Tony Blair pode assumir a liderança de uma organização da ONU que venha a ser a "autoridade política e jurídica suprema" na transição pós-guerra em Gaza
O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair tem participado em discussões sobre a possibilidade de liderar uma autoridade transitória pós-guerra em Gaza durante cinco anos, segundo a BBC. Tony Blair participou num encontro com Trump para discutir planos para Gaza descritos como “muito abrangentes” pelo enviado norte-americano para o Médio Oriente, Steve Witkoff.
A proposta apoiada pela Casa Branca prevê que Blair assuma a liderança de uma autoridade governativa apoiada pela ONU e por países do Golfo que venha a ser a "autoridade política e jurídica suprema", antes de entregar o controlo aos palestinianos. Tony Blair tem participado em reuniões de alto nível com os EUA e outros interlocutores sobre o futuro de Gaza.
De acordo com o The Economist e meios de comunicação israelitas, Tony Blair assumiria a presidência de um órgão chamado Autoridade Internacional Transitória de Gaza (GITA em inglês). O gabinete do antigo primeiro-ministro afirmou que Blair não apoiaria qualquer proposta que implicasse o deslocamento da população de Gaza.
Esta autoridade teria inicialmente uma base no Egito, junto à fronteira sul de Gaza, e mais tarde entraria no território palestiniano quando este estivesse estabilizado, acompanhado por uma força multinacional. Seria um plano inspirado nas administrações internacionais que supervisionaram as transições de Timor-Leste e do Kosovo para a independência.
As notícias sobre as discussões em torno do envolvimento de Tony Blair numa autoridade transitória em Gaza surgem depois de o presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, ter afirmado na quinta-feira estar disponível para trabalhar com Trump e outros líderes mundiais na implementação de um plano de paz baseado na solução de dois Estados. Abbas reiterou a sua rejeição de qualquer papel futuro de governação do Hamas em Gaza e exigiu o seu desarmamento.
Quando deixou o cargo de primeiro-ministro em 2007, a missão de Blair centrou-se em promover o desenvolvimento económico da Palestina e criar condições para uma solução de dois Estados. Isto como enviado especial para o Médio Oriente do quarteto de potências internacionais (EUA, UE, Rússia e ONU).
Mas enquanto primeiro-ministro, Blair enviou tropas britânicas para a Guerra do Iraque em 2003, uma decisão fortemente criticada no inquérito que concluiu que o antigo primeiro-ministro atuou com base em informações erradas e sem certezas sobre a produção de armas de destruição maciça.
Ao longo do conflito, várias propostas para o futuro de Gaza foram apresentadas por diferentes partes. Em fevereiro, Donald Trump chegou a propor que os EUA assumissem "uma posição de posse a longo prazo" sobre Gaza, afirmando que o território poderia ser a "Riviera do Médio Oriente", mas a ideia implicaria a deslocação forçada de palestinianos e violaria o direito internacional. Os EUA e Israel sustentaram que se trataria de uma emigração "voluntária".
Já em março, os EUA e Israel rejeitaram um plano árabe para a reconstrução pós-guerra da Faixa de Gaza que permitiria a permanência no território dos 2,1 milhões de palestinianos ali residentes. A Autoridade Palestiniana e o Hamas acolheram favoravelmente esse plano, que previa a governação temporária de Gaza por um comité de peritos independentes e o envio de forças de manutenção de paz internacionais.
Em julho, uma conferência internacional em Nova Iorque, liderada por França e pela Arábia Saudita, propôs um "comité administrativo transitório" para Gaza, que funcionaria "sob a proteção da Autoridade Palestiniana". Nem os EUA nem Israel participaram. A chamada Declaração de Nova Iorque foi aprovada pela maioria da Assembleia Geral da ONU.
No início desta semana vários países reconheceram formalmente o Estado da Palestina e o Reino Unido em conjunto com outros países reiteraram o apelo a uma solução de dois estados, que prevê a criação de um Estado palestiniano independente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Oriental como capital, lado a lado com Israel. No entanto, a decisão foi criticada por Israel e pelos EUA que a consideraram uma “recompensa ao Hamas”.
O exército israelita lançou a sua campanha em Gaza em resposta ao ataque liderado pelo Hamas no sul de Israel, a 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 foram feitas reféns. Desde então, pelo menos 65.502 pessoas foram mortas nos ataques israelitas em Gaza, segundo o ministério da saúde do território, controlado pelo Hamas. Uma comissão de inquérito da ONU afirmou que Israel cometeu genocídio contra os palestinianos em Gaza, acusação que Israel nega.