Depois de suspender as operações devido a ameaças do Hamas contra os seus funcionários, a fundação GHF retomou este domingo a distribuição de ajuda alimentar em Gaza. A entrega das 17 mil caixas de alimentos foi feita sem incidentes, apesar das tensões no terreno, e insere-se num programa-piloto que procura levar os bens diretamente às comunidades, evitando armazéns e pontos de controlo — e, sobretudo, a interferência do Hamas
A Gaza Humanitarian Foundation (GHF) anunciou este domingo a distribuição de mais 17 mil caixas de alimentos em três locais distintos em Rafah e no centro da Faixa de Gaza. A operação decorreu um dia depois de a fundação ter comunicado a suspensão das suas actividades, alegando ameaças dirigidas à sua equipa por parte de operacionais do Hamas.
Além disso, a GHF afirmou ter entregue 11 camiões de ajuda a líderes comunitários para posterior distribuição no norte de Rafah, no âmbito de um programa-piloto que pretende fazer chegar os bens diretamente à população. O objetivo é evitar que os civis tenham de percorrer longas distâncias ou atravessar linhas controladas pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) para receberem auxílio.
“Iremos avaliar esta operação e perceber se é uma solução viável para o futuro”, lê-se no comunicado divulgado pela organização.
Num momento em que as tensões no terreno continuam a escalar, a GHF sublinha ter conseguido entregar milhares de caixas de alimentos “sem incidentes”, mesmo perante relatos de disparos por parte das IDF nas imediações dos pontos de ajuda e ameaças explícitas do Hamas aos seus trabalhadores.
“A GHF está a testar e a adaptar o seu modelo de distribuição para garantir que o maior volume possível de ajuda chegue, em segurança, ao maior número de pessoas. Mantemos uma postura flexível e continuaremos a ajustar as distribuições consoante as condições no terreno, incluindo o estado das estradas, a pressão das multidões e os riscos à segurança”, acrescenta a fundação, que planeia abrir novos centros de distribuição no norte da Faixa de Gaza.
John Acree, diretor executivo da GHF, explica que “recentemente abrimos uma via exclusiva para mulheres e crianças, de forma a garantir que recebem ajuda, e hoje [domingo] testámos uma entrega direta à comunidade”.
Questionado sobre a logística por trás deste novo método, um porta-voz da fundação revelou que os camiões descarregaram alimentos “em núcleos populacionais fora dos três centros principais, para aliviar a pressão sobre esses locais”. E especificou: “As caixas estão a ser entregues diretamente às pessoas”, em vez de serem colocadas em armazéns — uma estratégia que visa contornar os controlos do Hamas.
Antes, a GHF já havia anunciado que abriria apenas um centro de distribuição na zona central de Gaza, após manter os três encerrados no dia anterior. A decisão foi tomada na sequência de ameaças atribuídas ao grupo islamista. O porta-voz da fundação partilhou uma mensagem, escrita em árabe, oriunda do Hamas e dirigida à equipa da GHF:
“Este é o vosso último aviso: estamos plenamente cientes de tudo o que estão a fazer, e todos os vossos movimentos estão a ser monitorizados com extrema precisão. Não vos será perdoado o envolvimento em projectos que ferem a dignidade do nosso povo e servem agendas suspeitas sob o disfarce de ajuda humanitária. Prosseguir nesse caminho terá consequências graves, e serão totalmente responsáveis pelos resultados das vossas ações. Parem agora, ou enfrentarão as consequências.”
No que toca à segurança nos locais de entrega, a fundação reitera que “a distribuição de ajuda nos três centros decorreu sem qualquer incidente|”.
Ainda assim, durante vários dias consecutivos na última semana — e novamente esta manhã — circularam relatos, por agora não verificados, de tiroteios letais protagonizados por soldados israelitas junto aos centros de ajuda geridos por esta organização, apoiada por Israel e pelos Estados Unidos.