Miguel Duarte, um dos ativistas a bordo da flotilha humanitária, relata à CNN Portugal que a missão entrou numa fase derradeira e que não há quaisquer garantias de segurança. Meios navais de Espanha e Itália que estavam a auxiliar a flotilha já foram embora
Se Israel não intervier, a flotilha humanitária deve chegar a Gaza esta quinta-feira e começar a distribuir alimentos e medicamentos pela população - que continua sob ataque das forças de Netanyahu. A garantia é dada à CNN Portugal por Miguel Duarte, um dos portugueses a bordo do Family Madeira, que está há cerca de um mês a navegar em direção à Faixa de Gaza. “Tudo indica que, se formos a acreditar nas ameaças de Israel, haverá uma intervenção hoje ou então chegaremos a Gaza amanhã”, aponta o ativista.
Dentro da embarcação há neste momento a consciência de que estão a atravessar uma zona de alto risco. A flotilha está ao largo de Port Said, no Egito, e a 90 milhas náuticas de Gaza. “Entrámos numa zona de alerta máxima, já tivemos uma intervenção por parte das forças israelitas ontem à noite”, revela, explicando que a embarcação foi alvo de uma “ação de intimidação”. “Bloquearam as nossas comunicações e fizeram manobras perigosas que puseram em risco a segurança de alguns dos navios e depois foram-se embora.”
A flotilha Global Sumud é composta por mais de 40 barcos civis e transporta mais de 500 pessoas. Na semana passada, os barcos foram atingidos por drones armados com granadas de atordoamento e substâncias irritantes enquanto navegavam nas águas internacionais da Grécia.
Depois disto, os governos de Itália e Espanha enviaram meios navais para dar assistência às embarcações. Esse auxílio já foi entretanto desmobilizado. “Na verdade, já deram meia volta, já se foram embora, não passaram das 150 milhas de Gaza”, explica Miguel Duarte. “Por muito que o bloqueio seja ilegal, estas embarcações ainda assim rejeitaram andar por águas internacionais para proteger a ajuda humanitária que deve chegar a Gaza.”
Além disso, “instaram-nos a voltar para trás - portanto, de algum modo tentaram sabotar a nossa missão”. Nos últimos dias, o Governo italiano anunciou que iria parar de acompanhar a flotilha e Giorgia Meloni chegou a sugerir que a missão humanitária era uma tentativa de perturbar o plano de paz proposto por Donald Trump. “Receio que a tentativa da flotilha de romper o bloqueio naval israelita possa servir de pretexto para isso”, afirmou Meloni.
Também o Governo de Luís Montenegro afirmou que, nas últimas horas, há um “registo de perigosidade”, mas considerou que o seu executivo fez “aquilo que era adequado”. Um dia antes, o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez um apelo aos ativistas portugueses para que se “mantenham em águas internacionais”. “Sem pôr em causa o respeito pela autonomia individual, deixamos este novo apelo e recordamos que há disponibilidade efetiva para fazer chegar a Gaza a ajuda humanitária que transportam através de Chipre.”
Interpelado sobre se houve contactos com o Governo de Israel no sentido de proteger os cidadãos nacionais que integram esta iniciativa humanitária, o primeiro-ministro respondeu que há “uma preocupação em garantir que não há nenhum acidente e que a segurança destas pessoas não é posta em causa”.
Ao mesmo tempo, as autoridades israelitas já avisaram que vão tomar “todas as medidas necessárias” para impedir que o conjunto de embarcações chegue a Gaza e já sugeriu que os membros da missão têm ligações ao Hamas, acusação já desmentida pelo grupo. “Neste momento, a violência com que Israel vai intervir não depende de nós, depende dos nossos governos. Portanto, se os nossos Estados não intervierem, Israel pode entender que não tem nenhum custo político em fazer-nos mal e entrará de forma violenta; se entender que os nossos governos se atravessarão, então pensará duas vezes”, afirma Miguel Duarte, acrescentando: “Neste momento, está fora das nossas mãos”.
Neste momento, os ativistas e políticos a bordo da flotilha estão a preparar-se para uma intervenção mais musculada de Israel numa derradeira tentativa de impedir que a missão chegue à Faixa de Gaza. Miguel Duarte diz que não há até ao momento qualquer garantia de segurança para quem está a bordo. “Na verdade, não existe nada que esteja garantido em termos de segurança para nós próprios. Esperamos que o custo político de nos fazer mal seja demasiado alto para Israel o aceitar, mas não sabemos.”
Há cerca de um mês em navegação - e com o objetivo de romper o bloqueio israelita e entregar mantimentos à Faixa de Gaza -, a flotilha transporta consigo comida infantil, farinha, arroz, fraldas, produtos sanitários femininos, kits de dessalinização de água, suprimentos médicos, muletas e próteses infantis. Nenhum dos alimentos foi até ao momento descartado. “Transportamos essencialmente bens não perecíveis. A ajuda humanitária que transportamos para Gaza não está em risco de apodrecer, isso não é um problema.”
A Flotilha Global Sumud é considerada a maior flotilha organizada até ao momento. Entre os participantes de mais de 40 nacionalidades constam três portugueses: a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, o ativista Miguel Duarte e a atriz Sofia Aparício.
