Aviso: este artigo contém descrições de extrema violência. Porque relata factos de extrema violência em Gaza. Esta é uma grande investigação CNN: "Quem levantasse a cabeça seria baleado"
"Morte e fome": vídeos, análises de especialistas e testemunhas apontam para tiros israelitas no local de ajuda humanitária em Gaza
por Yahya Abou-Ghazala, Jeremy Diamond, Abeer Salman, Gianluca Mezzofiore, Mohammad Al-Sawalhi e Madalena Araújo (vídeo editado por Oscar Featherstone em Londres. Tareq Al Hilou, em Gaza, contribuiu para esta reportagem)
nota do editor sobre as imagens que abrem este artigo (há uma versão longa mais em baixo): Ameen Khalifa, 30 anos, filmou-se a si mesmo e a outras pessoas a protegerem-se quando foram disparados tiros perto da rotunda Al-Alam, no domingo, próximo de um local de ajuda humanitária. Um dos amigos de Khalifa disse à CNN que ele voltou ao local na terça-feira para recolher ajuda humanitária e foi morto
Uma investigação da CNN sobre um incidente mortal perto de um local de distribuição de ajuda humanitária no sul de Gaza no domingo aponta que as forças armadas israelitas abriram fogo contra uma multidão de palestinianos que tentava chegar ao recinto cercado para obter alimentos.
Mais de uma dúzia de testemunhas oculares, incluindo feridos no ataque, dizem que as tropas israelitas dispararam rajadas de tiros contra a multidão - e que isso ocorreu esporadicamente durante as primeiras horas da manhã de domingo. A Fundação Humanitária de Gaza (GHF na sigla em Inglês), iniciativa de ajuda humanitária apoiada pelos EUA e Israel que administra o local, afirma que as forças israelitas estavam a operar na área durante o mesmo período.
Especialistas em armas referem que a cadência dos tiros ouvidos nas imagens, bem como as imagens das balas recuperadas das vítimas, são consistentes com as metralhadoras utilizadas pelo exército israelita que podem ser montadas em tanques. Várias testemunhas oculares revelam ter visto tiros provenientes de tanques israelitas nas proximidades.
Nenhum dos vídeos mostra definitivamente quem disparou tiros fora do campo de ajuda humanitária. No entanto, a análise da CNN do material audiovisual lança uma nova luz sobre como a busca por ajuda se tornou caótica e depois perigosa, sobre as ações das forças israelitas e as consequências do novo mecanismo de ajuda, que tem sido alvo de controvérsia.
As Forças de Defesa de Israel (IDF na sigla em Inglês) afirmaram inicialmente no domingo que as suas forças não dispararam contra civis "enquanto eles estavam perto ou dentro do local de ajuda humanitária". Uma fonte militar israelita reconheceu posteriormente que as tropas tinham disparado "tiros de aviso" contra suspeitos a cerca de 1 km de distância.
O exército israelita recusou-se a responder às perguntas da CNN.
Durante uma conferência de imprensa na terça-feira, o porta-voz das IDF Effie Defrin disse que o exército investigou e concluiu que as suas tropas não tiveram qualquer papel em qualquer evento com vítimas em massa. Defrin disse assim: “Esta semana foi alegado que as IDF dispararam contra civis numa área de distribuição de ajuda humanitária. Esta notícia é totalmente falsa e ecoa a propaganda da organização terrorista Hamas... Em relação ao incidente de domingo – simplesmente não aconteceu!”.
Defrin também sugeriu que os números de vítimas fornecidos pelo Ministério da Saúde palestiniano foram exagerados, mas não especificou quantas pessoas o exército acreditava terem sido mortas ou feridas.
O tiroteio em massa de domingo, que segundo o Ministério da Saúde palestiniano matou pelo menos 31 palestinianos e feriu dezenas, foi o incidente mais mortal envolvendo a distribuição de ajuda humanitária nos últimos meses. Isto ocorre no meio dos alertas da Organização das Nações Unidas de que o novo mecanismo de distribuição de ajuda humanitária tornou uma “armadilha mortal” para pessoas desesperadas em busca de comida na faixa.
Milhares de palestinianos famintos reuniram-se na área arenosa e destruída por escavadoras perto do local gerido pela GHF antes da abertura dos portões no domingo, enfrentando cenas caóticas quando tiros atingiram a multidão.
"Ninguém se mexa, fiquem no vosso lugar... ninguém se mexa!", ouve-se um palestiniano gritar numa série de vídeos publicados no TikTok no domingo, filmados ao longo da costa, onde multidões se reuniram perto do local de ajuda.
Os vídeos — analisados e geolocalizados pela CNN — mostram palestinianos a protegerem-se dos repetidos tiros e o que parecem ser duas munições explosivas a cair perto da multidão.
