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"Nem que tenha de fugir com todos". Sónia tem seis meses para arranjar um teto para 150 gatos

8 jun, 08:00

A Associação Aldeia dos Gatos de Sintra não pode continuar no atual espaço, que outrora funcionou como ATL para crianças. As autoridades exigem uma área exterior para os animais, mesmo numa espécie habituada a estar dentro de casa. Não há verbas para encontrar um novo local. A Câmara de Sintra deixa uma garantia: se não for possível uma solução, arranjará alojamento para os animais, distribuindo-os por outros abrigos e associações. A mesma autarquia que, há meses, pediu ajuda à responsável Sónia Martins para recolher animais que estavam maltratados

Leo é um dos mais antigos na Aldeia dos Gatos de Sintra. Está por aqui há quatro anos. Andava na rua, mas teve de ser operado a uma hérnia nervosa. Sónia Martins, responsável pelo abrigo, foi aconselhada pelo veterinário a não deixá-lo voltar à rua. Bastaria ter de fugir de um cão para, com o esforço, ter a vida em risco.

Estas é uma das muitas histórias que se cruzam neste espaço na Tapada das Mercês. Foi outrora um ATL para crianças, agora é um abrigo de gatos. Há quem tenha sido abandonado, há quem tenha ficado sozinho após a morte dos donos, há quem tenha sido criado num galinheiro. Sim, há pessoas que criam gatos em galinheiros.

Sónia Martins sabe o nome de cada um dos 150 animais de que cuida. E é por saber tão bem as suas histórias que os últimos tempos têm sido de desespero. É que Sónia tem seis meses para encontrar um novo espaço para o abrigo. Nos arredores, a um preço que a associação consiga suportar, cumprindo todas as exigências das autoridades, não há nada disponível.

“Sou uma pessoa lutadora, tenho sempre uma coisa em mente, sempre um projeto, mas desta vez estou a bloquear. Não sei por onde começar”, conta a responsável à CNN Portugal.

A exigência de um espaço exterior

Tudo começou quando a Aldeia dos Gatos de Sintra foi alvo de uma vistoria do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e da Câmara Municipal de Sintra a 14 de maio, na sequência de uma queixa. Isto porque, conta Sónia Martins, fez um direto no Facebook em que mostrava Laurinha, uma gata com cancro, e com sinais dessa mesma doença.

Durante a vistoria, as autoridades perceberam que a associação, a funcionar há quatro anos, “não possuía número de identificação” e que existiam “inconformidades quanto às condições de manutenção e bem-estar dos animais”, segundo explicam o ICNF e a Câmara de Sintra à CNN Portugal.

“Foi determinado um período para a regularização e cumprimento dos requisitos supra identificados, necessários para o exercício da atividade de exploração de alojamento sem fins lucrativos, nomeadamente destinado ao acolhimento e adoção de gatos”, adianta ainda fonte oficial do ICNF.

“Não estávamos com o licenciamento em dia. Já devíamos ter feito. Mas somos voluntários e o tempo é muito curto para fazermos tudo. Foi falha nossa. Não temos sala de recobro, temos uma enfermaria que é na cave e não é suficiente. E não temos um parque exterior”, confirma Sónia Martins.

E é esta última exigência que está a tornar tudo mais difícil. As regras ditam a necessidade de um espaço exterior - não necessariamente ao ar livre, mas, por exemplo, de um alpendre vedado com redes. Mesmo para animais como os gatos, que estão mais habituados a espaços interiores.

“Aqui, um parque exterior é impossível. Ninguém me vai deixar alongar a estrutura do prédio”, justifica Sónia Martins. Depois de procurar, sem encontrar, espaços que pudesse arrendar pelo mesmo preço do atual, 800 euros, a responsável também foi ver os preços de terrenos nos arredores. Começa “tudo nos 250 mil euros”, um valor impossível para uma associação que vive apenas de donativos.

Garantia da Câmara: gatos não vão para a rua

E daí o apelo para que alguém possa ajudar com um espaço que respeite todas as regras exigidas, seja cedido ou arrendado pelo mesmo valor que é pago atualmente. “Não quero perder este sonho, foi muita luta para chegarmos até aqui.”

Embora diga que, à falta de solução, acabariam por “ir todos para a rua”, a cuidadora sabe que nunca conseguiria chegar a essa etapa. “Isso não fazia. Vou ser o mais sincera possível: nem que tenha de fugir com eles todos. Para a rua não ia deixar que eles fossem. São os meus filhos. Tenho animais aqui comigo há quatro anos, quase cinco. Era impossível para mim abandonar um animal”, reflete.

Questionada sobre a possibilidade de estes animais acabarem sem teto, a Câmara Municipal de Sintra deixa uma garantia à CNN Portugal: está disponível para trabalhar com a associação na busca de uma solução. Numa reunião a 24 de maio, explica fonte oficial, a “associação foi informada pela autarquia dos procedimentos que deve levar a cabo para viabilizar a utilização do espaço com o funcionamento pretendido”.

Mas, se este caminho se revelar de todo impossível, dada a incapacidade de alterar o atual espaço e os reduzidos recursos financeiros da associação, a autarquia manifesta a sua “disponibilidade para encontrar alternativas em terrenos municipais”.

E deixa uma garantia: os 150 gatos não vão parar à rua. “Se a situação não for ultrapassada, o município, como sempre acontece nestas situações, encontrará soluções de alojamento adequado para os cerca de 150 gatos de que a associação é detentora”, responde fonte oficial.

Evitar a separação

É uma resposta que ajuda a tranquilizar Sónia Martins, mas que está longe de a deixar satisfeita. Isso implicaria que os animais fossem distribuídos por outros abrigos ou associações, tendo de se habituar a uma nova realidade.

“Temos animais que sofreram muito com a perda da família, fizemos de tudo para que eles não entrassem em depressão. Estar a mudá-los para outro sítio, eles entram em depressão. Há animais que morrem com depressão”, argumenta. Uma coisa é irem para uma família, outra é entrarem num novo abrigo e terem de iniciar um contacto com animais desconhecidos.

Sobre a disponibilidade da autarquia para ceder um terreno, Sónia Martins admite que isso pode significar “começar do zero”. “O vereador avisou logo que o terreno podia ser dado muito fora aqui da zona, no meio do mato. Só agora é que estamos a conseguir ter os voluntários certos. Se mudarmos de sítio, fico sozinha outra vez. É começar do zero. Não é fácil arranjar voluntários.”

Apesar de só agora a autarquia e o ICNF terem alertado para as falhas na Associação Aldeia dos Gatos de Sintra, a responsável lembra que todas as partes trabalham em conjunto há muito. “Só no ano passado tivemos aqui 16 gatos deles. A câmara pediu-nos ajuda para recolhê-los. Eram de uma acumuladora.” Já o ICNF deu apoios de seis mil euros a este abrigo.

A Associação Aldeia dos Gatos de Sintra, com cerca de dezena de voluntários, vive exclusivamente de donativos e apoios. Tem custos mensais de quatro mil euros: 800 para renda, 120 para luz, 180 para água, 50 para internet, 500 para limpeza e 2200 euros para comida, a que se juntam depois despesas com veterinários.

“Esta associação era um sonho. E continua a ser um sonho”, conclui Sónia Martins. Na noite da última passagem de ano, a cuidadora passou a meia-noite no abrigo. “Vieram rebentar foguetes para esta rua. Fiquei com receio do que podia acontecer com os animais”. Mal sabia ela, na altura, como esse receio podia ganhar uma outra escala.

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