Não é preciso plantar árvores. Florestas tropicais podem regenerar-se naturalmente ao longo de 20 anos

10 dez 2021, 12:03
Floresta

O estudo, que contou com a participação de mais de 90 investigadores de todo o mundo, sugere que não é necessário plantar mais árvores para conservar as florestas quando a natureza já o faz por ela própria, desde que não haja intervenção humana

As florestas tropicais podem regenerar-se naturalmente caso não sejam sujeitas a intervenção humana ao longo de duas décadas, revelou um estudo publicado esta sexta-feira na Science - uma descoberta que, de acordo com os investigadores, pode ter um impacto no combate às alterações climáticas, tendo em conta a rapidez "surpreendente" deste processo natural.

De acordo com Lourens Poorter, professor em Ecologia Funcional na Universidade de Wageningen dos Países Baixos e principal investigador do estudo, este processo natural deve-se a um mecanismo multidimensional através do qual a flora e a fauna ajudam no crescimento de uma nova geração de floresta - um processo conhecido como "sucessão secundária".

Com esta descoberta, os investigadores acreditam que não é demasiado tarde para refazer os danos provocados pela humanidade ao longo das últimas décadas. "Isto são boas notícias", salientou Lourens Poorter, citado pelo The Guardian, considerando que 20 anos é "um tempo realista" não só para a atuação da geração atual, como também para os mais jovens.

Embora a ideia de regeneração natural seja frequentemente descartada para promover a plantação de árvores, o investigador salientou que o primeiro processo está associado a melhores resultados quando comparado com a restauração de plantações.

"Comparando com a plantação de novas árvores, [a regeneração natural] tem melhores resultados em termos de biodiversidade, mitigação das alterações climáticas e na recuperação de nutrientes", apontou Lourens Pooter, acrescentando, por isso, que a mensagem central deste estudo é que não é necessário plantar mais árvores quando a natureza o faz por ela própria.

O estudo contou com mais de 90 investigadores de todo o mundo que se juntaram para analisar exatamente como é que as florestas se regeneram. Neste sentido, recolheram informação sobre a recuperação de florestas de três continentes, 77 locais e 2.275 terrenos nas Américas e na África Ocidental. A partir daí, avaliaram 12 critérios específicos, nomeadamente o solo, a planta, a estrutura de ecossistema e biodiversidade, entre outros. De seguida, construíram um modelo com esses dados - sem o qual teriam de esperar mais de 100 anos para ver o processo em tempo real - com uma técnica designada 'cronosequenciamento', que permite aos investigadores inferir tendências a longo prazo na recuperação das florestas.

Os investigadores observaram particularmente o que acontece à terra das florestas tropicais que foi utilizada para a prática da agricultura e que acabou por ser abandonada. Os resultados mostram que a porção de terra mais antiga - desde solo fértil, árvores residuais, entre outros - criou um ecossistema nutritivo e interconectado que favorece o crescimento de uma nova floresta.

No geral, as florestas tropicais podem recuperar perto de 78% do seu estado de crescimento anterior em apenas 20 anos. "Isso é tremendamente rápido - surpreendentemente rápido", admitiu Pooter, citado pelo jornal.

É claro que isto são apenas cálculos, ressalvou Eric Salas, investigador de ciências geoespaciais da Universidade do Estado Central que esteve envolvido neste estudo e que apontou como "um dos contrangimentos" desta análise o facto de se considerar que todas as florestas tropicais incluídas neste estudo têm a mesma história e as mesmas dinâmicas geracionais.

"Mas entender quão rápido as florestas secundárias emergem de forma natural a partir de terrenos de agricultura abandonados é fundamental para garantir a conservação da biodiversidade, particularmente em locais tropicais onde as florestas têm uma estrutura complexa e há uma grande diversidade de espécies da flora e fauna", acrescentou Eric Salas, citado pela mesma publicação.

Por sua vez, Poorter salientou que estas descobertas podem ser cruciais para a mitigação das alterações climáticas no futuro, comparando-as com as gerações mais jovens: "Por exemplo, as florestas secundárias são como adolescentes. Eles absorvem carbono como loucos e deixam o nosso frigorífico vazio. Se olharmos para as pessoas com mais idade, já consomem muito menos, e o mesmo acontece com a recuperação das florestas", explicou.

"O que nós queremos enfatizar é: por favor, valorizem essas florestas secundárias e, nas áreas onde puderem, por favor deixem que essas florestas recuperem a sua forma anterior naturalmente", apelou Pooter, apontando que muitas das promessas que têm sido feitas sobre a plantação de árvores de modo a restaurar as florestas em todo o mundo é "irrealista". Na maior parte do tempo, acrescentou, entre 30 a 50% dessas árvores acabará por morrer, além de estarem reduzidas a apenas algumas espécies, que não conseguem replicar a biodiversidade natural das florestas.

Por fim, o investigador apelou ao recurso à "regeneração natural [das florestas], onde se pode plantar e restaurar ativamente onde for necessário".

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