Mohammed Saqer, 43 anos, conta à CNN que escapou por pouco da morte, vendo pessoas ao seu redor serem baleadas na cabeça enquanto se agachava no chão, na esperança de sobreviver o tempo suficiente para chegar ao local administrado pela GHF e conseguir comida para sua família.
Depois de a fundação privada apoiada pelos EUA ter finalmente aberto o local, pelas 05h, testemunhas relatam que os tiros do exército israelita continuaram nas proximidades. Imagens de vigilância compartilhadas pela GHF mostram multidões de palestinianos a correr para alcançar as caixas limitadas de comida, enquanto tiros explodem no céu noturno à distância.
Ao amanhecer, a extensão da catástrofe era inegável. Vídeos capturaram corpos ensanguentados de palestinianos espalhados pela areia, a cerca de 800 metros do centro de distribuição de alimentos.
Incidentes mortais semelhantes na segunda e terça-feira perto do mesmo local levantaram mais questões sobre se a iniciativa de ajuda militarizada apoiada pelos EUA e aprovada por Israel pode entregar suprimentos alimentares com segurança. Nos episódios subsequentes, as IDF reconheceram que as tropas israelitas tinham disparado tiros de aviso na área. A GHF disse que nenhum dos tiroteios ocorreu dentro ou nas proximidades dos seus locais de distribuição, acrescentando que o local dos tiroteios era "uma área bem além do nosso local de distribuição seguro".
Para Saqer, que disse ter conseguido finalmente chegar ao local da ajuda e ter escapado com tudo o que conseguiu carregar, a noite angustiante ainda pesa sobre ele.
“Sobrevivemos a uma noite que foi pior do que poderíamos imaginar. A realidade para as pessoas era de morte e fome em busca de comida.”
Vídeos capturam caos mortal
Quando a GHF anunciou seus planos de distribuição para domingo, as instruções foram diretas: apenas um local de ajuda humanitária estaria aberto a partir das 5h da manhã e as IDF estariam presentes na área para garantir a passagem numa rota designada.
A GHF também alertou – embora depois de já terem ocorrido tiroteios – que as forças armadas israelitas estariam "ativas" na área antes da abertura do local.
"É proibido utilizar a passagem antes das 5h, pois fomos informados pelos militares que estarão ativos na área antes e depois do horário seguro especificado", disse o GHF num comunicado no Facebook às 4. "Lembramos a todos os residentes que permaneçam na estrada — desviar-se dela representa um perigo significativo."
DEZENAS DE PALESTINIANOS FORAM MORTOS NO DOMINGO PERTO DE UM LOCAL DE AJUDA HUMANITÁRIA NO SUL DE GAZA
As Forças de Defesa de Israel (IDF) inicialmente negaram ter disparado contra civis perto do local de ajuda da Gaza Humanitarian Foundation. A organização, apoiada pelos EUA, tem distribuído ajuda desde o final de maio, mas os seus esforços foram marcados pelo caos e pela violência. Uma fonte militar israelita reconheceu que as forças das IDF tinham aberto fogo contra suspeitos a cerca de 1 quilómetro do local antes da sua abertura
Depois de suportarem um bloqueio israelita de 11 semanas à ajuda humanitária, milhares de palestinianos desesperados começaram a dirigir-se para a rua Al-Rasheed, na esperança de serem os primeiros a chegar ao local da ajuda humanitária – o único em funcionamento em toda a Faixa de Gaza naquele dia –, antes que os suprimentos limitados se esgotassem.
Enquanto as pessoas tentavam avançar lentamente em direção ao local de ajuda a partir da rotunda Al-Alam, mais de uma dúzia de testemunhas entrevistadas pela CNN descreveram que as IDF abriram fogo intenso contra a multidão a partir das 3h30.
"Eu podia ouvir os gritos dos jovens e de outras pessoas feridas", diz Saqer. "À minha frente estavam quatro jovens com ferimentos diretos na cabeça. Havia uma pessoa ao meu lado que foi ferida por uma bala no olho."
Saqer e outros disseram que um drone quadricóptero apareceu acima da multidão, com uma voz no altifalante a dizer às pessoas para se virarem. Mas, em meio ao aviso, tiros ecoavam ao redor deles.
“Até mesmo recuar era quase impossível e estavam todos deitados no chão, incapazes de levantar a cabeça, porque quem levantasse a cabeça seria baleado."
Enquanto o caos se desenrolava perto da área de Al-Alam, o centro de ajuda da GHF abriu oficialmente às 5h. O vídeo de segurança do local divulgado pela organização, que foi rotulado como tendo começado às 5h02, mostra multidões de palestinianos a correrem para o centro de distribuição cercado.
