Esta empresa de fragrâncias está a tentar recriar o aroma de flores extintas

CNN , Nicole Mowbray
15 jun, 19:00
Future Society

O que se obtém quando se junta uma equipa de cientistas, um laboratório especializado em sequenciação de ADN e algumas espécies extintas? Embora a resposta possa parecer o enredo de Jurassic Park, estas são, na verdade, as bases da Future Society, uma empresa de fragrâncias biotecnológicas que está a mudar o mundo dos aromas ao evocar flores extintas.

A trabalhar com o Harvard University Herbaria - que alberga mais de cinco milhões de espécimes botânicos - e com a empresa de biotecnologia Ginkgo Bioworks, a Future Society conseguiu sequenciar o ADN de plantas preservadas, algumas com mais de 150 anos. Seis delas já foram transformadas em perfumes, com notas olfativas que vão desde o amadeirado ao floral.

Um exemplo é a orbexilum stipulatum, uma planta herbácea e florida que crescia em Rock Island, na parte mais rasa das antigas quedas de água do Ohio, nos Estados Unidos, e que terá florescido pela última vez em 1881. Pensa-se que a planta foi erradicada após o desaparecimento dos búfalos que migravam pela zona, deixando de dispersar as sementes. Na década de 1920, a área foi totalmente submersa por barragens, eliminando qualquer esperança de recuperação.

"Usámos esta tecnologia… para dar um vislumbre de como estas flores extintas poderiam ter cheirado" - Jasmina Aganovic, fundadora e CEO da Future Society

“Queríamos criar aromas que nunca tínhamos cheirámos e fragrâncias que não era possível produzir”, explica Jasmina Aganovic, fundadora e CEO da Future Society e da sua empresa-mãe, Arcaea, numa entrevista em vídeo à CNN.

“É uma tecnologia semelhante à usada pela ancestry.com ou pela 23andme, em que os utilizadores cospem num tubo, enviam-no e esperam pelos resultados genéticos”, diz Aganovic. “Usámos essa tecnologia em espécimes preservados de flores extintas, procurando moléculas aromáticas que nos começaram a dar pistas sobre o possível aroma dessas flores”.

Uma ciência imprecisa

Aganovic não começou com o desejo específico de cheirar uma determinada flor, mas sim com a vontade de mostrar como os avanços biológicos podiam ser aplicados no setor da beleza.

De forma “nada romântica”, a equipa da Future Society analisou quantos espécimes existiam no Harvard University Herbaria, quantas amostras podiam obter e quais seriam possíveis de reconstruir, visto que o ADN se degrada com o tempo, esclarece Aganovic. “No fundo, não sabíamos se este exercício de ‘desextinção’ ia resultar, por isso foi uma questão de números”.

Sobre o processo, Jasmina Aganovic tenta explicar: “Os espécimes são pequenos fragmentos levados para o laboratório, onde passam por uma série de reações químicas que os decompõem, deixando apenas o ADN”. Os primeiros dados obtidos eram bastante crus, contou Aganovic. “Cheirava a algo que passou por um corta-relva, porque estávamos a captar tudo - não só as pétalas perfumadas, mas também o caule, as folhas, quem sabe mais o quê… O código genético não está apenas na flor, certo? Está em toda a planta”.

Ou seja, recriar o aroma de uma flor extinta não é, como sublinha Aganovic, uma ciência exata. Sobretudo porque o aroma é extremamente complexo: por exemplo, uma flor de jasmim ou uma rosa contém centenas - ou até mesmo milhares -  de moléculas aromáticas diferentes.

“Podemos comparar isso com os nossos próprios genes”, adianta. “Carregamos duas cópias de cada gene, uma do pai biológico e outra da mãe biológica, mas o corpo não expressa ambas. O que o corpo decide expressar é a nuance aqui”. 

As fragrâncias têm nomes evocativos como Grassland Opera - Ópera de Pastagem - e Invisible Woods - Florestas Invisíveis. 
(Fotografia: Erik Jacobs/Future Society)

Quando o ADN da planta extinta foi sequenciado, muitos genes responsáveis pelas moléculas aromáticas foram revelados - mas nem todos foram “ativados” quando introduzidos em levedura, um organismo vivo. “Isso restringiu o perfil olfativo e deu-nos mais confiança sobre a direção que o aroma da flor teria seguido”, assegura a fundadora e CEO da Future Society.

