Um ano e meio depois, quanto custou Jorge Jesus ao Benfica? Uma análise às contas - que não são boas

28 dez 2021, 17:46

Foi com o treinador português que o Benfica teve alguns dos piores resultados desportivos dos últimos anos. A isso juntaram-se balanços financeiros desastrosos, que não podem ser explicados apenas pela pandemia e pela saída de Luís Filipe Vieira

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Contratado a 3 de agosto de 2020 para fazer o Benfica regressar aos títulos, Jorge Jesus rapidamente impôs o seu estilo na Luz. Uma grande aposta financeira, a contrastar com um vazio da formação, voltaram a ser apanágio do treinador português, que chegou a Lisboa depois de um enorme sucesso no Flamengo.

Se na primeira passagem pelo Benfica, entre 2009 e 2015, Jorge Jesus ficou conhecido por ser um treinador caro, a essa faceta conseguiu juntar um lado ganhador, lado esse que, desta vez, não chegou a aparecer. Menos de ano e meio depois de ser contratado, o técnico sai pela porta pequena, depois de uma derrota clara no Estádio do Dragão, de várias polémicas com jogadores e com uma eventual vontade de regressar ao Flamengo.

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A rutura deu-se esta terça-feira, quando os jogadores se colocaram ao lado de Pizzi, um dos capitães, e se recusaram a treinar.

Nesta segunda passagem pelo Benfica, e com vários problemas pelo meio – como a covid-19 ou a saída de Luís Filipe Vieira –, Jorge Jesus sai sem títulos mas deixa uma fatura financeira pesada.

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Comparando os números do Relatório e Contas de 2021 com o de 2020, algo fica claro: a folha salarial do Benfica subiu de 85 para 97 milhões de euros (14%) e as receitas caíram de 140 para 94 milhões (33%). Com o investimento realizado, o valor líquido do plantel aumentou de 103 para 146 milhões (41%) mas os ganhos líquidos com transações de jogadores caíram de 126 para 88 milhões (quase 30%). O investimento fez o passivo subir de 325 para 380 milhões (17%), reduzindo o (ainda sólido) capital próprio de 161 para 144 milhões (11%), depois de os lucros de 42 milhões de 2020 se terem transformado em prejuízos de 17,5 milhões em 2021.

Fazendo as contas, 2021 é o ano com o segundo passivo mais elevado dos últimos 10 anos, só superado pelos 385,5 milhões de euros de 2016. Trata-se também do ano com menos receitas desde 2015 – curiosamente o último de Jorge Jesus na Luz.

O Benfica justifica estes resultados com “o forte investimento efetuado no reforço do plantel para a época 2020/21 e os efeitos associados à pandemia da covid-19”. Mas não é só por aí. A época de 2020/2021 voltou a ser feita de um fracasso europeu: o Benfica não conseguiu alcançar a fase de grupos da Liga dos Campeões, tendo perdido com o PAOK no play-off de acesso. Acabou na Liga Europa, competição sem grande expressão financeira, onde caiu na primeira fase a eliminar após a fase de grupos.

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Além da ausência dos milionários prémios vindos da UEFA, o Relatório e Contas de 2021 refere também uma “diminuição de 21,6 milhões de euros [nas receitas televisivas], que representa um recuo de 24,7%, justificada pelo facto de não se ter alcançado a fase de grupos da Liga dos Campeões”.

Para perceber a importância deste facto, veja-se que, só em metade da época de 2021/22, e graças ao apuramento para os oitavos de final da Champions, o Benfica já ganhou mais de 54 milhões de euros, valor ao qual será acrescentada a receita de bilheteira, que na época transata não existiu, devido à pandemia. Note-se que, mesmo que não tivesse ido mais além na temporada anterior, o Benfica teria garantido cerca de 37 milhões de euros só por passar a fase de grupos (valor semelhante ao conseguido este ano).

De 2020 para 2021, e de acordo com os cálculos do clube encarnado, o Benfica passou de 48 milhões para 10 milhões de euros recebidos em prémios atribuídos pela UEFA. Houve ainda um impacto negativo nos patrocinadores, cuja receita decresceu cerca de 300 mil euros.

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Quantos aos gastos com pessoal, o Benfica passou de 85 para 97 milhões de euros, “sendo esta variação essencialmente explicada pelo aumento da massa salarial na sequência da forte aposta no reforço do plantel e da estrutura do futebol profissional”. O Relatório e Contas não discrimina os valores atribuídos a Jorge Jesus e à sua equipa técnica, mas os valores divulgados pela imprensa dão conta de que só o treinador principal terá arrecadado três milhões de euros líquidos nesse período (um total de seis milhões de euros brutos). A esse valor terá de acrescer o salário da presente época, que será igual, bem como os valores pagos à restante equipa técnica.

