A primeira vez que Mwezi Mugerwa viu o gato-dourado africano, não sabia o que era.
Enquanto analisava imagens captadas por armadilhas fotográficas, no Parque Nacional da Floresta Impenetrável de Bwindi, no Uganda, o biólogo conservacionista avistou uma criatura desconhecida, cerca de duas vezes maior do que um gato doméstico, nas imagens granuladas a preto e branco.
Nenhum dos seus colegas conseguiu identificá-la. “Mas, quando falei com os caçadores e com as comunidades que vivem em redor do parque, eles conheciam a espécie”, recorda Mwezi Mugerwa.
Conhecido localmente como Embaka, o “enigmático” gato-dourado era frequentemente apanhado acidentalmente em armadilhas colocadas na floresta.
“Isto foi realmente preocupante para mim. Podemos perder esta espécie antes mesmo de chegarmos a conhecê-la”, diz o biólogo.
Nos últimos 16 anos, Mwezi Mugerwa dedicou a sua carreira ao “felino de grande porte menos conhecido, menos compreendido e menos estudado de África”. Encontrada em florestas tropicais densas da África Central e Ocidental, a espécie é tão esquiva que a última avaliação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) - com mais de uma década - não apresenta estimativas populacionais.
Ao longo de todos os seus anos de trabalho de campo, Mwezi Mugerwa conseguiu apenas vislumbrar o gato-dourado africano três vezes com os próprios olhos. A União Internacional para a Conservação da Natureza, a maior rede mundial de organizações governamentais e da sociedade civil dedicadas ao ambiente, acompanha o estado das espécies ameaçadas.
“São realmente, mesmo muito difíceis de ver na natureza”, afirma Mwezi Mugerwa, que recebeu no início deste ano o prémio Indianapolis Prize Emerging Conservationist Award, pelo seu trabalho com a espécie.
Mas, ao perceber que contar com precisão estes felinos era o primeiro passo para os proteger, decidiu realizar o primeiro censo populacional em toda a área de distribuição da espécie, cuja publicação está prevista para o próximo ano.
Contar gatos
Mwezi Mugerwa sabia que recolher dados sobre o gato-dourado africano não era algo que pudesse fazer sozinho. Assim, em 2019, fundou a African Golden Cat Conservation Alliance (AGCCA), uma rede de 46 conservacionistas em 19 países.
Em conjunto, lançaram um levantamento padronizado com armadilhas fotográficas em toda a área suspeita de distribuição da espécie, com apoio financeiro da National Geographic Society.
Mas rever manualmente milhares de imagens provenientes de 30 locais em 19 países - a maior rede de armadilhas fotográficas alguma vez utilizada para uma espécie de vida selvagem africana, segundo Mugerwa - “foi realmente, mesmo muito doloroso”.
Ao mesmo tempo, a Panthera, uma organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos e outra das colaboradoras de Mwezi Mugerwa, estava a desenvolver um algoritmo de Inteligência Artificial capaz de organizar rapidamente as imagens e identificar gatos individuais com base nos seus padrões únicos de pelagem, de forma semelhante à utilização das riscas dos tigres como impressões digitais.
“Isto é realmente importante, porque agora conseguimos falar de números e densidade”, diz o biólogo, acrescentando que, sem IA, distinguir indivíduos seria quase impossível devido ao seu pequeno tamanho e às marcações subtis.
Os dados preliminares sugerem que a espécie existe em baixas densidades -mesmo em habitats protegidos. No Uganda e no Gabão, por exemplo, os levantamentos encontraram apenas 16 indivíduos por cada 100 quilómetros quadrados.
Os estudos também revelaram o verdadeiro impacto da caça furtiva: em áreas com restrições à caça, as populações de gatos eram até 50% mais elevadas e apresentavam uma distribuição mais ampla. A investigação mostrou ainda que, embora os gatos sejam ativos tanto de dia como de noite, muitos são estritamente noturnos - provavelmente para evitar a atividade humana durante o dia, acrescenta Mwezi Mugerwa.
Ação comunitária
Estabelecer números populacionais foi apenas o primeiro passo. No início da sua investigação, Mwezi Mugerwa percebeu que a caça era a principal ameaça à espécie.
Na África Oriental, onde Mwezi Mugerwa está sedeado, o gato-dourado africano raramente é o alvo direto dos caçadores. No entanto, as armadilhas para carne de caça, colocadas para capturar porcos selvagens e antílopes, são indiscriminadas e acabam frequentemente por apanhar outras espécies de forma acidental. Em 2019, Mwezi Mugerwa recebeu relatos de 80 gatos-dourados capturados em armadilhas em três florestas do Uganda, dos quais 88% foram capturas acidentais.
“Estamos a lidar com uma crise da carne de caça: o nível de caça que está a ocorrer nesta floresta é insustentável e está fora de controlo”, afirma, acrescentando que “a espécie está a ser empurrada para a beira da extinção em muitos dos países da sua área de distribuição”.
Para combater a maior ameaça à espécie, Mwezi Mugerwa foi diretamente às comunidades locais, criando o Embaka: o primeiro projeto de conservação comunitária contra a caça furtiva focado no gato-dourado africano.
Trabalhando com mais de 8 mil famílias em toda a área de distribuição da espécie - incluindo no Gabão, Angola, República Democrática do Congo, Sudão do Sul e Uganda - o projeto envolve as comunidades locais, muitas das quais são ex-caçadores furtivos, na instalação de armadilhas fotográficas e na comunicação de avistamentos.
“Aprendemos muito com as comunidades locais. A expansão da área de distribuição, por exemplo, resulta em parte de dados fornecidos por caçadores”, diz Mwezi Mugerwa. O Embaka oferece incentivos como cuidados dentários e apoio à criação de gado para encorajar as comunidades a “denunciar a caça” e a proteger o ecossistema florestal.
Integrar antigos caçadores não só reduz a ameaça que os gatos enfrentam devido à caça, como também “melhora a relação entre o gato-dourado africano e as comunidades”, afirma o investigador.
“Isto também permite que as comunidades locais se apropriem e façam parte da rede de armadilhas fotográficas, o que é realmente bonito de ver”, acrescenta.