“Infelizmente fazemos muito pouco dinheiro em Portugal”. Os três mitos sobre a Galp de acordo com o seu CEO (que defende ainda que os impostos por cá já são muito altos)

CNN Portugal , MJC
19 set, 18:31

Na sua intervenção na CNN Portugal Summit, Andy Brown fez questão de desmontar o mito de que a Galp lucra com os consumidores portugueses e avisou que os preços no mercado regulado do gás também podem subir

O presidente executivo da Galp Energia, Andy Brown, rejeita a acusação de que a empresa está a ganhar dinheiro com os consumidores portugueses por causa da crise energética e dos preços elevados. Na sua intervenção, esta manhã, na CNN Portugal Summit, em Lisboa, o gestor fez questão de sublinhar que, apesar dos lucros globais anunciados no primeiro semestre do ano, a empresa perdeu dinheiro para abastecer de gás a Península Ibérica: “Infelizmente fazemos muito pouco dinheiro em Portugal”, afirmou Andy Brown.

De acordo com o CEO da Galp existem três mitos associados à empresa que é importante desmontar.

Primero mito: os lucros da Galp são excessivos

A Galp anunciou ganhos de mais de 400 milhões de euros na primeira metade de 2022. Mas Andy Brown recorda que a Galp teve dois anos de grande dificuldades por causa da pandemia e tem mais de oito mil milhões de capital aplicado em todo o mundo. "Os ganhos representam 10% do que temos investido, isto é muito mais baixo do que o retorno das maiorias dos negócios na Europa", disse. Além disso, "este ano a Galp está a investir em mais do que esse valor na construção de novas infraestruturas". O gestor explica ainda que 80% dos cash-flow (meios libertos) tem origem na produção de petróleo, em países como Brasil e Angola.

Segundo mito: a Galp está a lucrar com os consumidores em Portugal

"Infelizmente, fazemos muito pouco dinheiro em Portugal", disse o CEO da empresa. A contribuição de Portugal é de 3% dos lucros. Além disso, explica, a Galp "perdeu 135 milhões de euros a importar gás para a Península Ibérica", na primeira metade deste ano, por causa das interrupções de fornecimento de energia da Nigéria, que a empresa teve de compensar comprando a energia no mercado a preços mais altos. "E apesar dessas perdas nunca deixamos de cumprir os nossos contratos e fornecer gás aos nossos clientes”.

Andy Brown aproveitou para criticar o facto de o Governo ter permitido o regresso de mais de um milhão de clientes ao mercado regulado do gás - mercado este que é abastecido pela Galp. "Estamos a discutir este tema com o Governo", revelou. "Acreditamos que este movimentos afeta os nossos direitos" e é "um retrocesso após anos a caminhar em direção à liberalização do mercado".

Andy Brown admite que entende a "frustração do público" que não consegue mudar para o mercado regulado mas recorda que estas empresas têm apenas 2% do consumo de gás em Portugal. Além disso, a lei prevê a extinção do mercado regulado em 2024. "As empresas não têm capacidade para acolher todos os que querem mudar, temos que pedir às pessoas para serem pacientes", disse. "Também devo avisar o público que o mercado regulado baseado no fornecimento da Nigéria está sujeito a revisões regulares dos preços, por isso os preços poderão subir."

Terceiro mito: a Galp está a ter grandes lucros e por isso deve pagar mais impostos

"Já pagamos muitos impostos, os impostos em Portugal são muito elevados quando comparados com outros países europeus, o que representa uma desvantagem competitiva para nós", afirmou o CEO da empresa.

Entre 2005 e 2022, a Galp gastou 2,7 mil milhões de euros nas refinarias em Portugal. “A Galp financiou as refinarias, sem qualquer retorno, durante 18 anos. Este ano, pela primeira vez, a refinação obteve lucros, que, de acordo com Bruxelas, terão de pagar impostos acima do que é suposto, uma vez que a Comissão propõe uma taxa de 33% sobre o lucro de 2022 que exceda em 20% a média de lucro dos três anos anteriores.

"Reconheço que os portugueses estão preocupados com o inverno que aí vem e com a capacidade de pagar as contas da energia. Este é um momento difícil. "É fácil culpar a guerra da Ucrânia mas lembremo-nos de que os preços do petróleo já estavam elevados antes da guerra. Esta crise tem mais a ver com falta de investimento nas energias fósseis tradicionais (petróleo e gás) e na lenta transição para as energias renováveis", disse, reforçando a importância de avançar muito mais rapidamente na exploração do cobre e do lítio.

"A pandemia foi seguida de uma crise energética, que é agora seguida por uma guerra na Europa. Em tempos de crise é muito fácil centrarmo-nos no curto prazo", disse Andy Brown, sublinhando a necessidade de mantermos o foco na transição energética e na emergência climática. Na sua opinião, para que o sistema energético funcione, a energia tem de ser acessível, estar disponível e ser sustentável. "Receio que os dois primeiros critérios tenham assumido a prioridade sobre o terceiro", disse. "É óbvio que 2022 foi um ano de retrocesso" no que toca à sustentabilidade. No entanto, sabemos que "a única maneira de combater as alterações climáticas é através da mudança massiva e urgente para energias renováveis."

Por isso, deixou um apelo aos governos que "têm de legislar no sentido de incentivar o investimento verde e facilitar licenciamentos. Paralelamente, temos de trabalhar para diminuir os combustíveis fóssuis que representam 80% do sistema energético". Esta crise mostrou que ainda estamos muito dependentes dos combustíveis fósseis, pelo que "não se pode demonizar o investimento em petroleo e gás, essa não é uma boa maneira de acelerar a transição. Temos de continuar a fornecer petróleo e gás, que representam o centro do nosso sistema energético."

A Galp fará a sua parte, garantiu. Mas é preciso que os governos e a União Europeia trabalhem em conjunto com as empresas. Este é "um trabalho de equipa". "Criar um clima de investimento atrativo é a única forma para juntos resolvermos as crises energética e climática", concluiu.
 

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