“Os gastos com pessoal ascendem a 97,1 milhões de euros, o que representa um crescimento de 13,3% face ao período homólogo, sendo esta variação essencialmente explicada pelo aumento da massa salarial na sequência da forte aposta no reforço do plantel e da estrutura do futebol profissional”, refere o Benfica.

É também no resultado financeiro de 2021 que se notam mais dois dados relevantes: o resultado líquido e o valor da dívida líquida.

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Quanto ao primeiro valor, que se cifrou num resultado negativo de 17,4 milhões de euros, é o pior dos últimos 10 anos, sendo também o primeiro resultado negativo desde 2013 (altura em que Jorge Jesus estava na Luz).

Já a dívida líquida, que em 2021 ascendeu a 100 milhões de euros, é um agravamento de 9%, sendo que esse valor descia há seis anos seguidos (a última subida tinha sido em 2014, também com Jorge Jesus).

“A Benfica SAD decidiu realizar um forte investimento no início da época 2020/21 com o regresso do treinador Jorge Jesus e com a contratação de jogadores de créditos firmados e internacionais pelas suas seleções, na expectativa de que essa aposta permitisse criar uma diferenciação perante aos restantes competidores e, desta forma, trazer um retorno desportivo que compensasse esse investimento. Contudo, por uma série de fatores, os resultados desportivos alcançados não atingiram os objetivos definidos, o que originou uma redução de receitas previstas e um aumento da estrutura de custos da Benfica SAD”, pode ler-se no comunicado benfiquista.

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O peso das transferências

Jorge Jesus sempre gostou de plantéis caros e recheados. Quem se lembra de Di María, Ramires, Aimar ou Saviola? Todos estavam na primeira equipa que o técnico orientou no Benfica, em 2009/10.

Neste regresso a Lisboa, a situação não foi diferente. Em apenas três janelas de transferências, o Benfica gastou cerca de 134 milhões de euros, 100 dos quais logo na primeira época. Nesta contabilização faltam os pagamentos de prémios de assinatura de jogadores como João Mário ou Jan Vertonghen, que não veem referidos no Relatório e Contas mais recente.

Aquisições de jogadores desde a chegada de Jorge Jesus

Jogador

Valor

Roman Yaremchuk

17 milhões de euros por 75% do passe

Soualiho Meité

6 milhões de euros*

Gil Dias

1,5 milhões de euros*

Nemanja Radonjic

1 milhão de euros**

Valentino Lázaro

Empréstimo (custo não especificado)

Darwin Núñez

25,02 milhões de euros

Éverton

22,005 milhões de euros

Pedrinho

17,098 milhões de euros

Nicólas Otamendi

15,158 milhões de euros

Luca Waldschmidt

16,017 milhões de euros

Lucas Veríssimo

6,839 milhões de euros

Gilberto

3 milhões de euros*

Todibo

2 milhões de euros**

Helton Leite

1,5 milhões de euros*

Jan Vertonghen

Custo zero***

João Mário

Custo zero***

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*Sem valor oficial – valor indicado no site transfermarkt
**Sem valor oficial de empréstimo – valor indicado no site transfermarkt
***Sem contabilização do valor pago pelo prémio de assinatura

Nos últimos anos o Benfica tem feito da formação e das boas vendas uma das bandeiras do clube. Nélson Semedo, Ederson, Rúben Dias, João Félix, entre outros, são ótimos exemplos da valorização de atletas no clube da Luz.

Olhando para as mesmas três janelas de transferências, percebe-se que o encaixe feito foi menor que os anteriores e que, mesmo os jogadores que saíram, dificilmente foram transferidos nas condições esperadas.

Veja-se o caso de Rúben Dias, que em 2020/21 ainda fez três jogos no Benfica – um no play-off da Liga dos Campeões e dois no campeonato, tendo até marcado um golo no jogo de despedida, com o Moreirense. Mas o central português já há muito que estava destinado a uma saída, pelo que não se podem atribuir os 68 milhões de euros pagos pelo Manchester City a Jorge Jesus.

O mesmo se aplica a Pedrinho, jogador contratado por Jorge Jesus, mas que foi vendido seis meses depois, depois de ter feito 32 jogos, mas quase nenhum deles com grande expressão. Atenuante para o facto de o Benfica ainda ter conseguido lucrar com este jogador, que acabou por sair por 18 milhões de euros.

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Situação diferente foi a de Nuno Tavares, jovem lateral-esquerdo que começou por ser uma aposta clara de Jorge Jesus, que até lhe chegou a vaticinar uma rápida chegada à Seleção. O jogador foi perdendo espaço e acabou vendido por 8 milhões de euros ao Arsenal, numa valorização que teve, claramente, dedo do treinador do Benfica.

Tudo somado, o Benfica passou de ganhos líquidos com transações de jogadores de 126 para 88 milhões de euros, queda em grande parte justificada pelo ano especialmente bom com a venda de João Félix - que foi contabilizado em 2020.

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