Na fotografia de capa, palestinianos transportam ajuda humanitária que entrou em Gaza através de Israel, em Beit Lahia, no norte da Faixa de Gaza, este domingo (Ebrahim Hajjaj/Reuters)
Israel anunciou uma “pausa táctica diária na atividade militar” em três áreas de Gaza para permitir que mais ajuda chegue à população, perante a crescente indignação internacional pela fome neste território.
As forças armadas israelitas afirmaram que esta medida visa “refutar a falsa alegação de fome deliberada na Faixa de Gaza”.
A pausa — que incluirá também a abertura de corredores para facilitar a entrega de ajuda por parte das Nações Unidas e de outras organizações — chegou tarde demais para dezenas de palestinianos, segundo as autoridades locais, que relataram mais mortes por desnutrição e entre as pessoas que tentavam, em desespero, obter ajuda junto dos comboios humanitários e centros de distribuição.
Embora a “pausa tática” tenha sido bem recebida pelas agências da ONU, subsistem dúvidas sobre se ela será suficiente, após meses em que a ajuda enviada para Gaza foi manifestamente insuficiente. Isto é aquilo que sabemos.
Como chegámos aqui?
A crise humanitária em Gaza arrasta-se há muito.
Durante quase dois anos de guerra, após os ataques do Hamas a 7 de outubro, a vasta maioria da população de Gaza acabou deslocada várias vezes. Dezenas de milhares vivem nas ruas ou em tendas improvisadas. Com a destruição das infraestruturas, o acesso à água e à eletricidade tornou-se extremamente difícil.
Acima de tudo, a entrega de alimentos e a ajuda humanitária têm sido interrompidas pelos combates, pelas dificuldades logísticas e pelas restrições impostas pelas forças israelitas.
Antes do conflito, cerca de três camiões de ajuda e comércio entravam em Gaza todas as semanas. Depois disso, o número caiu de uma forma drástica.
Durante um cessar-fogo, que teve lugar no início do ano, chegaram a entrar várias centenas de camiões por dia. Contudo, foi algo que não durou muito.
A situação agravou-se profundamente em março, quando Israel impôs um bloqueio total a Gaza, numa tentativa de forçar o Hamas a libertar os reféns que ainda mantinha.
A fome já era generalizada em Gaza e, nos meses que se seguiram, só se intensificou. Padarias e cozinhas comunitárias fecharam, os preços nos mercados dispararam, tornando-se inacessíveis para a maioria. As Nações Unidas alertaram para o aumento da desnutrição. Por sua vez, quase seis mil camiões com ajuda permaneciam retidos na fronteira.
No final de maio, o bloqueio foi levantado parcialmente. Aí, a Gaza Humanitarian Foundation (GHF) — uma iniciativa privada apoiada pelos EUA e por Israel — começou a distribuir alimentos no sul de Gaza. Contudo, a ONU e outras organizações vieram criticaram a GHF por violar princípios humanitários básicos e por não conseguir responder às necessidades dos habitantes de Gaza. A GHF afirmou ter distribuído mais de 90 milhões de refeições e responsabilizou a ONU pela falta de coordenação.
Segundo a ONU, mais de mil pessoas morreram desde maio em tentativas desesperadas para obter comida para as suas famílias. Quase todas foram abatidas pelas forças israelitas.
Em maio, a ONU relatou que toda a população enfrentava níveis elevados de insegurança alimentar aguda, com meio milhão de pessoas em risco de fome extrema e mais de 70 mil crianças a necessitar de tratamento por desnutrição aguda.
Desde o início do conflito e até à data, 133 pessoas morreram desnutridas em Gaza, segundo as autoridades de saúde palestinianas — quase 90 eram crianças. A maioria dessas mortes teve lugar desde março.
As imagens de crianças a morrer de desnutrição severa têm provocado indignação global, com o Reino Unido, França e Alemanha a afirmarem, na semana passada, que a crise era “provocada pelo Homem e evitável”.