Três minutos depois, no fundo do vídeo que disponibilizamos a seguir a este parágrafo veem-se rajadas de tiros traçantes no céu que, segundo peritos forenses ouvidos pela CNN, parecem ter partido de uma área próxima do local de distribuição. No vídeo, que não tem áudio, vê-se multidões a correrem noutra direção nas proximidades. Não é claro se estão a fugir dos tiros.
Vídeo divulgado pela GHF mostra multidões de palestinianos a chegar ao local da ajuda humanitária na manhã de domingo enquanto tiros traçantes são vistos no céu acima vídeo da GHF
Na mesma altura, na zona de Al-Alam, a cerca de 800 metros de distância, Ameen Khalifa, de 30 anos, filmava enquanto se protegia. Vários vídeos partilhados no TikTok por Khalifa mostram grupos de palestinianos deitados no chão a protegerem-se das rajadas contínuas de tiros automáticos. A CNN geolocalizou o vídeo na área usando holofotes visíveis na fronteira egípcia e o hospital inacabado que se tornou uma base militar israelita.
Robert Maher, professor de engenharia elétrica e informática na Universidade Estadual de Montana e especialista em análise forense de áudio, examinou as imagens para a CNN e diz que as rajadas de tiros tinham uma cadência de 15 e 16 tiros por segundo (ou 900 e 960 por minuto), disparados a uma distância de cerca de 450 metros.
Com base na natureza irregular do som, Maher disse que os tiros pareciam estar a ser disparados repetidamente numa direção. "Como os estalos são irregulares, parece mais que os tiros foram disparados sobre a área."
Trevor Ball, ex-membro sénior da equipa de remoção de explosivos do Exército dos EUA, diz que a cadência de tiro era consistente com a FN MAG, uma metralhadora muito usada no arsenal militar israelita. A FN MAG é comummente equipada nos tanques Merkava das IDF, que várias testemunhas oculares dizem ter visto a abrir fogo contra a multidão.
Ball refere à CNN que não podia confirmar o armamento específico usado, nem quem o disparou, mas a cadência de tiro, diz, indica que não era consistente com as metralhadoras usadas pelo Hamas.
Ball também afirma que o fogo traçante — munição que contém uma carga pirotécnica que ilumina a sua trajetória — visto nas imagens da GHF é consistente com o uso de metralhadoras. "Normalmente, as metralhadoras alimentadas por correia têm balas traçantes inseridas a cada poucas balas. Portanto, embora apenas três traçantes sejam visíveis no vídeo, mais balas foram disparadas."
Khalifa, que adorava desporto e musculação, sobreviveu à noite angustiante de domingo, mas foi baleado e morto por um drone dois dias depois enquanto se dirigia ao mesmo local de ajuda humanitária para procurar comida, diz à CNN um dos seus amigos próximos.
À luz do dia, imagens de vídeo analisadas pela CNN capturaram a cena terrível perto da costa, com vários corpos espalhados na areia. O Ministério da Saúde palestiniano refere que mais de 200 vítimas chegaram aos hospitais, incluindo dezenas com ferimentos graves. Acrescenta que todos os mortos tinham sido baleados na cabeça ou no peito.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha diz que o seu hospital de campanha nas proximidades estava sobrecarregado de pacientes, descrevendo a carnificina como o "maior número de feridos por armas num único incidente" desde que abriu há mais de um ano. Outros mortos e feridos foram levados para o Hospital Nasser.
"É difícil descrever o que vimos com os jovens e os idosos, havia ferimentos graves na cabeça, ferimentos graves no pulmão", recorda Ahmad Abou-Sweid, um australiano que trabalha no complexo médico Nasser.
"Havia uma grande proporção de ferimentos na cabeça causados por tiros."
Os médicos que trabalham no Hospital Nasser partilharam com a CNN fotos das balas retiradas dos pacientes feridos e mortos no ataque que, segundo especialistas em armas, parecem corresponder ao tipo de munição usada nas metralhadoras do exército israelita. “Esta bala é consistente com o padrão da OTAN 7,62 mm M80, que seria disparada por armas IDF 7,62x51 mm, incluindo a Negev 7,62 e a FN MAG”, diz Ball sobre uma das imagens.
A GHF, que administra o local, insiste: “Não houve tiroteio no centro (de distribuição) nem na área circundante.”
“Toda a ajuda foi distribuída hoje sem incidentes. Soubemos que essas notícias falsas foram ativamente fomentadas pelo Hamas. Elas são falsas e inventadas.”
