas pela pausa, marcando o resto da Faixa de Gaza a vermelho, ou seja, como “zona de combate perigosa”.

A pausa começou no domingo e durará dez horas todos os dias, das 10:00 às 20:00, na hora local. Prolonga-se “até nova ordem”, segundo o exército.

Um aspeto importante do anúncio israelita é o estabelecimento de “rotas seguras” das 6:00 às 23:00, para permitir que os comboios de ajuda da ONU e de outras organizações humanitárias distribuam alimentos e medicamentos em segurança. Nos últimos meses, centenas de camiões foram saqueados — tanto por pessoas desesperadas como por grupos criminosos. Por isso, a entrega segura de ajuda representa um grande desafio.

Israel realizou um lançamento aéreo de ajuda em Gaza no sábado à noite, tendo também autorizado países estrangeiros a realizarem operações semelhantes. A Jordânia e os Emirados Árabes Unidos realizaram um já este domingo.

An airplane drops humanitarian aid over Gaza as seen from northern Gaza Strip on Sunday.
Um avião lança ajuda humanitária sobre Gaza. Esta foi a vista a partir do norte da Faixa de Gaza este domingo (Dawoud Abu Alkas/Reuters)

Contudo, os lançamentos aéreos são considerados, pelas agências humanitárias, como algo caro, ineficaz e, por vezes, perigoso. O porta-voz da UNICEF, Joe English, disse o seguinte à CNN este domingo: “Fazemos lançamentos aéreos em várias partes do mundo. Funcionam onde há comunidades remotas em grandes áreas abertas. Não é o caso da Faixa de Gaza”.

As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) afirmaram ainda que restabeleceram a ligação elétrica entre Israel e a estação de dessalinização em Gaza, o que permitirá fornecer cerca de 20 mil metros cúbicos de água por dia — dez vezes mais do que atualmente.

Quão rápido podem as coisas melhorar?

Os camiões com ajuda começaram a dirigir-se para Gaza, incluindo comboios vindos do Egito e da Jordânia. Contudo, o volume de ajuda necessário é gigantesco.

Milhares de camiões com alimentos e medicamentos estão prontos para entrar em Gaza. Todavia, o principal ponto de passagem em Kerem Shalom já está congestionado com camiões à espera para fazer essa distribuição. Existem apenas dois pontos de entrada para Gaza: Kerem Shalom e Zikim, a norte.

As agências da ONU afirmam que a falta de segurança e de autorizações por parte do exército israelita costuma atrasar a distribuição.

A convoy of aid trucks on the Egyptian side of the Rafah crossing with the Gaza Strip awaits permission to drive toward the besieged Palestinian territory on Sunday.
Um comboio de camiões de ajuda humanitária, do lado egípcio da passagem de Rafah com a Faixa de Gaza, aguarda autorização para avançar. O registo é deste domingo (STR/AFP/Getty Images)

O porta-voz da UNICEF disse à CNN que a agência “não pode fazer milagres” com janelas de tempo tão reduzidas para entrada de ajuda, uma vez que as crianças desnutridas requerem cuidados prolongados.

O Programa Alimentar Mundial saudou o anúncio israelita, afirmando ter comida suficiente — no local ou a caminho — para alimentar toda a população de Gaza, de 2,1 milhões de pessoas, durante quase três meses. A organização acrescentou que recebeu garantias de Israel para agilizar os processos de autorização, permitindo um aumento significativo da assistência alimentar.

A decisão de facilitar a entrada de ajuda já causou divisões dentro da coligação governamental israelita.

O ministro da Segurança Nacional, de extrema-direita, Itamar Ben Gvir, disse não ter sido consultado e afirmou que “a única forma de vencer a guerra e trazer os reféns de volta é parar completamente com a ajuda ‘humanitária’, conquistar toda a Faixa de Gaza e incentivar a migração voluntária”.

O Fórum das Famílias dos Reféns afirmou que as pausas táticas deveriam fazer parte de um acordo mais amplo para garantir o regresso dos reféns. “Isto representa o fracasso da estratégia de acordos parciais”, argumentou o grupo, exigindo que o governo alcance “um acordo abrangente para libertar todos os raptados e pôr fim aos combates”.

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