O que anunciou Israel?
As pausas táticas anunciadas pelas forças israelitas abrangem três áreas ao longo da costa mediterrânica — Al-Mawasi, Deir al-Balah e parte da Cidade de Gaza. São zonas que já deveriam estar a funcionar como áreas seguras, para onde a população poderia fugir. O exército israelita divulgou um mapa com as áreas abrangidas pela pausa, marcando o resto da Faixa de Gaza a vermelho, ou seja, como “zona de combate perigosa”.
A pausa começou no domingo e durará dez horas todos os dias, das 10:00 às 20:00, na hora local. Prolonga-se “até nova ordem”, segundo o exército.
Um aspeto importante do anúncio israelita é o estabelecimento de “rotas seguras” das 6:00 às 23:00, para permitir que os comboios de ajuda da ONU e de outras organizações humanitárias distribuam alimentos e medicamentos em segurança. Nos últimos meses, centenas de camiões foram saqueados — tanto por pessoas desesperadas como por grupos criminosos. Por isso, a entrega segura de ajuda representa um grande desafio.
Israel realizou um lançamento aéreo de ajuda em Gaza no sábado à noite, tendo também autorizado países estrangeiros a realizarem operações semelhantes. A Jordânia e os Emirados Árabes Unidos realizaram um já este domingo.
Contudo, os lançamentos aéreos são considerados, pelas agências humanitárias, como algo caro, ineficaz e, por vezes, perigoso. O porta-voz da UNICEF, Joe English, disse o seguinte à CNN este domingo: “Fazemos lançamentos aéreos em várias partes do mundo. Funcionam onde há comunidades remotas em grandes áreas abertas. Não é o caso da Faixa de Gaza”.
As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) afirmaram ainda que restabeleceram a ligação elétrica entre Israel e a estação de dessalinização em Gaza, o que permitirá fornecer cerca de 20 mil metros cúbicos de água por dia — dez vezes mais do que atualmente.
Quão rápido podem as coisas melhorar?
Os camiões com ajuda começaram a dirigir-se para Gaza, incluindo comboios vindos do Egito e da Jordânia. Contudo, o volume de ajuda necessário é gigantesco.
Milhares de camiões com alimentos e medicamentos estão prontos para entrar em Gaza. Todavia, o principal ponto de passagem em Kerem Shalom já está congestionado com camiões à espera para fazer essa distribuição. Existem apenas dois pontos de entrada para Gaza: Kerem Shalom e Zikim, a norte.
As agências da ONU afirmam que a falta de segurança e de autorizações por parte do exército israelita costuma atrasar a distribuição.
O porta-voz da UNICEF disse à CNN que a agência “não pode fazer milagres” com janelas de tempo tão reduzidas para entrada de ajuda, uma vez que as crianças desnutridas requerem cuidados prolongados.
O Programa Alimentar Mundial saudou o anúncio israelita, afirmando ter comida suficiente — no local ou a caminho — para alimentar toda a população de Gaza, de 2,1 milhões de pessoas, durante quase três meses. A organização acrescentou que recebeu garantias de Israel para agilizar os processos de autorização, permitindo um aumento significativo da assistência alimentar.
A decisão de facilitar a entrada de ajuda já causou divisões dentro da coligação governamental israelita.
O ministro da Segurança Nacional, de extrema-direita, Itamar Ben Gvir, disse não ter sido consultado e afirmou que “a única forma de vencer a guerra e trazer os reféns de volta é parar completamente com a ajuda ‘humanitária’, conquistar toda a Faixa de Gaza e incentivar a migração voluntária”.
O Fórum das Famílias dos Reféns afirmou que as pausas táticas deveriam fazer parte de um acordo mais amplo para garantir o regresso dos reféns. “Isto representa o fracasso da estratégia de acordos parciais”, argumentou o grupo, exigindo que o governo alcance “um acordo abrangente para libertar todos os raptados e pôr fim aos combates”.