As IDF dizem que as alegações de que soldados israelitas atiraram sobre habitantes de Gaza perto ou dentro do local de distribuição de ajuda humanitária são “notícias falsas”. Acrescenta: “As conclusões de uma investigação inicial indicam que as IDF não atiraram em civis enquanto eles estavam perto ou dentro do local de distribuição de ajuda humanitária e que as notícias nesse sentido são falsas.”
Uma fonte militar israelita afirma à CNN que as tropas das IDF dispararam tiros de aviso contra suspeitos que se aproximavam da sua posição a aproximadamente um quilómetro (1100 metros) do local de distribuição de ajuda, num incidente que ocorreu várias horas antes da abertura do local.
Ihab Musleh conta à CNN que tinha levado os seus dois filhos pequenos ao centro de distribuição de ajuda. Quando lhes disse para ficarem numa colina próxima enquanto ele entrava no local, ouviu mais tiros e correu de volta para fora.
Yazeed, de 13 anos, foi baleado no estômago por um tanque israelita e sobreviveu aos ferimentos, segundo o pai.
"Ele estava a acenar com as mãos para o tanque e, em segundos, foi atingido por tiros e caiu no chão", diz Musleh, falando à CNN do hospital onde o filho estava a ser tratado.
Outras testemunhas revelam à CNN que ficaram feridas ou viram tiros intensos na área após a abertura do local de ajuda humanitária.
Mohammad Abu Rezeq foi baleado no estômago ao chegar a Al-Alam, onde disse que as forças israelitas estavam deliberadamente a visar a multidão.
“Eu vi muitos soldados nesta guerra. Quando eles querem limpar uma área ou avisar, eles atiram ao nossos redor. Mas ontem eles estavam a atirar para nos matar”, diz Abu Rezeq.
A CNN perguntou às IDF sobre a alegação das testemunhas de que suas tropas estavam a atirar diretamente sobre multidão, a atirar para matar, mas não obteve nenhum comentário além da declaração publicada anteriormente.
Não é um incidente isolado
O caos nas primeiras horas da manhã de domingo não foi um incidente isolado. Nos dias seguintes, palestinianos que tentavam chegar aos locais de distribuição de ajuda da GHF foram alvejados pelas forças armadas israelitas.
Após o intenso tiroteio perto da rotunda de Al-Alam no domingo, as publicações da GHF no Facebook incluíram mapas atualizados da rota segura para os dias seguintes. Os novos mapas incluíam um grande sinal de stop vermelho em Al-Alam.
Na terça-feira, quase 30 pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas enquanto se dirigiam aos locais de ajuda em Tel al-Sultan, em Rafah, de acordo com o Ministério da Saúde palestiniano e o Hospital Nasser.
As forças armadas israelitas disseram que suas tropas abriram fogo várias vezes após identificarem “vários suspeitos que se moviam em direção a elas, desviando-se das rotas de acesso designadas”.
“As tropas realizaram tiros de advertência e, após os suspeitos não recuarem, tiros adicionais foram direcionados para alguns suspeitos individuais que avançaram em direção às tropas”, dizem as IDF num comunicado, acrescentando que estavam a investigar relatos de vítimas.
Embora as forças armadas israelitas tenham reconhecido ter disparado tiros de advertência na área por três dias consecutivos, as publicações da página do Facebook da GHF mostram que a organização trabalha em estreita coordenação com as IDF para estabelecer rotas seguras e definidas.
A GHF foi criada após as acusações israelitas de que o Hamas está a roubar ajuda em Gaza e a lucrar com as vendas, embora Israel não tenha apresentado publicamente nenhuma prova para provar essa alegação.
Grupos de ajuda da ONU, como a UNRWA, normalmente verificam a identificação e contam com um banco de dados de famílias registadas ao distribuir ajuda.
Mas a GHF não está a fazer a triagem dos palestinianos nos locais de distribuição de ajuda, apesar de as autoridades israelitas afirmarem que medidas de segurança adicionais foram a principal razão para a criação do novo programa.
Agências de ajuda da ONU criticaram o mecanismo de ajuda da GHF, dizendo que viola princípios humanitários e aumenta os riscos para os palestinianos.
As críticas têm aumentado contra Israel e a GHF depois do ter eclodido na semana passada, quando dezenas de milhares de palestinianos famintos chegaram a dois novos locais de distribuição de alimentos.
O chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, foi contundente na avaliação que fez ao Conselho de Segurança da ONU, no final do mês passado. “Isso restringe a ajuda a apenas uma parte de Gaza, enquanto deixa outras necessidades urgentes sem atendimento. Isso condiciona a ajuda a objetivos políticos e militares. Transforma a fome numa moeda de troca. É um espetáculo cínico. Uma distração deliberada. Uma fachada para mais violência e deslocamento.”