Tecnologia com um toque humano

Apesar da evidência genética, havia ainda trabalho interpretativo para fazer. “Ter o ADN na levedura não gera automaticamente uma fragrância sofisticada, apenas nos dá o perfil aromático. A verdadeira criação e composição depende dos perfumistas, das suas notas e bibliotecas de compostos”, esclarece Jasmina Aganovic.

A Future Society não usa o ADN para regenerar as flores extintas. Os registos disponíveis também são escassos - e subjetivos. E se ninguém vivo cheirou a flor, como se determina se merece ser transformada em fragrância? “É isto que adoro neste trabalho”, admite Aganovic, cientista de formação e ativa na indústria da beleza desde 2014. “Não se trata apenas da arrogância científica. Apesar de termos os dados, dependemos também de outros especialistas, como perfumistas e botânicos, para analisar a linhagem das plantas, as suas relações com plantas vivas, o seu habitat, etc.… Estes elementos deram-nos pistas sobre como poderíamos reconstruir o aroma através de uma mistura de arte e ciência”.

A Future Society colaborou com perfumistas de casas famosas como a Givaudan (que também investe na Arcaea, tal como a Chanel e a Olaplex) e a Robertet, para obter uma mistura de notas - sintéticas, naturais e bioengenheiradas - inspiradas nas moléculas das flores extintas. Segundo o site da marca, os perfumes são “tributos” ao que essas flores poderiam ter cheirado.

Coleção Scent Surrection da Future Society (Fotografia: Future Society)

Contar histórias através do aroma

Três perfumistas trabalharam nas recriações da Future Society, cada um com a sua visão única. Olivia Jan, responsável pela fragrância Grassland Opera, imaginou o aroma da orbexilum stipulatum. “Esta flor crescia perto de uma cascata, por isso tentei criar algo húmido, verde e luxuriante,” contou à Harper’s Bazaar USA, em 2023.

A perfumista Daniela Andrier, que criou duas fragrâncias para a Future Society, quis contar a história da extinção do ponto de vista da Terra. Reclaimed Flame homenageia a Leucadendron grandiflorum, extinta na África do Sul em 1960, enquanto Invisible Woods é baseada na Wendlandia angustifolia, extinta na Índia em 1917 devido à seca. “A paleta de ingredientes da Andrier baseou-se em elementos terrosos e herbais, porque era essa a sensação que queria evocar”, adianta Jasmina Aganovic.

Orbexilum stipulatum é uma espécie vegetal da família das leguminosas, conhecida pela sua aparência única e papel ecológico no meio-ambiente. Esta planta desempenha um papel importante na estabilização do solo e na biodiversidade do seu habitat.  (Fotografia: Art Collection 3/Alamy Stock Photo)

Já Jérôme Epinette criou três fragrâncias, incluindo a mais vendida Solar Canopy, baseada na hibiscadelphus wilderianus, uma flor do Havaí extinta em 1912 devido à desflorestação. Epinette interessou-se pela ideia de viajar no tempo, querendo que quem usasse o perfume se sentisse transportado para o ambiente da flor. “Os dados de ADN indicavam tons terrosos, por isso a fragrância inclui vetiver (que cheira a relva seca ou madeira húmida), mas também havia elementos mais frutados — notas de lichia, magnólia e algumas notas ácidas”, acrescenta Aganovic.

Embora parte da tecnologia usada seja semelhante à de empresas como a Colossal (que afirmou em abril ter ‘ressuscitado’ o lobo terrível), Jasmina Aganovic prefere distanciar-se dessas comparações. “Não estamos a ressuscitar completamente estas flores. Somos uma empresa de beleza focada na auto expressão através do aroma pessoal, e sei que não é tão excitante como ‘trouxemos os lobos de volta’, mas acho importante reconhecer isso”.

“Esta ideia da ‘desextinção’ deixa-me desconfortável porque… sinto aquele cheiro a ‘no futuro vamos desextinguir tudo’”, diz a fundadora e CEO da Future Society, deixando um aviso “Não podemos ser tão arrogantes ao ponto de pensar que podemos simplesmente ‘cientificar’ a solução dos nossos problemas. Sim, a tecnologia pode trazer espécies de volta, mas o que não podemos recuperar é a relação que certas populações tinham com aquela planta. A nossa relação humana com o ambiente não é algo que se possa simplesmente copiar e colar”.

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