EUA já vieram garantir uma melhor distribuição da ajuda humanitária no território, deixando cair ao chão a narrativa do primeiro-ministro israelita de que não havia fome no território palestiniano
"Há fome em Gaza, não dá para fingir". Foi com estas palavras que, pela primeira vez, Donald Trump mudou a posição até então defendida pelos Estados Unidos em relação ao que está a acontecer em Gaza. Contra a posição do seu amigo e aliado Benjamin Netanyahu, o presidente norte-americano afirmou ainda que Israel "tem muita responsabilidade" por limitar a ajuda humanitária no território palestiniano, algo que pode afetar as pretensões do primeiro-ministro israelita.
"Esta decisão fragiliza muito a posição de Netanyahu já que Israel assenta muito no apoio dos EUA, numa altura em que a máquina europeia, de grosso modo, está paralisada, especialmente devido à Alemanha e à Áustria, que têm bloqueado determinadas ações", diz à CNN Portugal Tiago André Lopes, especialista em relações internacionais.
"Israel perde desta forma a narrativa que estava a criar de que não havia fome em Gaza", defende o também comentador da CNN Portugal, sublinhando: "O facto de o seu principal parceiro [os EUA] contradizer a tese que tem vindo a ser defendida nos últimos tempos demonstra que a GHF, a fundação que substituiu a ONU, falhou no seu propósito."
A Gaza Humanitarian Foundation, conhecida simplesmente por GHF, é responsável, desde maio deste ano, por distribuir ajuda humanitária no território palestiniano. A entidade privada americana tem desde então enfrentado sérias dificuldades na distribuição de alimentos, alegando ser alvo de ameaças por parte de operacionais do Hamas.
Numa altura em que a pressão diplomática aumenta, o coronel José Carmo defende outra perspetiva sobre o impacto da declaração de Trump em Netanyahu. "A declaração não muda em nada a situação interna de Netanyahu, já que não corre nenhum risco imediato."
O coronel lembra que o país "não irá a eleições brevemente" e que "nos próximos três meses o parlamento está paralisado, pelo que é certo que o primeiro-ministro israelita não sairá do cargo durante esse espaço de tempo". “Se houvesse eleições agora, talvez pudéssemos equacionar uma derrota de Netanyahu, mas não há nenhuma votação marcada e, por isso, não fica fragilizado", argumenta.
Trump fez Israel "abdicar parcialmente da sua estratégia inicial"
Ainda que a declaração de Trump não venha a surtir qualquer efeito negativo internamente, a nível internacional já causou mossa ao primeiro-ministro israelita, que se viu obrigado a "abdicar parcialmente da sua estratégia inicial", aponta o coronel.
“A nível internacional a declaração de Trump acaba por ser bastante relevante. Israel já alterou a sua abordagem em Gaza e está a permitir a entrada de mais ajuda humanitária, abdicando parcialmente da estratégia inicial que vinha adotando até aqui. Mas tudo leva a crer que, a par da declaração publica do presidente norte-americano, foi muito pressionado nos bastidores", afirma José Carmo.
Através da rede social X, o Ministério da Defesa de Israel garantiu na segunda-feira que 120 camiões entraram na Faixa de Gaza e que a Organização das Nações Unidas (ONU) e outras organizações não governamentais fizeram a distribuição de alimentos à população palestiniana.
No entanto, segundo fontes do Hamas citadas pela agência EFE, apenas 73 camiões entraram na Faixa de Gaza, "a maioria foi saqueada sob o olhar atento da ocupação israelita e dos seus drones, numa clara tentativa de impedir que a ajuda chegasse aos centros de distribuição".
Throughout the war, and especially in recent weeks, Israel has invested significant efforts in advancing the humanitarian response for the civilian population in Gaza.
— COGAT (@cogatonline) July 28, 2025
As part of these ongoing efforts, Israel announced a series of additional steps to boost humanitarian access:… pic.twitter.com/qShlURIZ5u
Também o organismo militar israelita que gere os assuntos civis nos territórios palestinianos, o COGAT, revelou novas medidas para atenuar a situação humanitária na Faixa de Gaza. Entre estas está a autorização de um projeto dos Emirados Árabes Unidos que prevê a instalação de uma conduta de água. Esta infraestrutura permitirá o abastecimento de água potável, proveniente de uma estação de dessalinização egípcia até à área humanitária de al-Mawasi, localizada no litoral sul.
A par de Israel, também os EUA já vieram garantir uma melhor distribuição da ajuda humanitária. No mesmo dia em que admitiu a crise humanitária na região, Trump, questionado pelos jornalistas, afirmou que está a planear criar centros alimentares em Gaza. "Os Estados Unidos ajudarão com os alimentos" e "também vamos garantir que não haja barreiras a impedir as pessoas", referiu.
Uma decisão que pode ter uma razão óbvia para o coronel José Carmo. "Trump está a fazer de tudo para ser Prémio Nobel da Paz e, por isso, não deseja estar associado a uma crise humanitária."